Mensagens

O privilégio de desistir

Hoje em dia sinto pouco mais que cansaço e frustração. Dou por mim em constantes sonhos sobre fugir. Já pensei e já falei sobre isto antes. Parte de mim vive do outro lado do mundo. Não propriamente num sítio específico, ou num tempo específico, simplesmente longe daqui, longe de mim, longe de ti e longe de tudo. É uma atitude de cobardia, eu sei. Nunca fui do tipo corajoso e acima de tudo não tenho bravura suficiente para enfrentar o meu próprio fracasso. Simplesmente não tenho isso em mim. Em mim, só tenho medo, e um muro construído em mentiras. Quem sou eu, se não sou a pessoa que menti que sou? Quem sou eu, se não o sucesso, se não a confiança, se não a insensibilidade? Quem sou eu, se não sou a pessoa que fiz um esforço colossal por ser? Existe um eu sequer? E esse eu, quem é? A miúda aterrorizada e emocional para que fujo? Uma máscara atrás da qual n...

Call all your lovelies

"Fala comigo mais uma vez. Pela última vez. Ajuda-me a enterrar-te. Diz-me tudo o que pensas e eu ganharei coragem para te dizer o que penso. E ficaremos por aí, pela última vez. Mas preciso de saber. Preciso de saber se te inventei, se inventei a pessoa que penso que és na minha cabeça. Preciso de saber se quando me dizes adeus se te custa. Preciso de saber se fui apenas mais uma ou se as outras é que o são. Não te pergunto isto porque me magoa. A verdade é que não és capaz de me magoar. Preciso de saber para saber se inventei todos os teus olhares, ou a intenção por detrás deles, e se só eu fiquei com aquela noite marcada a ferros. Portanto, fala comigo mais uma vez. Diz o que quiseres, desde que seja verdade. Diz-me como foi na tua cabeça falar comigo, e como foi ver-me todos os dias depois disso. Diz-me o que pensaste aqui e ali, e diz-me o que pensas agora. Diz-me a verdade, e acima de tudo, diz-me que me detestas. Isso será o mais fácil de engolir. Não quero ser-te indife...

The ghost of days passed

"Se pensas que te odeio, enganas-te. Seria muito melhor, para mim e para ti, que te odiasse. Na verdade, creio que a ti não te faz diferença se eu te odeio ou não. Mas eu preferiria odiar-te. Mas mais do que odiar-te, preferia que me fosses indiferente. Que pensar em ti não me pusesse nem um sorriso parvo na cara, nem me desse um aperto no peito. Gostava que depois daquele fatídico momento eu pudesse fazer de conta que não existes nem nunca exististe e que principalmente não vives em alguma parte de mim. Ambos sabemos quão errado tudo isto é. Mais uma vez, parece-me que eu quero saber mais do que tu. Não me parece que ocupes muito espaço na tua mente a recriminar-te sobre seja o que for. Não és esse tipo de pessoa. Eu também não o sou, e parece que a minha falta de auto-recriminação tem chocado o mundo. Apesar de preferir esquecer-te, como se nunca tivesse olhado, e quero dizer realmente olhado, para ti, quero agradecer-te. Fizeste-me sentir nova. Sou a pessoa mais rígida do mu...

O ciclo sem fim?

Perde-se a prática facilmente nestas coisas. Não me refiro só a escrever, mas também a escrever o que sinto. Nos últimos anos tenho sido suficientemente vocal sobre os meus sentimentos, ao ponto de não necessitar de um escape na escrita. E como sou uma pessoa dada a pouco tempo e, ultimamente, falta de imaginação, estas páginas ficam em branco. Isso não mudou. Mas hoje pensei em documentar uma fase da minha vida, apenas porque posso e apenas porque preciso de uma distração. Sou uma pessimista por natureza. Entre muitas outras coisas, claro. Sou egoísta, cética, e, acima de tudo, tenho uma tolerância muito pequena à dor. Física, também, mas claro que não estou a escrever sobre esse tipo de dor. Tenho tendência a entrar em níveis altos de cautela assim que sinto o mínimo sinal de que algo me irá magoar. Recolho-me, fecho-me sobre mim mesma, e tento convencer-me de que independentemente do que acontecer, vou continuar a ser eu, portanto tudo vai continuar a estar bem. Daí que ser vulner...

De Volta

Perdi-me durante um tempo. Não posso dizer com toda a certeza que me encontrei de novo, pois sei que estaria a mentir. A vida passa por mim tão depressa que eu já não consigo distinguir o que é a minha vida do que é apenas passageiro. Já não sou a pessoa que era quando aqui comecei a escrever. Fui muitas e muitas pessoas entretanto, nesta mera meia década que passou. Conheci muitas pessoas entretanto e muitas mais saíram da minha vida. Fui intensamente feliz, tanto quanto uma pessoa como eu o pode ser, fui miserável, e fui, como costumava sempre ser, indiferente. Já não sou nenhuma dessas pessoas hoje. Sou alguém diferente, uma espécie de espectro de transição entre as fases da minha vida. Entristece-me o quanto tive que crescer. Tornei-me numa pequena adulta, sou ponderada, opinativa, em vez de agressiva, calma quando antes explodiria. Sorrio quando tenho que o fazer, seguro no braço do meu namorado, tenho conversas intelectuais e já não perco horas a olhar para o espelho. A pessoa...

Dos meus votos inquebráveis

"Para ti. Que um dia se torne eterno nos teus braços, que passe como se o andar de um caracol se tratasse. Poder entender todos os pequenos pormenores, apreciar cada gesto, toque, sorriso. Não quero que essa eternidade seja somente bonita; espero que tenha, por vezes, momentos menos bons, obstáculos que dificultem o caminho, o nosso caminho, para que possamos aprender a ultrapassá-los, juntos. Amar não é para ser fácil, é para valer a pena. Desejo-te uma insónia  cheia de lembranças minhas, se possível, todas as noites. E sonha, porque uma vida sem sonhos é o verdadeiro pesadelo. Que continues a imaginar o teu futuro, os teus objetivos, mas com uma ligeira alteração: comigo a teu lado. Sim, porque espero estar contigo quando esses fins forem alcançados. Sinto-me feliz, rodeado do teu carinho e amor. Adorava poder ver esses teus olhos castanhos a brilharem para mim todas as manhãs, ouvir-te a dizer que me amas. Magoa quando estou longe de ti, é certo, mas o que era do amor sem a...

Velhice

Acho que me sinto velha.  Sinto-me tão cheia por dentro que pareço vazia, tão profunda que pareço superficial. Uma vez disse que me sentia uma floresta queimada e devastada por chamas postas. Hoje em dia sinto-me demais. Não me sinto gasta, ou perdida ou sequer ligeiramente corroída, sinto-me meramente demais. Sinto a mais pequena dor ou indignação como se fossem imensos cortes de papel que sangram e não como pontos de ignição de um incêndio de fúria. Sinto todas as críticas e rejeições e sinto a vida como se ela estivesse dentro de mim e não fora.  Ao mesmo tempo, parece-me que estou fora da vida a olhar para dentro. Sinto um fosso entre mim e a realidade, sinto que estou parada enquanto o mundo avança em todos os sentidos menos na minha direção. Durante um tempo tudo isto pareceu-me meramente uma pequena crise de identidade a que o meu cérebro geralmente muito ocupado tinha de se entregar para lidar com a falta de estimulação. Mas já não me parece tanto assim. Sei quem ...