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De Volta

Perdi-me durante um tempo. Não posso dizer com toda a certeza que me encontrei de novo, pois sei que estaria a mentir. A vida passa por mim tão depressa que eu já não consigo distinguir o que é a minha vida do que é apenas passageiro. Já não sou a pessoa que era quando aqui comecei a escrever. Fui muitas e muitas pessoas entretanto, nesta mera meia década que passou. Conheci muitas pessoas entretanto e muitas mais saíram da minha vida. Fui intensamente feliz, tanto quanto uma pessoa como eu o pode ser, fui miserável, e fui, como costumava sempre ser, indiferente. Já não sou nenhuma dessas pessoas hoje. Sou alguém diferente, uma espécie de espectro de transição entre as fases da minha vida. Entristece-me o quanto tive que crescer. Tornei-me numa pequena adulta, sou ponderada, opinativa, em vez de agressiva, calma quando antes explodiria. Sorrio quando tenho que o fazer, seguro no braço do meu namorado, tenho conversas intelectuais e já não perco horas a olhar para o espelho. A pessoa...

Dos meus votos inquebráveis

"Para ti. Que um dia se torne eterno nos teus braços, que passe como se o andar de um caracol se tratasse. Poder entender todos os pequenos pormenores, apreciar cada gesto, toque, sorriso. Não quero que essa eternidade seja somente bonita; espero que tenha, por vezes, momentos menos bons, obstáculos que dificultem o caminho, o nosso caminho, para que possamos aprender a ultrapassá-los, juntos. Amar não é para ser fácil, é para valer a pena. Desejo-te uma insónia  cheia de lembranças minhas, se possível, todas as noites. E sonha, porque uma vida sem sonhos é o verdadeiro pesadelo. Que continues a imaginar o teu futuro, os teus objetivos, mas com uma ligeira alteração: comigo a teu lado. Sim, porque espero estar contigo quando esses fins forem alcançados. Sinto-me feliz, rodeado do teu carinho e amor. Adorava poder ver esses teus olhos castanhos a brilharem para mim todas as manhãs, ouvir-te a dizer que me amas. Magoa quando estou longe de ti, é certo, mas o que era do amor sem a...

Velhice

Acho que me sinto velha.  Sinto-me tão cheia por dentro que pareço vazia, tão profunda que pareço superficial. Uma vez disse que me sentia uma floresta queimada e devastada por chamas postas. Hoje em dia sinto-me demais. Não me sinto gasta, ou perdida ou sequer ligeiramente corroída, sinto-me meramente demais. Sinto a mais pequena dor ou indignação como se fossem imensos cortes de papel que sangram e não como pontos de ignição de um incêndio de fúria. Sinto todas as críticas e rejeições e sinto a vida como se ela estivesse dentro de mim e não fora.  Ao mesmo tempo, parece-me que estou fora da vida a olhar para dentro. Sinto um fosso entre mim e a realidade, sinto que estou parada enquanto o mundo avança em todos os sentidos menos na minha direção. Durante um tempo tudo isto pareceu-me meramente uma pequena crise de identidade a que o meu cérebro geralmente muito ocupado tinha de se entregar para lidar com a falta de estimulação. Mas já não me parece tanto assim. Sei quem ...

O que será, será

Não sei esta será meramente mais uma tangente minha, daquelas em que nem há nexo nem justificação. Talvez assim o seja, como invariavelmente acaba sempre por ser. Não sei se esta sensação de ser uma estranha na minha vida vai prevalecer indefinidamente, nem sei se é mesmo uma sensação e não uma mera paranóia. Mas a verdade é que não me reconheço. Procuro em mim a racionalidade e a frieza de outros dias e tudo o que encontro dentro de mim é a rapariga de 13 anos que tanto fiz para esquecer. Sinto-me uma adolescente outra vez. Insegura, que reage ao rumo das emoções e que diz disparates sem pensar neles, que não sabe comunicar e que expressa tudo atabalhoadamente. Não sou essa rapariga, esse desastre regido por hormonas há anos. A minha personalidade clara e rigorosa tomou conta de mim e sobrepôs-se às hormonas por muito tempo. É isso que eu vejo quando olho em volta. Claridade, confiança, precisão. Frieza. E um toque de feminilidade excessiva. Mas não é como eu me sinto. Sinto-me um d...

Divagações cinzentas

Os dias sucedem-se no espaço de um minuto. Tudo parece passar vertiginosamente. Parecem já não se distinguir, misturarem-se todos na névoa da estabilidade, na consciência de perenidade, de permanência, no nevoeiro de dormência. Todos os dias são uma rotina, mesmo quando não o são. Mesmo quando estou noutro país, noutra hora, a contar as horas para voltar à minha cama, ao meu ar e à familiaridade. Dentro de mim há apenas uma indignação já antiga e que me cansa o coração pela frustração que me traz. E ainda a vontade incessante de voltar para o meu casulo. É apenas isso que me revoluciona: a constante fúria por tudo o que se passa no mundo e o amor. Quão cliché. Tornei-me num cliché, em mais uma rapariga que foi feita para ser tanto e acabou por implodir. Ainda sou capaz de muito, e, espero eu, apesar de tudo parecer num impasse neste momento, farei muito e serei muito. Não me quero deixar escorregar para um mero recipiente de ser humano. Creio que é por isso que me incomodam tanto e...

Arte

"Arte", é tudo em que penso. Ele é absolutamente arte. Cada pedaço dele é arte. Arte pura, arte simples, arte firme. Tudo o que ele é, é arte. Todos os traços dos olhos cor de mel dele, ou do cabelo negro com que ele se preocupa demais, da pele dele, do corpo dele. Todos os traços da personalidade dele, a voz doce mas inflexível dele, a maneira como ele olha para mim, o rosto dele quando está concentrado em alguma coisa, e tudo nele é um conto de fadas. Daqueles gravados nas cassetes da minha infância. Cada segundo que passo a olhar para ele sinto-me a pessoa mais absorta do mundo, que por alguma razão tem esse privilégio, não só de olhar para ele, mas de lhe tocar e, acima de tudo, de ser parte dele. Lembro-me todos os dias da ironia de tudo isto. Da ironia de uma rapariga que nunca acreditou em contos de fadas ter tropeçado num. Uso o termo "conto de fadas" muito livremente. Nenhuma relação é um conto de fadas, todas carregam a sua dor, o seu ressentimento, a s...

Hipocondria

Já não sei o que se passa há muito tempo.Já não sei o que se passa comigo, com o mundo, com esta vida há muito tempo. Agarrava-me tanto ao controlo de tudo e de todos, e dou por mim já sem controlar nada. Não controlo nada, nem as noites que durmo, nem as palavras que escrevo, nem o corpo em que vivo. Não controlo os textos que estudo, a mão que agarro, ou os lábios que beijo. Perdi o controlo do hoje e do amanhã. Vou apenas com o vento, para onde quer que este me leve, seja para longe ou para perto. Recuso-me a sofrer às mãos da minha cabeça, mas sofro às mãos do corpo. Não faço ideia se o que escrevo tem nexo, se a conexão que tenho continua limpa e pura, se continuo eu. Já não me lembro de ter tempo para isso, já não sei o que é poder debruçar-me sobre pensamentos mundanos. A vida passa-me. Não sou eu que passo por ela. Ela simplesmente avança, e eu estou tão ocupada que me esqueço que ela passa. Entre os olhos cor de mel, o cabelo preto e o sorriso doce, esqueço-me que a vida ...