Ainda a contar...

Dia 237:
Os murmúrios paralelos mantêm-se. Eu mal os ouço a sussurrar, a rir.
A sala está quente, mais quente do que lá fora, imaginava eu.
Fito a página em branco. Procuro na minha mente um qualquer rasgo de brilhantismo, de esperança. Nada. Tudo o que se ouve é silêncio.
Dirijo o olhar para a janela que mostra a realidade deprimente de uma quinta-feira chuvosa e escura. Os enormes montes verdes eram uma constante animadora no longo e gelado Inverno que nos esperava. Sorri, ansiosa pelas noites sentada à frente da lareira a ler um livro, a árvore de natal a espreitar-me no canto do olho. É impossível sentir-se partida quando o calor nos invade suavemente as veias, a nossa casa cheira a comida e tudo é harmonia, amenidade, calma. O teu coração enche-se, remenda-se, torna-se uma nuvem pura e leve.
Anseio pelo inverno gelado se ele significa um coração remendado. Sabia que para o meu coração já não havia remendo que valesse, mas alguns agrafos, talvez, resolviam a coisa.
As noites geladas de inverno enchiam-me também de nostalgia, pois a cada ano esta estação representou memórias cheias e doces, sempre diferentes, sempre felizes. Fui amaldiçoada ou abençoada com esta memória não seletiva que perpetua todos os longos Invernos desde há tantos anos, que me incutem um sorriso nostálgico nos lábios.
Considero os Invernos um capítulo particular, separado, da minha vida, pois em todos eles eu fui próspera, o que não reflete a realidade do resto do ano. Chega a ser hilariante o quão diferente era a vida ano passado. E no ano anterior. E no ano anterior. O inverno é assim a espiral infinda na minha vida, a época da hibernação das agonias, da prosperação do calor e da felicidade.
Ansiava pelo inverno se ele significava o fim das minhas amarguras.
Os montes verdes de S.Bartolomeu ficaram subitamente turvados. Uma semana havia passado, quase. Uma semana desde que o meu coração me fora arrancado do peito pela milésima vez, de uma maneira tão simples e doentia que acho embaraçoso admitir. E os dias tornaram-se nauseabundos e horríveis, tornaram-se o inferno na terra. Este dia de quinta-feira é o primeiro em que, apesar do monótono tempo, eu sinto-me leve e simples outra vez. O primeiro dia desde que, figurativamente, enterraram a mão bem dentro do meu peito e roubaram o que quer que ainda sobrava do meu órgão pulsante.
Os primeiros dias foram dias de nevoeiro mental, de dormência completa. Estava anestesiada com um tédio estridente, que penso que era apenas para disfarçar os gritos vibrantes que se queriam libertar de mim. Mas eu não tinha voz. O cansaço, esse espírito incorpóreo omnipresente em mim, impedia-me de ser, de existir, de pensar. Tudo o que eu queria era poder dormir, fugir para a terra das ilusões, para uma terra onde não existe cansaço ou tempo. Não suporto que o tempo passe assim tão depressa, tão impossivelmente fugidio.
Parece que uma eternidade passou desde essa fatídica noite. Parece que o inverno chegou mais depressa ao meu peito e, com lixívia da mais forte, lavou dele todos os pesos e todas as tormentas. Começou a agrafá-lo da forma mais leve e menos dolorosa possível. E, sem eu me aperceber, estou quase curada. Talvez seja só uma fase momentânea ou talvez não. Prefiro manter o otimismo invernal e decidir que veio o melhor.
Voltei a fitar a página em branco, a cerrar outra vez os meus pensamentos nostálgicos, a procurar uma qualquer faísca na minha mente brilhante. Senti-a a tentar fugir de mim. No entanto agarrei-a, deixei-a escorregar até aos meus dedos e comecei, finalmente a escrever.
No meio de uma série de gatafunhos e palavras rebuscadas, destacavam-se despedidas, frases de paz interior indubitável, sorrisos tristes e saudosos, fechares de coração. E, no perfeito meio desse aglomerado de palavras que me era tanto quanto eu o era, estava o nome. Um nome tão maldito quanto sagrado, tão doce quanto amargo, tão representador de paz quanto de todas as guerras mais sangrentas que já existiram. Mais uma vez pedi que assim que eu o sussurrasse esse tal nome me ouvisse, me compreendesse. Portanto, assim o fiz mais uma vez, após tantas outras vezes. Desta vez de coração completamente (ou momentaneamente) livre.
Creio que nunca saberei se ele alguma vez receberá os recados.
Seja como for, esse nome esteve fora da minha mente o resto do dia. Bem como no dia a seguir, no dia a seguir e no dia a seguir...

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