O ciclo sem fim?
Perde-se a prática facilmente nestas coisas. Não me refiro só a escrever, mas também a escrever o que sinto. Nos últimos anos tenho sido suficientemente vocal sobre os meus sentimentos, ao ponto de não necessitar de um escape na escrita. E como sou uma pessoa dada a pouco tempo e, ultimamente, falta de imaginação, estas páginas ficam em branco.
Isso não mudou. Mas hoje pensei em documentar uma fase da minha vida, apenas porque posso e apenas porque preciso de uma distração.
Sou uma pessimista por natureza. Entre muitas outras coisas, claro. Sou egoísta, cética, e, acima de tudo, tenho uma tolerância muito pequena à dor. Física, também, mas claro que não estou a escrever sobre esse tipo de dor. Tenho tendência a entrar em níveis altos de cautela assim que sinto o mínimo sinal de que algo me irá magoar. Recolho-me, fecho-me sobre mim mesma, e tento convencer-me de que independentemente do que acontecer, vou continuar a ser eu, portanto tudo vai continuar a estar bem. Daí que ser vulnerável não seja comigo. Magoo-me uma vez e fecho-me para sempre. Ou, pelo menos, era o que eu achava.
Há muito tempo, quase meia década, algo aconteceu na minha vida. Algo pequeno agora, passados todos estes anos, mas enorme na altura. Algo humilhante, algo deprimente, algo extremamente azarado, mas acima de tudo, algo que me feriu o orgulho e o meu coraçãozinho adolescente como nunca mais nada o fez até aí. Eu já não era uma rapariga dada a vulnerabilidades antes desse acontecimento, no entanto, tinha prestado cerca de 30% de mim, 30% das minhas emoções e da pessoa que eu era. Esse acontecimento, por muito insignificante que tenha sido, ao ponto de nem sequer importar hoje de todo, fez com que eu tivesse de me recolher por completo.
Fechei-me neste casulo dentro de mim e fiquei lá durante anos, a lamber as minhas feridas. Sofri como apenas uma adolescente pode sofrer, e dramatizei toda uma situação. Não me voltei a abrir durante muito tempo. Até que um dia dei por mim exausta de estar fechada. Absolutamente aborrecida, e cansadíssima de toda a raiva e amargura que tinha levado comigo e que me transformou numa pessoa ácida. Curiosamente, conheci alguém na mesma altura, alguém que fez com que eu não quisesse ser corrosiva. Alguém que me entusiasmou e que me deu uma nova lufada de ar fresco. Alguém que me fez sentir a idade que tinha e não dezenas de anos mais velha, alguém que mexeu com a parte mais recôndita de mim. Senti alguma predestinação desde o início, tanto pela conveniência do aparecimento desta pessoa, como simplesmente pelo facto de ela ser literalmente... perfeita. Palavra dramática e palavra pesada para uma mulher da minha idade dizer, eu sei. Mas algumas vezes na vida, ou para algumas pessoas, só uma vez, ou para outras ainda, nunca, conhece-se alguém que é tão absolutamente tudo o que queríamos (e até o que não sabíamos querer) que parece mentira. Parecia, de facto, um sonho. Parecia que finalmente, por uma vez, eu tinha finalmente feito algo bom o suficiente para merecer um momento como aquele, pelo qual tantas pessoas esperam uma vida inteira.
E a vida avançou. Melhor ou pior, com algumas dores pelo caminho, e muitas felicidades.
Só que uma pessoa nunca muda por completo. E eu nunca deixei de ser pessimista, egoísta, cética e sem qualquer tipo de tolerância à dor. A diferença foi que me apaixonei tão desastradamente e tão rapidamente que nem me lembrei de pensar "e se eu me magoar?". Foi tudo tão maravilhoso, que apesar de eu estar aterrorizada nem me atrevi, nem consegui, aliás, ter cautela. Senti-me imediatamente em casa, imediatamente capaz de confiar. Claro que o medo se interpôs algumas vezes. Lembro-me de ter dito: "vais dar cabo de mim". E, no entanto, esqueci-me imediatamente dessas palavras, e abri todo o meu coração e dei tudo o que alguma vez tive para dar sem hesitar. Como poderia hesitar? Estava de coração a transbordar, pela primeira vez na vida.
Quando se ama e se sente amada é muito difícil pensar em cautela.
E é nisto que pondero hoje. Não porque alguma destas variáveis mudou, apenas porque dei por mim numa situação que achei que me ia magoar e fechei-me, como já não o fazia há anos. Entrei em modo defesa. E tinha muito que fechar e muito que recolher, devo já dizer, porque desta vez estou totalmente vulnerável. Achei que ia ser magoada e, como tinha a certeza que desta vez o meu coração seria partido de vez (seja-me perdoado o dramatismo), tentei evitá-lo ao máximo. Não há nada como sofrer por antecipação para fazer alguém tomar as decisões mais estúpidas da sua vida.
Não estou na fase da minha vida em que estava, nem com a companhia que tinha. Não sou, de todo, a pessoa que era. E já fui e sou demasiado vulnerável para agora voltar atrás.
Não se interprete isto como arrependimento. Interprete-se isto como uma jovem adulta a tentar admitir os seus erros e as patetices da sua lógica. E a tentar admitir que está aterrorizada.
