Adolescente Magoada, parte III e última
Lourenço caminhava depressa e nervosamente. Avançava na direção da casa de alguém que já não via há muito tempo. Desde o episódio de há 3 dias, Débora parecia completamente desaparecida. Ele percebia que por causa do irmão iam passar a ser discretos. Percebia que todos os amigos dela o odiavam. Ela dizia que já não eram amigos, mas ele não acreditava. Mesmo que ela já não os considerasse, a maneira como a protegiam era óbvia. E fora ela que os abandonara, ele não a obrigara a nada. Ele até gostava deles, excetuando Dinis, mas isso era mais por uma situação de ciúmes do que por não gostar mesmo dele.
Ele lembrava-se do início do namoro deles. Lembrava-se de como ela costumava correr e saltar-lhe para o colo, como o costumava abraçar, do sorriso enorme dela após um beijo, do sorriso enorme dela quando estava com os amigos, o sorriso enorme dela com o irmão, ... Ela tinha sido feliz. Agora o sorriso dela estava apagado. Toda ela estava apagada. Era uma imagem baça da verdadeira Débora. Antes, as roupas dela transpareciam alegria e aquilo em que ela acreditava de uma forma colorida e divertida. Agora, as roupas dela eram escuras e sem vida, a tentar esconder o máximo de pele possível. Porque debaixo daquela roupa, haviam nódoas negras, inchaços e feridas abertas. Que ele lhe tinha feito. Fechou as mãos em punho, com nojo de si próprio.
Estava decidido, não lhe ia tocar mais. Era isso que lhe ia dizer agora. Não podia ser. Nunca mais. Tinha de acabar.
Antes, ela sorria por tudo e por nada. Antes, ela tinha amigos em todo o lado. Não havia um sítio para onde olhasse onde não tivesse amigos. Agora, andava sozinha a chorar pelos corredores. E ele tinha-lhe feito isso. Não. Por ela, nunca mais.
*********************************************************************************
Débora dava socos ao saco de boxe que tinha no quarto. Tinha pedido aos pais por um, porque precisava de descarregar tudo. Era muito terapêutico. Dava uns socos, cansava-se tanto fisicamente como emocionalmente, chorava uns minutos e assim conseguia aguentar outro dia.
Agora imaginava que aquele saco de boxe era o seu irmão. E ia murmurando:«Quem pensa ele que é...» .
Cansou-se fisicamente, mas a raiva era ainda grande. Mas ignorou-a. Foi tomar um duche e vestiu-se. Quando estava pronta, a campainha tocou. Imaginou quem seria. Mas não queria realmente saber. Aliás, não queria realmente saber até o irmão ter resmungado um : «Por amor de Cristo.» e a ter chamado.
Quando desceu, Lourenço estava no vão da porta e Joel olhava-a de sobrolho franzido em sinal de aviso. Mas saiu da entrada. Débora aproximou-se de Lourenço, empurrando-o para trás de modo a ficarem nas escadas. Fechou a porta atrás de si e olhou para ele. Este observava-a muito minuciosamente. Ela beijou-o levemente. Ele afastou-a levemente de modo a que houvesse alguma distância entre os dois. Ela fez-lhe uma expressão confusa. Como resposta, ele suspirou e disse:
- Estás adorável...
- Isso é suposto ser um insulto? - disse ela, confusa.
- Não, mas quer dizer que me vais dificultar o trabalho.
- Que trabalho?
- Ah... Nós... Amo-te, Débora.
Ela olhou-o meia a sorrir.
- Isso é mau?
- Não. Mau é...- ele levantou-lhe as mangas da camisola e apontou-lhe para as feridas. - Mau é isto. E fui eu que o fiz.
- Mas eu sei que não foi de propósito. Eu sei que te descontrolas. Eu sei que a culpa não é tua.
- Estás a gozar, não estás ?
- Lourenço...
- Nós não podemos estar juntos se eu te vou magoar. O que o teu irmão fez foi muito bem merecido. Quem me dera que ele me tivesse matado.
- Cala-te. Eu perdoo-te, nós estamos bem.
- Não, não estamos. Eu amo-te mais do que tudo e só Deus sabe o quanto me vai doer a respirar sequer sem ti. Mas não quando isso te magoa. Não, de maneira nenhuma.
- Mas...
- Não.
Beijou-a na bochecha e foi-se embora.
Ela ficou de boca aberta, a vê-lo desaparecer e a sentir toda a tensão da sua vida a esmorecer-se.
Comentários
Enviar um comentário