Velhice

Acho que me sinto velha. 
Sinto-me tão cheia por dentro que pareço vazia, tão profunda que pareço superficial. Uma vez disse que me sentia uma floresta queimada e devastada por chamas postas. Hoje em dia sinto-me demais. Não me sinto gasta, ou perdida ou sequer ligeiramente corroída, sinto-me meramente demais. Sinto a mais pequena dor ou indignação como se fossem imensos cortes de papel que sangram e não como pontos de ignição de um incêndio de fúria. Sinto todas as críticas e rejeições e sinto a vida como se ela estivesse dentro de mim e não fora. 
Ao mesmo tempo, parece-me que estou fora da vida a olhar para dentro. Sinto um fosso entre mim e a realidade, sinto que estou parada enquanto o mundo avança em todos os sentidos menos na minha direção.
Durante um tempo tudo isto pareceu-me meramente uma pequena crise de identidade a que o meu cérebro geralmente muito ocupado tinha de se entregar para lidar com a falta de estimulação. Mas já não me parece tanto assim. Sei quem sou agora, creio eu. Não deixo de ser eu, com tudo o que faz de mim a pessoa que sou, simplesmente ganhei uns anos. Anos, sim, pois apesar de ter passado pouco mais de um ano desde que me comecei a sentir diferente, parece que me caiu em cima cerca de meia década de vida. Não sei se era assim tão colossalmente imatura ou se simplesmente agora sou velha. 
Velha, em decadência, sensível e com a sensação óbvia de que tudo precisa de ser feito agora.
Prometi-me que ia ser muito e ia fazer muito e sinto agora a pressão de todos esses "muitos". A pressão de livros por escrever, de notas por tirar, de nome por criar, de palavras por dizer, de experiências para viver. Quando era mais nova parecia-me que tudo estava feito e que só tinha de descansar e de me deixar ser levada pelo tempo, mas agora que o tempo me levou, compreendo que o momento em que estava à frente e em que controlava já passou. Agora tenho de correr para recuperar a posição de que a minha arrogância me tirou.
Esta claridade é que me faz sentir velha, ela e o excesso de sentimentalidade, absolutamente desnecessária e desconhecida, aliada a uma secura de espírito quase árida. Perdi a inspiração, e provavelmente até metade da minha inteligência. Daí que me faltem as palavras a escrever, quando antes conseguia encher páginas de descrições brilhantes e acima de tudo bonitas. Perdi a vontade de falar de coisas bonitas. Parece-me com os anos que o mundo fica cada vez menos bonito, e a minha alma degenera com ele, não podendo portanto, como antes, inventar palavras não realistas. Já não tenho a imaginação de uma adolescente temperamental e arrogante. A minha imaginação secou por entre a necessidade de palavras duras e solenes, frias e calculadas. Sinto que já não sei escrever, mas a verdade é que simplesmente não sei escrever o que escrevia antes, porque antes as minhas palavras eram as cheias de esperança e de sentimentos contundentes de crianças.
O bom e o mau de se escrever desde muito nova é que está documentado o quanto mudei. Todas as minhas sensações da altura parecem-me agora fúteis e estéreis de realidade. E, mesmo assim, mais verdadeiras do que todas as minhas sensações atuais, que me parecem fabricadas por uma mente lenta e seca de magia.
Nem sei como concluir os meus pensamentos, pois na minha cabeça tudo isto é uma espiral infinita de divagações, daí que me pareça que me repito constantemente e sem nexo. Talvez seja a senilidade de uma idade avançada a atacar a minha mente de jovem adulta. Talvez seja outro mero ataque de cegueira, como tive tantos ao longo da minha vida.
Seja como for, o tempo continuará a avançar, e com ele serão levadas estas palavras, talvez e provavelmente pretensiosas para a pessoa que serei quando as voltar a ler.

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