Contos de Fadas
Era uma vez um príncipe. Um príncipe que eu tive o prazer de conhecer há não assim tanto tempo, em circunstâncias não assim tão diferentes. Como todos os príncipes de todas as histórias que se prezem, este seguia-se por um código de honra e cavalheirismo, de dedicação e compromisso. Esse príncipe estava apaixonado, ou pelo menos assim o pensava.
Como em todas as histórias que se prezem havia um conflito, que transformava o amor que supostamente era nutrido pelas duas partes em algo proibido e complicado, neste caso eram os intermináveis quilómetros que os separavam.
Mas não era esse o único problema. O príncipe não estava apaixonado por uma princesa, apesar de o crer. As princesas dos contos de fadas são subtis, tímidas, calmas, graciosas e bondosas. Os olhos delas concedem a paz às almas atordoadas, as suas ações acalmam as revoluções da natureza. Mas esta rapariga não era assim. Assemelhava-se mais a uma vilã que a uma princesa, na realidade. Os olhos dela, negros e desiludidos, abriam-se e centravam-se na presa, felinos e expectantes. Sorria, um sorriso brilhante carregado de escárnio e superioridade disfarçados. Esta princesa não esperava pelo amor verdadeiro, ou por um príncipe. Esperava pelos benefícios, pelos privilégios da sua condição. Esperava pelas suas manobras e malabarismos, com que se divertia infinitamente. Esperava pelo último suspiro do nobre coração de mais um pobre cavaleiro que caía nas suas garras. Tudo por um pouco de diversão, tudo por um pouco de compreensão. Já nem o fazia de propósito. Já não brincava com as emoções alheias de propósito, simplesmente surpreendia-se a fazê-lo. E claro que existia culpa no coração negro dela. Mas a culpa é um sentimento fácil de ignorar e de contornar.
Nada se comparava à assolação de poder, à dádiva nas mãos. À certeza infinita de que iria ganhar. Nada se comparava à vontade indestrutível de destruir.
Conheci esta rapariga há não assim tanto tempo. Apaixonei-me pelo andar seguro dela, pelo sorriso arrogante, pelas palavras sérias e inflamadoras. Apaixonei-me pela enorme ilusão que ela criou à volta dela, uma ilusão de poder e superioridade, quando tudo o que a rodeava era composto por solidão e infelicidade.
Esta rapariga esmagou o coração do pobre príncipe. Nem o fez de propósito, simplesmente surpreendeu-se a fazê-lo.
Mais tarde render-se-ia ao coração de outro príncipe, um que, aliás, nada tinha de príncipe, era um simples e humilde aldeão. Tinha a certeza absoluta que iria, também, destruir a alma daquele simples plebeu. E quase o fez. Mas surpreendeu-se a retrair-se, a controlar-se. Surpreendeu-se a esforçar-se por não o fazer, por não deixar a magia negra que lhe apodrecia o coração apoderar-se dela. E acabou por não o fazer.
O tempo passou e o coração dela derretia a cada dia. Nunca pensara que fosse possível, que um coração plebeu a pudesse transformar daquela maneira, que a pudesse mudar, que a pudesse querer esforçar-se.
Infelizmente, há coisas que nunca mudam. E o coração negro dela, apesar de já não morto e gelado, continuava tenuemente envenenado. E o veneno é algo muito poderoso e contagioso...
Passado algum tempo, a princesa de coração negro, agora mole, vivia destroçada e humilhada, após ter contagiado um bom coração plebeu com o seu veneno. De luto, procurou uma forma de voltar a ser a Rainha Má, destruidora de tudo e de todos.
Mas o seu coração tinha amolecido. E corações moles não têm lugar no sucesso e no poder.
Finalmente, passado muito tempo a engendrar planos e a amuar, a princesa sentiu algo parecido com finalidade, com encerramento. Sentiu a bondade esconder-se num canto escuro do seu ser, e sentiu a escuridão apoderar-se de si, devagarinho... Sentiu o veneno na ponta da sua língua, a maldade na ponta dos seus dedos, a escuridão nos seus olhos. A raiva tomou conta do seu coração, anteriormente mole.
Tornou a sua missão de vida arrancar os corações de todos os que se atravessassem no seu caminho.
