One and only

Ninguém mentalmente sã ama desta maneira.
Ninguém mentalmente sã teme uma perda com tanto fervor, imaginando-a pior que o objeto mais contundente a enterrar-se na pele tenra.
Ninguém mentalmente sã precisa de se anestesiar do próprio amor para não enlouquecer. Ninguém enlouquece com a espera, com o medo ou com a própria loucura. A não ser que já não tivesse muita sanidade mental, ou a não ser que tudo aquilo que eu suspeito seja verdade.
Não posso estar a enlouquecer com um amor banal. Ninguém tão cético como eu enlouqueceria com um amor vulgar como aqueles que passeiam à minha volta.
Alguém que, como eu, não só não acreditava no amor como desprezava os que acreditavam, não cai desta maneira num amor típico. Um fosso tão profundo, com uma queda tão intensa e dolorosa, não pode ser normal.
Dou pela minha mente antes racional a acreditar no que eu consideraria contos de fada. Em predestinação, romances eternos e numa ligação tão forte que só pode ter algo de divino.
É verdade que nunca consegui viver em nada vulgar. Nenhum romance, amizade ou história em geral podia ser comum. Sempre tive de ter tudo, sempre tive de ter uma intensidade absoluta.
No entanto, nunca nada me soube desta maneira. Nunca me foi fácil sequer gostar de outro ser humano, quanto mais deixar-me escorregar para tudo o que eu sempre detestei. É que eu simplesmente escorreguei, tropecei num amor como este. Apareceu-me numa noite solitária e amarga e levou-me na viagem da minha vida. E imagino que sempre o verei desta maneira, traga o futuro o que trouxer.
Só me passa pela cabeça que esta é A viagem, que este é O amor, que ele é O homem, e todas esses clichés feitos por determinantes artigos definidos por uma mente possivelmente e completamente louca e embargada por um sentimento épico, daqueles que só existem nos filmes trágicos ou são gritados em músicas tão sentimentais que perturbam até os mais céticos, cínicos e fechados a estes amores impossíveis, eternos e trágicos.
Mas toda esta jornada é sádica e rouba-me as minhas defesas, os meus anticorpos, a minha independência, o meu ceticismo, a minha confiança e segurança em mim mesma, a minha capacidade de controlar as minhas emoções, e, acima de tudo e como já foi referido, a minha sanidade mental, física, psicológica, psíquica, espiritual, intelectual e tudo o que se possam lembrar.
Quero gritar, chorar e rir ao mesmo tempo e quero deitar-me em absoluto êxtase e fascínio, levantar-me em absoluto aparvalhamento e viver doida. Quero dizer estupidezes e ler poemas sobre como este amor é a minha aurora, a minha tempestade e a minha madrugada.
O meu coração enlouqueceu. Mas está mais vivo do que nunca. Toda eu estou mais viva do que nunca, numa espiral de confusão e excentricidade de que não quero sair nunca.
E para todos vocês que leem estas minhas palavras com o ceticismo típico de pessoas inteligentes, quero que saibam que vos admiro. E que aproveitem antes de toda essa inteligência vos ser roubada e substituída por clichés e uma adoração tão profunda que nem conseguem respirar fundo sem sentirem a omnipresença dessa devoção ridícula, patética e absolutamente gratificante.
Talvez eu esteja apenas cega ao mundo real. Ou talvez eu seja a que única que vê a verdade. Ou talvez eu deva ser rapidamente hospitalizada. Que se dane. Deixem-me acreditar num conto de fadas por uma vez. Deixem-me acreditar num amor e carinho mútuos, em peças de puzzle que encaixam, em almas gémeas e em caras-metade. Em Tais. Deixem a minha mente divagar em extravagâncias. E deixem-me, permitam-me, perdoem-me, não voltar ao mundo real.

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