Adolescente Magoada, parte I - 1ª história
Débora acordou. Mexeu o corpo ligeiramente para ver se se ia conseguir mexer. A dor atravessou-a pelo simples movimento. Fechou os olhos para se concentrar em ignorá-la. Sentou-se na cama. Olhou para o relógio. 6:10 da manhã. Estava na hora de ver os estragos. Ligou a luz do quarto e olhou para o espelho. Tinha uma pequena nódoa negra na bochecha, mas isso disfarçava-se facilmente. Tirou a camisola do pijama e gemeu ao olhar para o espelho. O seu corpo estava cheio de arranhões, nódoas negras e inchaços.
Pensava naquilo que conseguia esconder facilmente e naquilo que ia precisar de muita base e roupa. Foi tomar um banho de imersão para que os seus músculos se descontraíssem. Ligou música baixo, para não acordar ninguém. Então, encostada na banheira deu-se direito ao seu momento de fraqueza da semana. Deixava as lágrimas correrem-lhe pelo rosto e misturarem-se com a água na banheira. Cerca de dez minutos depois, saiu do banho e secou-se. Aplicou o hidratante, a base e vestiu-se. Uma camisola bege pelo fundo do pescoço, umas calças de ganga justas e uns botins bege. Aplicou o rímel e lápis. Pôs o relógio e o cachecol. Ensaiou um sorriso no espelho.
No relógio eram 7 horas. Desceu para tomar o pequeno-almoço. Deu um beijo ao irmão mais velho, Joel de 17 e à irmã mais nova, Lúcia de 11 anos. Viu as notícias enquanto comia a sua torrada com manteiga e bebia o seu café com leite. Depois subiu para lavar os dentes e secar o cabelo. Penteou-o e encaracolou algumas partes, porque ele gostava assim. Eram 7 e meia. Chamou o pai e o irmão para que se despachassem. Despediu-se da mãe e da irmã. Depois, sentava-se no banco de trás do Mercedes do pai.
Ao ver os portões da Secundária de Gaia, estremeceu. Pegou na mochila, deu um beijo ao pai e saiu do carro com o irmão. Este, mal entraram na escola, deu-lhe um beijo na testa e desapareceu.
Ela controlava o ataque de pânico que lhe subia pelo peito acima.Eram 8 horas. Pousou a pasta no cacifo e tirou os livros que precisava. As pessoas olhavam para ela nos corredores. Caras que antes tinham sido amigas e amigos olhavam-na com preocupação. Caras desconhecidas ou que conhecia de vista olhavam-na admiradas e algumas comentavam umas com as outras. Ela tentava ignorá-las. Foi à papelaria, pois precisava de tirar uma fotocópia. Depois disso, dirigia-se à sala. De repente, o conhecido cheiro de tabaco misturado com o perfume BOSS, invadiu-lhe os pulmões. O ataque de pânico tornava-se crítico quando ele lhe rodeou a cintura com as mãos. Virou-se para que ele pudesse esmagar os lábios dele com os seus, como fazia sempre. Depois, fazia-lhe um sorriso enorme. E ela parava de respirar ao olhar para aqueles doces olhos verdes. Mas, a memória de já os ter visto imensas vezes duros e incendiados aparecia-lhe na cabeça e o ataque de pânico crescia. Ele pôr-lhe-ia o braço à volta dos ombros e contar-lhe-ia tudo o que acontecia na sua vida, na equipa de hóquei, na família, nos amigos, nos estudos, como fazia sempre. E ela ouvia, para que ele não se zangasse. Depois, ele perguntar-lhe-ia como estava ela, mesmo que não quisesse mesmo saber. E ela dir-lhe-ia. Ele levá-la-ia para a sala, dar-lhe-ia um beijo apaixonado e desapareceria.
Enquanto estava na aula, pensava se merecia mesmo isto. Depois, olharia em volta da sala e aperceber-se-ia que os olhos da sua ex-melhor amiga, estavam cravados em si. Ela estaria a olhá-la com pena e quando ela olhasse mudaria o seu olhar para determinação, antes de lhe virar a cara.
Estava farta da maldita rotina em que tinha entrado ...
Saiu da aula e Lourenço (o seu namorado) estava à espera dela, como de costume.
- Olá, beleza.- disse ele.
Ela observou-o. Um metro e oitenta e cinco de pura perfeição. E de um ar angélico. Caracóis de um meio loiro, que ele não deixava crescer muito, o olhar mais bonito que se podia ter com as pestanas enormes e os olhos verdes penetrantes, e os dentes mais brancos e direitos de sempre. Por amor de Deus, até as mãos e os pés do rapaz eram bonitos. Portanto, detestava que ele lhe chamasse beleza porque era ridículo o quanto ele era mais bonito que ela.
Ele observava-a também. O cabelo pelo meio das costas, meio ruivo. Os olhos tão azuis como sabe lá Deus o quê, um corpo perfeito, ... Sentiu um baque no peito quando viu a pequena nódoa negra na bochecha dela. Abriu a boca para dizer alguma coisa, mas não conseguiu. Sentiu a dor corroê-lo. Ele tinha feito aquilo. Ele tinha-la marcado assim. E matava-o. Mas não se conseguia controlar quando se chateava, ficava cego. Portanto, fazia o que todas as manhãs fazia. Abraçava-a silenciosamente durante muito tempo.
Depois, com o braço à volta da cintura dela, oferecia-lhe um cigarro, que ela aceitava prontamente. Sentavam-se no polivalente e ela observava os olhares das pessoas. Via todo o tipo de emoções. Indiferença, surpresa, luxúria, horror ...
Poucos sabiam que era ele que lhe batia. Achavam que era a família. Mas aos olhos de quem sabia, ele era um monstro.
E aos olhos dela...
Aos olhos dela, ele era ...
As nódoas negras espalhadas pelo seu corpo.
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