''Tempo, tempo, que não volta atrás. Nem sempre há remendo para as asneiras que se faz.''

As sombras movem-se na meia escuridão. Sombras das minhas mãos a procurarem o meu rosto em mais uma noite sem dormir. Em mais uma noite atormentada por nada mais que eu própria.
O tempo corre barbaramente. Sem eu dar conta passaram meses e meses, dias e dias, em que me foi sugada a vida. Já quis desesperadamente que o tempo parasse, já quis ainda mais desesperadamente que voltasse atrás. O tempo não me obedeceu. Mas obedece-me agora que lhe imploro que corra o mais sofregamente possível, como se se olhar para trás se vá tornar em cinzas.
Eu suspiro, a manhã chega. Eu sorrio e mais uma semana passou. Não tenho memória de nada, porque não há nada para memorizar. A minha vida é pura velocidade, sofreguidão, escuridão. Tudo é um nevoeiro na minha mente, nada existe realmente.
Já nem sequer o tédio me atormenta. Já passei o tédio, já passei o desespero, já passei as manifestações entre inspirações de quem quer existir, de quem quer pertencer. A pior parte já passou, digo eu, a sentir o conformismo assolar-me outra vez.
E mais um mês passa, sem que eu tenha tido tempo para me aperceber, para respirar. De repente, vejo-me já enlouquecida, atolada em trabalho, atolada em sacrilégios mentais, que ocupam demasiado o meu espírito e o meu corpo.
E mais semanas passam. O tempo passa e passa, e eu apenas corro de um lado para o outro.
Até que tudo pára. Por breves momentos de lucidez. E esses pequenos momentos de lucidez são piores que todos os dias que passo a correr. Porque a correr fujo de toda e qualquer memória. A correr não tenho tempo para saber, para me reconhecer, para me lembrar. Nesses momentos em que paro, eu existo. E tudo o que comigo advém também existe.
E as pequenas coisas, aquelas que o tempo não leva (porque ele já se ocupou de levar a maior parte), essas, encravadas na memória que eu não tenho tempo para ter, emergem devagar, como agulhas a passar a pele. Coisas pequenas, aquelas porque a solidão implora, aquelas que me dão arrepios, que fazem o meu corpo doer da falta. Essas não se enterram. Não se enterram porque a solidão as quer, não se enterram porque eu ainda (apesar do ''ainda'' já ser há quase um ano) não as quero enterrar, não se enterram porque o rosto dele ainda se propaga por aqueles corredores rígidos e verdes que marcam todas as minhas escassas memórias. O rosto dele ainda me aparece à frente todas as manhãs, ainda me sorri e ainda olha para mim, ainda coexiste demasiado perto de mim. Esse rosto é real. E esse rosto não pode ser esquecido, enterrado. Portanto, esses momentos de lucidez são passados a fitá-lo, a suspirar, a sentir-me de garganta seca e de coração esmagado, enquanto ele vive e sorri, sendo uma pessoa completamente diferente do que eu quero que ele seja.
À verdadeira versão desse rosto, essa levou-a o vento, resultante da velocidade do tempo, resultante do desaparecimento das minhas memórias. Mas, mesmo assim, eu procuro-a, todos os dias. Ou encontro-a sem a procurar. A diferença é que a maior parte das vezes estou demasiado ocupada, demasiado distante para me lembrar disso. Mas quando me lembro tenho que morder a língua, tenho que controlar as mãos. Porque ele é tão igual que não pode ser ele. Ele é tão igual que merece tudo o que eu daria ao outro.
Assim eu imploro ao tempo que corra. Que corra sem olhar para trás, que me apague do mundo, que faça de mim apenas uma sombra como aquelas que dançavam na minha parede. Que, ao fazer de mim nada, me dê a força e a paciência para de facto não ser nada. Que o frio passe a correr, tal como o calor. Que o tempo corra e corra, sem ficar exausto, sem descansar. Para que, quando parar, daqui a muito tempo que parecerá pouco, já nada me incomode. Já tenha paz interior.
Tempo, corre, apaga a minha memória, apaga-me. Não me deixes sofrer de insónias, de dores. Que tudo seja enevoado, cinzento, rápido, uma anestesia infinda. Que, quando o calor e o vagar chegarem, eu já me tenha refeito. Corre, corre. Se possível para sempre. Assim nunca mais terei a noção, nunca mais saberei, quanto perdi, quanto nunca mais recuperarei, quanto de mim se foi, quanto de mim nunca mais voltará, quanto fui, quão pouco serei, quanto me dói, quantos dias e noites passei sem conseguir respirar, quanto de mim está queimado, quanto de mim é cinza que o vento leva.
Tempo, Tempo. Nunca mais pares, Tempo.

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