Indecisões
''Porque não?'' perguntam os meus olhos deliciados.
''Porque sim?'' pergunta o meu cérebro, já cansado e irónico, já farto da facilidade com que a vontade de ceder se instalava em mim.
''Mas porque não? Porque não ceder outra vez, divertir-me, ser feliz nem que seja só por um tempo?'', responde o meu corpo, concordando com os meus olhos, a vibrar e a sorrir.
''Todos nós sabemos como isso geralmente acaba...'' suspirou o meu cérebro, frustrado e irritado.
''Ninguém se iria magoar. Seria simples e fácil.'' dizem os meus olhos, não compreendendo a recusa do meu cérebro, a vontade deles a ceder ao discernimento.
''Nada é simples'' diz mais uma vez o meu cérebro ''Ambos sabemos que mesmo que seja simples para ti, o mesmo não acontece para a outra parte.''
Mexo-me desconfortável na cadeira. Era verdade. Nunca nada seria simples.
''Então render-nos-íamos a algo complexo. Já está na hora e não vejo porque não.'', responde o meu corpo, querendo participar na conversa.
''E achas que tu, aliás, qualquer um de vocês, vai parar de ser errante ou vai parar de querer ceder?'', diz o meu cérebro.
''Podemos tentar'', respondem os meus olhos.
''Tretas. Seja o que for que haja de complexo nunca vos vai parar.''
''Isso não é verdade. Já aconteceu uma vez.'' responde o meu corpo.
Instala-se o silêncio em mim. Surpreendi-me ao sentir os olhos molhados. Não me deixei ceder à súbita vontade de ser patética. Obriguei o meu cérebro a responder.
''E todos sabemos como isso correu...''
A minha respiração tornou-se funda e magoada. Sim, eu sabia como isso tinha corrido.
''Pode ser que seja diferente desta vez'', responderam os meus olhos, ficando secos e em pedra de novo.
''Pois, seria pior.''
''E porquê?''
''Vocês não vêm a história a repetir-se? Vais, vamos, acabar por fazer asneiras. E não vamos ser nós a sair magoados, mas vai ser como se fôssemos.''
''Mas...'' o meu corpo suspirou, sabendo que o meu cérebro, como sempre, tinha razão.
''Ou então vamos acabar por nos render. E acabamos por ser nós a sair a ganir. Querem isso outra vez?''
Resmunguei um ''não'' mudo. Os meus olhos voltaram a dedicar-se a deliciarem-se.
''Peço desculpa'', disse o meu coração, até aí calado a ouvir a conversa, ''mas vocês esqueceram-se de um pormenor.''
Todos viraram a sua atenção para o órgão pulsante, que falava numa voz firme e negra. Todos o temiam por ser imprevisível, fechado, calado, magoado e ligeiramente malévolo.
''Qual?'' perguntou o meu cérebro perante o silêncio assustado de todos os outros.
O meu coração sorriu, um sorriso arrogante e resignado, que não exprimiu mais do que o desprezo por todos os outros.
''Vocês estão a falar de se renderem a algo complexo. Mas esquecem-se que para isso eu, que sou o órgão principal deste corpo, preciso de sentir alguma coisa.''
''E esqueceste que eu, como o órgão mais importante deste corpo, consigo sentir tudo o que vocês sentem. Portanto sei que sentes alguma coisa.'' respondeu o meu cérebro, aborrecido com a intervenção do meu coração, com o qual partilhava uma rivalidade antiga.
O meu coração, para espanto de todos, riu-se com vontade. E quando parou, dirigiu ao meu cérebro um sorriso de escárnio.
''Parece-me que estás a ser enganado pelos sentidos, meu velho. Deves estar é a sentir uma mistura de sensações, mas acredita que vêm todas dos olhos e do corpo, da vontade e da cedência deles. De mim não sentes nada. Porque eu não sinto nada.''
O meu cérebro franziu o sobrolho, preocupado.
''E porquê que não sentes nada?''
''Aparentemente neste corpo o coração é mais racional que o cérebro.'', cuspiu o meu coração ainda de sorriso arrogante no rosto. O meu cérebro dirigiu-lhe um esgar de desprezo. '' Ou então simplesmente não consigo sentir nada.''
''Tretas. Ambos sabemos que se eu disser um certo nome tu te calas e deixas esse sorrisinho.''
''Ai sim? Ora tenta.''
E o meu cérebro começou a cantar uma determinada música. A música não era longa nem tinha uma letra complexa, era uma simples música, uma alusão ao passado, composta por umas notas suplicantes e umas palavras magoadas. Produziu o efeito que o cérebro queria. O meu coração escureceu.
''Isso não muda o facto de eu não sentir nada. Apenas me dá uma justificação para eu não sentir nada.'' e depois fechou-se, mais uma vez, voltou ao ritmo regular e, mais negro, suspirou antes de deixar a conversa.
Após um longo e agoniado silêncio, os meus olhos perguntaram:
''E então?...Isso quer dizer que?... Não?...''
O meu cérebro suspirou, exausto.
