Espanha
Quarta-feira, 6 de agosto de 2013:
Nunca pensei que a
distância da minha terra perdida no Além Douro me fosse trazer claridade.
Julguei piamente que a paz que tanto preciso não estava escondida entre o calor
abrasador valenciano, entre as planícies profundamente flamencas, entre a
prosperidade dos campos e dos sorrisos catalões.
Porém, a minha alma,
tenebrosamente portuguesa, precisava de esvaziar. O meu peito estava cheio, não
sei muito bem de quê ou porquê. E aqui,
nesta terra abrasadora e coberta de iodo, é o sítio ideal para todo o meu ser
se esconder e se transformar.
É o sítio ideal para
eu largar toda a ansiedade, todas as preocupações. Para deixar, neste canto tão
adverso à minha morada, todas as aflições.
É o local ideal para
a regeneração do meu espírito, espírito esse que já começava a recuperar-se.
Descobri isso enquanto suspirava de futuras saudades pela minha terrinha à
beira mar. Enquanto, eternamente saudosa, percebi que a escuridão me havia
abandonado. Descobri isso quando os
olhos dele, límpidos e vorazes, culminando no sorriso fácil dele, já não me
inferiorizaram ou devoraram.
Sorrio agora com o
pensamento. Seria mentir descaradamente se declarasse que era o fim dos fins,
se instituísse que já não existe nada nele, ou nada no geral, que me afete. É
óbvio que ele me afeta, provavelmente sempre afetará. Provavelmente haverá sempre
algo nele que me lembrará de tudo, que fará a minha cabeça em água, que me
provocará um nervoso miudinho no estômago. Talvez tenha a ver com todas aquelas
tardes que eu esperava, envolta no cheiro da chuva, fresca nos pavimentos. Talvez essa rapariga, a que eu fui
temporariamente, aquela que, de facto, o queria, me impeça de me esquecer de
tudo isso, de todas essas vezes.
Ou talvez eu
simplesmente precise de algo em que pensar, em que sonhar.
Procuro tudo isso
nos enormes campos valencianos. O esquecimento, a regeneração, a descontração.
E sei (tenho a certeza) que quando voltar, tudo isto será espuma do mar, vento que passa entre os meus dedos. Todo o desgosto será esquecido.
Quando voltar para o meu país de eternas saudades, tudo o que havia em mim que não fosse descontração e felicidade ficará neste país, tão alheio, tão longe, tão abrasador.
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