Esperou, assim, que aquele que havia ficado incólume passasse por ela. Que se pusesse deliberadamente na sua frente, impedindo-a de passar. Assim teria desculpa para mergulhar a mão no seu peito e arrancar-lhe o coração, coração esse que nada mais bombeava que o veneno espesso e negro que antes lhe havia pertencido.
Mas não era esse o único problema. O príncipe não estava apaixonado por uma princesa, apesar de o crer. As princesas dos contos de fadas são subtis, tímidas, calmas, graciosas e bondosas. Os olhos delas concedem a paz às almas atordoadas, as suas ações acalmam as revoluções da natureza. Mas esta rapariga não era assim. Assemelhava-se mais a uma vilã que a uma princesa, na realidade. Os olhos dela, negros e desiludidos, abriam-se e centravam-se na presa, felinos e expectantes. Sorria, um sorriso brilhante carregado de escárnio e superioridade disfarçados. Esta princesa não esperava pelo amor verdadeiro, ou por um príncipe. Esperava pelos benefícios, pelos privilégios da sua condição. Esperava pelas suas manobras e malabarismos, com que se divertia infinitamente. Esperava pelo último suspiro do nobre coração de mais um pobre cavaleiro que caía nas suas garras. Tudo por um pouco de diversão, tudo por um pouco de compreensão. Já nem o fazia de propósito. Já não brincava com as emoções alheias de propósito, simplesmente surpreendia-se a fazê-lo. E claro que existia culpa no coração negro dela. Mas a culpa é um sentimento fácil de ignorar e de contornar.
Nada se comparava à assolação de poder, à dádiva nas mãos. À certeza infinita de que iria ganhar. Nada se comparava à vontade indestrutível de destruir.
Conheci esta rapariga há não assim tanto tempo. Apaixonei-me pelo andar seguro dela, pelo sorriso arrogante, pelas palavras sérias e inflamadoras. Apaixonei-me pela enorme ilusão que ela criou à volta dela, uma ilusão de poder e superioridade, quando tudo o que a rodeava era composto por solidão e infelicidade.
Esta rapariga esmagou o coração do pobre príncipe. Nem o fez de propósito, simplesmente surpreendeu-se a fazê-lo.
Mais tarde render-se-ia ao coração de outro príncipe, um que, aliás, nada tinha de príncipe, era um simples e humilde aldeão. Tinha a certeza absoluta que iria, também, destruir a alma daquele simples plebeu. E quase o fez. Mas surpreendeu-se a retrair-se, a controlar-se. Surpreendeu-se a esforçar-se por não o fazer, por não deixar a magia negra que lhe apodrecia o coração apoderar-se dela. E acabou por não o fazer.
O tempo passou e o coração dela derretia a cada dia. Nunca pensara que fosse possível, que um coração plebeu a pudesse transformar daquela maneira, que a pudesse mudar, que a pudesse querer esforçar-se.
Infelizmente, há coisas que nunca mudam. E o coração negro dela, apesar de já não morto e gelado, continuava tenuemente envenenado. E o veneno é algo muito poderoso e contagioso...
Passado algum tempo, a princesa de coração negro, agora mole, vivia destroçada e humilhada, após ter contagiado um bom coração plebeu com o seu veneno. De luto, procurou uma forma de voltar a ser a Rainha Má, destruidora de tudo e de todos.
Mas o seu coração tinha amolecido. E corações moles não têm lugar no sucesso e no poder.
Finalmente, passado muito tempo a engendrar planos e a amuar, a princesa sentiu algo parecido com finalidade, com encerramento. Sentiu a bondade esconder-se num canto escuro do seu ser, e sentiu a escuridão apoderar-se de si, devagarinho... Sentiu o veneno na ponta da sua língua, a maldade na ponta dos seus dedos, a escuridão nos seus olhos. A raiva tomou conta do seu coração, anteriormente mole.
Tornou a sua missão de vida arrancar os corações de todos os que se atravessassem no seu caminho.
Esperou, assim, que aquele que havia ficado incólume passasse por ela. Que se pusesse deliberadamente na sua frente, impedindo-a de passar. Assim teria desculpa para mergulhar a mão no seu peito e arrancar-lhe o coração, coração esse que nada mais bombeava que o veneno espesso e negro que antes lhe havia pertencido.
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