Se eu tivesse sabido...

Estive a ver fotografias. Tanto minhas como alheias, de há uns anos, de há uns meses, de há umas semanas. Consegui localizar as situações em que estava metida em todas elas, como começaram, como acabaram. Enchi-me de uma nostalgia profusa, que agiu como pequenas cordas que sufocavam ligeiramente o meu peito. Enchi-me de saudades de tudo o que eu dizia ou fazia, de como a vida era, de como eu me sentia nessas alturas. Foi-me tão interessante quanto doloroso ver a minha evolução, ver o quão depressa o tempo passou e quanto mudou em meros meses. Não só fisicamente, apesar de, de facto, em poucos meses, eu parecer outra pessoa, mas essencialmente em termos de personalidade, em termos de... Farpas. Lembrei-me desta palavra no momento em que me deparei com uma fotografia, A fotografia. Já não olhava para ela há tantos meses, já nem me lembrava da existência dela. Mas naqueles minutos em que a fitei, senti exatamente isso: farpas. Farpas geladas que se cravaram no meu coração. E eu, que há tantos dias ando absolutamente desinspirada, sem conseguir escrever uma palavra, senti uma descarga elétrica que me atravessou o corpo e me obrigou a escrever.
A fotografia não é nada de especial, simples, a preto e branco e de má qualidade. A pessoa que está nela é que é o ponto fulcral da questão.
Passou um ano. Não me podia impedir de o dizer. Ao ver todas aquelas fotografias, algumas com a distância de 4 anos da atualidade, fiquei chocada como as coisas mudaram, como eu mudei. Porém, as mudanças mais substanciais deram-se de há um ano para cá. E o que mais me deixou chocada foi como raio é que passou um ano. Como raio é que eu deixei esse tempo todo escorregar-me por entre os dedos, sem o impedir, sem o aproveitar. Foi assim há tanto tempo?... Para mim foi ontem, da maneira que tenho essas imagens vívidas na minha memória. Parece que foi ontem aquela tarde de final de verão, em que o calor abrasador criou uma aura avassaladora à enorme mudança a que eu concordei ceder. Essa mudança de estilo de vida, transformou-me. As minhas fotografias não me deixam mentir. Misturaram-me na felicidade relativa, na alegria incalculável e na amargura automática de quem não gosta de mudanças e/ou não está preparada para elas.
Passados uns meses as minhas fotografias mostravam uma rapariga mudada, mais pacífica, mais ponderada, a aproveitar tudo o que a agridoce estabilidade tinha para oferecer. Depois fez-se escuridão. Em mais do que um sentido. Não houve qualquer tipo de fotografia minha durante cerca de mês e meio. Quando voltaram a aparecer fotografias minhas, mostravam uma rapariga de queixo levantado, orgulhosa e feroz, a tentar recuperar-se. Mais tarde, ainda com o sorriso presunçoso no rosto, mostrava uma rapariga mudada, mais uma vez, a divertir-se e a conviver, fechada e impenetrável, longe de qualquer contacto emocional. As mudanças físicas também eram bem visíveis.
E depois ela voltou ao normal. A um normal limitado pelas mudanças que entretanto se tinham imposto na sua vida, claro, mas ao mais normal que ela poderia voltar. Tudo parecia estar no seu lugar. Mas claro que não estava, eu sei que não o estava, eu fui essa rapariga há poucos meses atrás.
Depois de um início de verão cheio de sorrisos falsos, longos silêncios e um coração partido todos os dias, ela ficou resignada ao seu destino. Tentou divertir-se, conseguiu aliás fazê-lo. Mas não ajudou, aliás, reabriu uma ferida que já parecia estar a fechar.
E o verão acabou. Tudo o que lhe sobrava eram as memórias. As memórias da diversão, da amizade. Confinada outra vez a opressivos espaços, foi inevitável a recaída no poço fundo de que ela tinha saído há poucos meses atrás. Desta vez ela mantinha-se relativamente à superfície, mas era uma superfície amarga e agoniada, impossível de controlar.
E agora, ela sou eu. Eu que fico cega momentaneamente, e tudo o que vejo é o passado. Eu que neste momento respiro pesadamente, com todo o peso nos meus ombros, peso esse impossível de levantar, de satisfazer. Eu que quero implorar à rapariga de há um ano atrás para olhar bem para a pessoa que agora é só uma fotografia perdida nos meus álbuns e ter cautela. Não digo impedir, mas ter cautela com ela própria.
Eu que quero implorar ao Universo e ao Tempo, que me deixem voltar atrás, afastar-me, parar ou manter o controlo da situação. Que me deixem ter a noção, não ser ingénua, não perdoar o imperdoável, pelo menos. Ou, se não me deixam voltar atrás, que pelo menos me deixem escrever uma qualquer mensagem a essa rapariga que eu fui. Que me deixem avisá-la, dizer-lhe, mostrar-lhe, para que ela saiba no que se mete.

Para que, passado um ano, ela não esteja sentada nesta vulgar cadeira de madeira, de respiração pesada e olhos cegos, a suspirar:''Ah, se eu tivesse sabido...'' 

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