Tardes de chuva
Os meus olhos cruzaram-se com os dele. No meio daquela gente toda, senti algo quente a borbulhar-me na pele. Quis sorrir, mas sabia que não era boa ideia. Apressei-me portanto a desviar o olhar e a ser empurrada pela multidão.
No meio de todas aquelas vozes, de todos aqueles passos mecânicos na mesma direção, debaixo da chuva miudinha que preenchia o ar de um cinzento sufocante, eu permiti-me pensar naquilo que tinha tentado abafar o dia todo. Perguntei-me o que raio é que nos tinha acontecido. Como é que, quase de repente, tudo se extinguiu, se apagou, se foi. Como é que, no que parece tão pouco tempo, eu passei de o adorar, para ele me ser como o nevoeiro fino que me atravessava nesse momento.
Como é que eu, que me perdi naqueles olhos tão castanhos, que deixei tanto, mas tanto tempo da minha vida neles, simplesmente me esqueci. Como é que eu passei de ter tantas saudades agoniadas para só me lembrar dele quando os meus olhos se cruzam involuntariamente com os dele. Como é que eu passei de um outono e de um inverno dolorosos, para outro outono e inverno angustiantes.
Lembrei-me de repente de quando eu, há literalmente anos, atravessava ruas no frio escuro do inverno para o ver do outro lado. De quando a minha vida era esperar por mensagens dele, era ouvir nas palavras indiferentes dele, uma qualquer conotação saudosa.
Como é que já passaram dois anos? Como é que passou tanto tempo desde que eu decidi que merecia mais do que umas ocasionais palavras calorosas no meio de tantas humilhantes e indiferentes?
Se eu não tivesse tido coragem... Será que ainda continuaria? Será que eu aguentaria? Será que ele aguentaria? Teria anulado tudo o que aconteceu entretanto? Seria melhor se tivesse anulado?...
Num Universo paralelo em que eu nunca tivesse dito que não, em que eu tivesse que o ver todos os dias, teria aguentado? Teria continuado um cordeirinho afável?
Os hipnotizantes olhos dele continuam a perdurar-me na memória. Hipnotizantes é, de facto, a palavra certa para descrever o infinito olhar dele. Com ele, conseguia fazer-me acreditar em coisas que o meu caráter racional nunca acreditaria, fazia-me acreditar em todas as palavras sussurradas ao meu ouvido, mesmo que eu soubesse perfeitamente que eram todas mentira, fazia com que eu, mesmo contrariada, lhe fizesse todas as vontades. Aqueles olhos pretos e manipuladores dele prenderam-me durante... Demasiado tempo.
E agora, passado todo este tempo, ali estava eu, a sentir-me tão deslocada a olhar para eles outra vez. As circunstâncias mudaram tanto. Eu agora sei o que é algo real, enquanto que na altura tudo o que eu conhecia eram as mentiras e as ilusões cuidadosamente criadas. Eu agora sei reconhecer que aquele rapaz que a meus olhos era um anjo, é, na realidade, egoísta, manipulador.
Mas, mesmo assim, mesmo sabendo tudo isto, quis sorrir-lhe, um sorriso cheio de ternura, um sorriso caloroso entre aquele ambiente frio de inícios de outono. Porque aqueles olhos manipuladores também já me olharam docemente. E quando eu disse, há tempos, que ele nunca me seria indiferente, não estava a brincar. Mesmo que eu lhe tenha sido indiferente o tempo todo.
Então, de cabelos ligeiramente molhados, e um sorriso nostálgico no rosto, desapareci da vista dele. E no caminho todo para casa, mergulhei-me em todas as noites geladas de inverno em que eu me aqueci nele, em que, à luz do luar, pousei a minha testa na dele, em que tudo o que havia nos meus olhos era carinho.
No meio de todas aquelas vozes, de todos aqueles passos mecânicos na mesma direção, debaixo da chuva miudinha que preenchia o ar de um cinzento sufocante, eu permiti-me pensar naquilo que tinha tentado abafar o dia todo. Perguntei-me o que raio é que nos tinha acontecido. Como é que, quase de repente, tudo se extinguiu, se apagou, se foi. Como é que, no que parece tão pouco tempo, eu passei de o adorar, para ele me ser como o nevoeiro fino que me atravessava nesse momento.
Como é que eu, que me perdi naqueles olhos tão castanhos, que deixei tanto, mas tanto tempo da minha vida neles, simplesmente me esqueci. Como é que eu passei de ter tantas saudades agoniadas para só me lembrar dele quando os meus olhos se cruzam involuntariamente com os dele. Como é que eu passei de um outono e de um inverno dolorosos, para outro outono e inverno angustiantes.
Lembrei-me de repente de quando eu, há literalmente anos, atravessava ruas no frio escuro do inverno para o ver do outro lado. De quando a minha vida era esperar por mensagens dele, era ouvir nas palavras indiferentes dele, uma qualquer conotação saudosa.
Como é que já passaram dois anos? Como é que passou tanto tempo desde que eu decidi que merecia mais do que umas ocasionais palavras calorosas no meio de tantas humilhantes e indiferentes?
Se eu não tivesse tido coragem... Será que ainda continuaria? Será que eu aguentaria? Será que ele aguentaria? Teria anulado tudo o que aconteceu entretanto? Seria melhor se tivesse anulado?...
Num Universo paralelo em que eu nunca tivesse dito que não, em que eu tivesse que o ver todos os dias, teria aguentado? Teria continuado um cordeirinho afável?
Os hipnotizantes olhos dele continuam a perdurar-me na memória. Hipnotizantes é, de facto, a palavra certa para descrever o infinito olhar dele. Com ele, conseguia fazer-me acreditar em coisas que o meu caráter racional nunca acreditaria, fazia-me acreditar em todas as palavras sussurradas ao meu ouvido, mesmo que eu soubesse perfeitamente que eram todas mentira, fazia com que eu, mesmo contrariada, lhe fizesse todas as vontades. Aqueles olhos pretos e manipuladores dele prenderam-me durante... Demasiado tempo.
E agora, passado todo este tempo, ali estava eu, a sentir-me tão deslocada a olhar para eles outra vez. As circunstâncias mudaram tanto. Eu agora sei o que é algo real, enquanto que na altura tudo o que eu conhecia eram as mentiras e as ilusões cuidadosamente criadas. Eu agora sei reconhecer que aquele rapaz que a meus olhos era um anjo, é, na realidade, egoísta, manipulador.
Mas, mesmo assim, mesmo sabendo tudo isto, quis sorrir-lhe, um sorriso cheio de ternura, um sorriso caloroso entre aquele ambiente frio de inícios de outono. Porque aqueles olhos manipuladores também já me olharam docemente. E quando eu disse, há tempos, que ele nunca me seria indiferente, não estava a brincar. Mesmo que eu lhe tenha sido indiferente o tempo todo.
Então, de cabelos ligeiramente molhados, e um sorriso nostálgico no rosto, desapareci da vista dele. E no caminho todo para casa, mergulhei-me em todas as noites geladas de inverno em que eu me aqueci nele, em que, à luz do luar, pousei a minha testa na dele, em que tudo o que havia nos meus olhos era carinho.
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