Assim concluo esta descrição deste preciso momento da minha vida. O bom da escrita é que uma pessoa pode identificar exatamente o tipo de pessoa que era em determinada altura. Não há nada como a documentação.
Isso não mudou. Mas hoje pensei em documentar uma fase da minha vida, apenas porque posso e apenas porque preciso de uma distração.
Sou uma pessimista por natureza. Entre muitas outras coisas, claro. Sou egoísta, cética, e, acima de tudo, tenho uma tolerância muito pequena à dor. Física, também, mas claro que não estou a escrever sobre esse tipo de dor. Tenho tendência a entrar em níveis altos de cautela assim que sinto o mínimo sinal de que algo me irá magoar. Recolho-me, fecho-me sobre mim mesma, e tento convencer-me de que independentemente do que acontecer, vou continuar a ser eu, portanto tudo vai continuar a estar bem. Daí que ser vulnerável não seja comigo. Magoo-me uma vez e fecho-me para sempre. Ou, pelo menos, era o que eu achava.
Há muito tempo, quase meia década, algo aconteceu na minha vida. Algo pequeno agora, passados todos estes anos, mas enorme na altura. Algo humilhante, algo deprimente, algo extremamente azarado, mas acima de tudo, algo que me feriu o orgulho e o meu coraçãozinho adolescente como nunca mais nada o fez até aí. Eu já não era uma rapariga dada a vulnerabilidades antes desse acontecimento, no entanto, tinha prestado cerca de 30% de mim, 30% das minhas emoções e da pessoa que eu era. Esse acontecimento, por muito insignificante que tenha sido, ao ponto de nem sequer importar hoje de todo, fez com que eu tivesse de me recolher por completo.
Fechei-me neste casulo dentro de mim e fiquei lá durante anos, a lamber as minhas feridas. Sofri como apenas uma adolescente pode sofrer, e dramatizei toda uma situação. Não me voltei a abrir durante muito tempo. Até que um dia dei por mim exausta de estar fechada. Absolutamente aborrecida, e cansadíssima de toda a raiva e amargura que tinha levado comigo e que me transformou numa pessoa ácida. Curiosamente, conheci alguém na mesma altura, alguém que fez com que eu não quisesse ser corrosiva. Alguém que me entusiasmou e que me deu uma nova lufada de ar fresco. Alguém que me fez sentir a idade que tinha e não dezenas de anos mais velha, alguém que mexeu com a parte mais recôndita de mim. Senti alguma predestinação desde o início, tanto pela conveniência do aparecimento desta pessoa, como simplesmente pelo facto de ela ser literalmente... perfeita. Palavra dramática e palavra pesada para uma mulher da minha idade dizer, eu sei. Mas algumas vezes na vida, ou para algumas pessoas, só uma vez, ou para outras ainda, nunca, conhece-se alguém que é tão absolutamente tudo o que queríamos (e até o que não sabíamos querer) que parece mentira. Parecia, de facto, um sonho. Parecia que finalmente, por uma vez, eu tinha finalmente feito algo bom o suficiente para merecer um momento como aquele, pelo qual tantas pessoas esperam uma vida inteira.
E a vida avançou. Melhor ou pior, com algumas dores pelo caminho, e muitas felicidades.
Só que uma pessoa nunca muda por completo. E eu nunca deixei de ser pessimista, egoísta, cética e sem qualquer tipo de tolerância à dor. A diferença foi que me apaixonei tão desastradamente e tão rapidamente que nem me lembrei de pensar "e se eu me magoar?". Foi tudo tão maravilhoso, que apesar de eu estar aterrorizada nem me atrevi, nem consegui, aliás, ter cautela. Senti-me imediatamente em casa, imediatamente capaz de confiar. Claro que o medo se interpôs algumas vezes. Lembro-me de ter dito: "vais dar cabo de mim". E, no entanto, esqueci-me imediatamente dessas palavras, e abri todo o meu coração e dei tudo o que alguma vez tive para dar sem hesitar. Como poderia hesitar? Estava de coração a transbordar, pela primeira vez na vida.
Quando se ama e se sente amada é muito difícil pensar em cautela.
E é nisto que pondero hoje. Não porque alguma destas variáveis mudou, apenas porque dei por mim numa situação que achei que me ia magoar e fechei-me, como já não o fazia há anos. Entrei em modo defesa. E tinha muito que fechar e muito que recolher, devo já dizer, porque desta vez estou totalmente vulnerável. Achei que ia ser magoada e, como tinha a certeza que desta vez o meu coração seria partido de vez (seja-me perdoado o dramatismo), tentei evitá-lo ao máximo. Não há nada como sofrer por antecipação para fazer alguém tomar as decisões mais estúpidas da sua vida.
Não estou na fase da minha vida em que estava, nem com a companhia que tinha. Não sou, de todo, a pessoa que era. E já fui e sou demasiado vulnerável para agora voltar atrás.
Não se interprete isto como arrependimento. Interprete-se isto como uma jovem adulta a tentar admitir os seus erros e as patetices da sua lógica. E a tentar admitir que está aterrorizada.
Assim concluo esta descrição deste preciso momento da minha vida. O bom da escrita é que uma pessoa pode identificar exatamente o tipo de pessoa que era em determinada altura. Não há nada como a documentação.
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