''Não... Tão cedo não.''
''Porque sim?'' pergunta o meu cérebro, já cansado e irónico, já farto da facilidade com que a vontade de ceder se instalava em mim.
''Mas porque não? Porque não ceder outra vez, divertir-me, ser feliz nem que seja só por um tempo?'', responde o meu corpo, concordando com os meus olhos, a vibrar e a sorrir.
''Todos nós sabemos como isso geralmente acaba...'' suspirou o meu cérebro, frustrado e irritado.
''Ninguém se iria magoar. Seria simples e fácil.'' dizem os meus olhos, não compreendendo a recusa do meu cérebro, a vontade deles a ceder ao discernimento.
''Nada é simples'' diz mais uma vez o meu cérebro ''Ambos sabemos que mesmo que seja simples para ti, o mesmo não acontece para a outra parte.''
Mexo-me desconfortável na cadeira. Era verdade. Nunca nada seria simples.
''Então render-nos-íamos a algo complexo. Já está na hora e não vejo porque não.'', responde o meu corpo, querendo participar na conversa.
''E achas que tu, aliás, qualquer um de vocês, vai parar de ser errante ou vai parar de querer ceder?'', diz o meu cérebro.
''Podemos tentar'', respondem os meus olhos.
''Tretas. Seja o que for que haja de complexo nunca vos vai parar.''
''Isso não é verdade. Já aconteceu uma vez.'' responde o meu corpo.
Instala-se o silêncio em mim. Surpreendi-me ao sentir os olhos molhados. Não me deixei ceder à súbita vontade de ser patética. Obriguei o meu cérebro a responder.
''E todos sabemos como isso correu...''
A minha respiração tornou-se funda e magoada. Sim, eu sabia como isso tinha corrido.
''Pode ser que seja diferente desta vez'', responderam os meus olhos, ficando secos e em pedra de novo.
''Pois, seria pior.''
''E porquê?''
''Vocês não vêm a história a repetir-se? Vais, vamos, acabar por fazer asneiras. E não vamos ser nós a sair magoados, mas vai ser como se fôssemos.''
''Mas...'' o meu corpo suspirou, sabendo que o meu cérebro, como sempre, tinha razão.
''Ou então vamos acabar por nos render. E acabamos por ser nós a sair a ganir. Querem isso outra vez?''
Resmunguei um ''não'' mudo. Os meus olhos voltaram a dedicar-se a deliciarem-se.
''Peço desculpa'', disse o meu coração, até aí calado a ouvir a conversa, ''mas vocês esqueceram-se de um pormenor.''
Todos viraram a sua atenção para o órgão pulsante, que falava numa voz firme e negra. Todos o temiam por ser imprevisível, fechado, calado, magoado e ligeiramente malévolo.
''Qual?'' perguntou o meu cérebro perante o silêncio assustado de todos os outros.
O meu coração sorriu, um sorriso arrogante e resignado, que não exprimiu mais do que o desprezo por todos os outros.
''Vocês estão a falar de se renderem a algo complexo. Mas esquecem-se que para isso eu, que sou o órgão principal deste corpo, preciso de sentir alguma coisa.''
''E esqueceste que eu, como o órgão mais importante deste corpo, consigo sentir tudo o que vocês sentem. Portanto sei que sentes alguma coisa.'' respondeu o meu cérebro, aborrecido com a intervenção do meu coração, com o qual partilhava uma rivalidade antiga.
O meu coração, para espanto de todos, riu-se com vontade. E quando parou, dirigiu ao meu cérebro um sorriso de escárnio.
''Parece-me que estás a ser enganado pelos sentidos, meu velho. Deves estar é a sentir uma mistura de sensações, mas acredita que vêm todas dos olhos e do corpo, da vontade e da cedência deles. De mim não sentes nada. Porque eu não sinto nada.''
O meu cérebro franziu o sobrolho, preocupado.
''E porquê que não sentes nada?''
''Aparentemente neste corpo o coração é mais racional que o cérebro.'', cuspiu o meu coração ainda de sorriso arrogante no rosto. O meu cérebro dirigiu-lhe um esgar de desprezo. '' Ou então simplesmente não consigo sentir nada.''
''Tretas. Ambos sabemos que se eu disser um certo nome tu te calas e deixas esse sorrisinho.''
''Ai sim? Ora tenta.''
E o meu cérebro começou a cantar uma determinada música. A música não era longa nem tinha uma letra complexa, era uma simples música, uma alusão ao passado, composta por umas notas suplicantes e umas palavras magoadas. Produziu o efeito que o cérebro queria. O meu coração escureceu.
''Isso não muda o facto de eu não sentir nada. Apenas me dá uma justificação para eu não sentir nada.'' e depois fechou-se, mais uma vez, voltou ao ritmo regular e, mais negro, suspirou antes de deixar a conversa.
Após um longo e agoniado silêncio, os meus olhos perguntaram:
''E então?...Isso quer dizer que?... Não?...''
O meu cérebro suspirou, exausto.
''Não... Tão cedo não.''
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