Estou irremediavelmente doente. Tenho lido este livro sobre um homem que sofre de dores crónicas físicas e temo também as ter. Mas as minhas não são físicas. Estou muito, muito doente... Verga-me o peso de tudo nos ombros. O peso da solidão, da tortura e do medo. Aterroriza-me o facto de que há a hipótese que desta vez talvez nada me salve. Nem o tempo, nem o carinho, nem a entrega. Só vejo uma espiral imensa de dor e tortura. Da qual não tenho como sair. O tempo não passa. Passei a vida a queixar-me de que o tempo passava demasiado depressa e ele decidiu abrandar no momento errado. Decidiu abrandar sadicamente agora, que a vida se espreme da minha mente dorida. E se nada me salvar? E se ninguém conseguir chegar até mim e eu permaneça doente para os restos dos meus dias? Na minha cabeça passeiam imagens de mudanças e resoluções, mas conseguirei cumpri-las? E serão as mudanças necessárias? Este arranhar no meu peito enlouquece-me. Deixa-me sem rumo e tão completamente sozinha.....
Mensagens
Interlúdio
- Obter link
- X
- Outras aplicações
O futuro tem de chegar. O futuro tem de chegar porque o presente está demasiado usado e gasto. Porque eu preciso de ultrapassar este intervalo na minha vida. Preciso de avançar. Preciso de me ocupar com sociabilizar, estudar, festejar e aproveitar. Preciso de ter menos tempo para pensar, de estar menos tempo sozinha. Vou sucumbir a mim mesma se estiver sozinha. Tal como quase fiz quando dei por mim na escuridão, sozinha e preenchida de uma dor irreparável. As ideias que me passam pela cabeça ou me magoam ou me aterrorizam, e não sei sinceramente quais prefiro. Não posso partir, por muito que queira, por muito que precise. E esta necessidade premente de partir, misturada com a obrigação assertiva de ficar, vai ser o que vai esgotar a minha sanidade mental. Já não me sinto dentro de mim há muito tempo. Diria um ano, talvez mais. No entanto, à medida que o mundo me abandona e que o futuro avança eu sinto-me cada vez mais descontrolada e longe do volante das minhas emoções...
One and only
- Obter link
- X
- Outras aplicações
Ninguém mentalmente sã ama desta maneira. Ninguém mentalmente sã teme uma perda com tanto fervor, imaginando-a pior que o objeto mais contundente a enterrar-se na pele tenra. Ninguém mentalmente sã precisa de se anestesiar do próprio amor para não enlouquecer. Ninguém enlouquece com a espera, com o medo ou com a própria loucura. A não ser que já não tivesse muita sanidade mental, ou a não ser que tudo aquilo que eu suspeito seja verdade. Não posso estar a enlouquecer com um amor banal. Ninguém tão cético como eu enlouqueceria com um amor vulgar como aqueles que passeiam à minha volta. Alguém que, como eu, não só não acreditava no amor como desprezava os que acreditavam, não cai desta maneira num amor típico. Um fosso tão profundo, com uma queda tão intensa e dolorosa, não pode ser normal. Dou pela minha mente antes racional a acreditar no que eu consideraria contos de fada. Em predestinação, romances eternos e numa ligação tão forte que só pode ter algo de divino. É verdade que n...
Bloqueios
- Obter link
- X
- Outras aplicações
Nestes dias em que a avalanche de mudanças me levou montanha abaixo, dou por mim tão absolutamente entupida e bloqueada, que não consigo juntar duas palavras. Vivo numa dormência temerosa, e tudo o que escrevo, tudo o que leio, tudo o que sou é irritável e irritado, inflamado por um mau génio endémico e um cansaço existencial. Esperei que o meu futuro chegasse e ele chegou, mas lavou-me com ele. Todo o entusiasmo de livros gigantes, institucionalizações, palavras caras, discursos articulados e maturidade fingida fez-me esquecer quem sou e fez-me entender quão manufaturado, pequeno e limitado é o meu pensamento. Daí a falta de escrita, o constante medo e o enjoo emocional que se têm incrustado na minha mente, para além de uma arrogãncia apagada e de uma insegurança estúpida. Dei por mim no mundo pequeno dos adultos. E, sendo alguém que esperou por aqui chegar a vida toda, sinto-me completamente perdida. Talvez, porque na verdade, não sou capaz de me ver como uma adulta, como alguém ...
Aproximação
- Obter link
- X
- Outras aplicações
Sempre gostei de imaginar como a minha vida seria se eu tivesse feito escolhas diferentes. Se eu tivesse dito determinadas coisas, se tivesse sido diferente. Foi difícil não o fazer, quando dei por mim de frente para aquele velho e gigantesco edifício que foi a minha primeira escolha durante muito tempo. Duvidei de mim mesma por uns segundos, duvidei da minha capacidade de fazer decisões. Por uns momentos, aterrorizou-me a possibilidade de ter escolhido o sítio, a vida errada para mim. Mudei de ideias quando era calma, quando tudo parecia esperançoso e harmonioso. Agora que tudo parece perigoso e cheio de mágoa, temi ter escolhido mal. Ter escolhido aquele sítio agora significaria fugir. Começar completamente de novo, fugir da pessoa que sou e das pessoas que me rodeiam. E por muito que eu por vezes tenha pensado nisso como sendo o melhor, a verdade é que não teria sido capaz. Fiz a escolha certa para a minha educação, para a minha família e para a minha vida. Só o futuro dirá se f...
Maioridade
- Obter link
- X
- Outras aplicações
Continuo a esperar que a sensação se abata sobre mim. Temi o dia em que isto aconteceria durante muito tempo e ansiei-o durante ainda mais. Estou à espera de que o meu cérebro compreenda o que tudo isto quer dizer. Mas ele demora, ou talvez nunca chegue a compreender de todo. Estou à espera de que me abata uma maturidade que já tinha, e que me sinta velha como já sou há anos a fio. Houve um milhão de mudanças e, no entanto, tudo parece absolutamente igual. Apesar de eu nunca imaginar que estaria como estou. Apodera-se de mim um terror que substitui a euforia de perspetivas de mudança e maturidade. Há demasiadas incertezas, demasiadas despedidas, demasiadas novidades. Não consigo sequer imaginar o que me reserva, e não poder controlar o futuro será o que me levará à loucura. Tudo o que posso fazer é esperar e rezar para que o inesperado não me magoe. Todos falam dos melhores anos das nossas vidas, mas não consigo entender como uma época de maior responsabilidade pode ser melhor. Talv...
Vulnerabilidades
- Obter link
- X
- Outras aplicações
Todos temos um escudo. Uma fortaleza, aliás. E, ao longo dos anos, ao longo da vida, ao longo de nós próprios, essa fortaleza, essas paredes que nos mantêm de pé, começam a ruir. A velocidade com que elas ruem depende inteiramente de nós. Das situações em que nos metemos e da capacidade que temos para as ultrapassar. Há pessoas em que esta fortaleza já foi queimada, assaltada e até bombardeada e, no entanto, mantém-se nas suas ruínas. Há pessoas em que esta fortaleza nunca teve incidente algum, e continua perfeitamente intacta. Quanto a mim, creio que a minha me foi roubada. Num minuto estava lá, em toda a sua imponência, alta como um arranha-céus, espessa e forte, pronta para me defender, e no outro não estava e eu fiquei completamente exposta. Razões para tal ter acontecido? Excesso de tempo para pensar. Nunca ninguém devia ficar a sós com os seus pensamentos. É uma situação mais perigosa do que elucidante. E, além disso, ninguém devia mergulhar mais fundo do que consegue nadar. T...