O ciclo sem fim

Ouvi algo estalar.
Tudo aquilo parecia irreal, desde as luzes coloridas e presas, que tornavam a minha visão fracionada e lenta, à música ridícula e pulsante, que me obrigava a mexer-me e a participar, à mão que me prendia.
De repente, o choque transformou-se em lucidez. As mãos dele começaram a pesar-me nas costas, o corpo dele começou a, finalmente e realmente, aparecer à minha frente. E, ao contrário do esperado, a minha vontade foi correr. Correr, mesmo que os meus pés, armados com uns tacões destruidores, se desfizessem. Correr, mesmo que acabasse por cair. Correr, mesmo que parecesse ridículo, patético, embaraçador.
Pensei mesmo em fugir, refugiar-me em algum lugar onde chovesse profusamente, deitar-me no chão e fechar os olhos. Não pensar, não imaginar. Simplesmente desaparecer ali, deixar o meu espírito fugir daquele corpo magoado e abandonar-se. Porque tudo aquilo era demasiado real, demasiado familiar, demasiado passado.
E assim, com a respiração dele no meu ombro, o corpo dele encostado ao meu, de uma maneira muito mais efusiva do que eu esperava, os meus olhos cegaram-se. E tudo o que eu vi foi uma passagem rápida de todas as vezes que ele me esmagou. De todas as vezes que ele me transformou numa formiguinha pequena no caminho dele.
Não me achei surpreendida quando aquela sensação a que eu já estava habituada voltou. Como se me tivessem arrancado o meu coração e o tivessem espezinhado com toda a força possível. Por segundos desejei que alguém o fizesse. Porque assim a pessoa cujo corpo passeava pelo meu, deixava de me significar fosse o que fosse.
Ouvi algo a estalar.
Apercebi-me de que esse ''algo'' era o meu peito. E então, para bem da minha saúde, afastei-me deliberadamente daquilo que eu pensei querer fazer para o resto da vida. No resto da noite, dirigi-lhe mil sorrisos, todos eles cheios de respostas evasivas, todos eles cheios de desprezo e saudade.
Acreditei sinceramente, várias vezes por sinal, de que tinha acabado. Mas não tem fim. Nem com a distância, nem com a proximidade, nem com a frieza, nem com o calor. Não tem fim. Eu não consigo. E, aliás, não quero conseguir. Desisto. Não posso fazer mais, não tenho mais a fazer. Que as chamas da dor me consumam por inteiro. Desde que eu consiga para sempre manter a compostura, não me importo.
Não posso voltar a vê-lo. Estava ansiosa por fazê-lo porque acreditei mesmo que me traria paz. Não trouxe paz nenhuma, trouxe-me uma tarde de sábado chuvosa, em que me sinto dilacerada e em que não consigo sequer pensar naquilo que aconteceu. Não consigo fazer mais nada que não seja fitar o animal inanimado e implorar-lhe para que ele faça alguma coisa, porque eu já não posso mais, de maneira nenhuma.

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