Será?...

Não me consegui impedir. Não sou propriamente um modelo de autocontrolo, mas em geral consigo pelo menos controlar os meus pensamentos. Aparentemente perdi essa capacidade. A minha mente mergulhou em redundâncias, em repetições de tantos momentos passados, em ilusões sobre momentos do futuro. Até me sinto estranha quando isto acontece porque já passou demasiado tempo, já lasquei essa parte de mim aos bocados.
Fiz então um esforço por estar atenta, por me concentrar, convencendo-me que era importante, que eu ia precisar de tudo o que estava a ser dito. Mas minutos, talvez apenas segundos, depois, já a minha mente estava bem longe daquele restrito lugar, longe daquelas opressivas paredes. Tanto em tempo como em lugar. Fico presa em tempos muito mais interessantes, tempos em que, de facto, eu tinha algo por que ansiar.
As minhas memórias e ilusões chegam a constranger-me de tão desaquadas. São desadequadas porque importam algo que eu já não creio ter no meu coração. Rancor, tristeza. Já nada disso existe em mim.
Ele está em todas elas. Ele está em todo o lado. Se eu me distraio por uns segundos, se há uns segundos de silêncio numa conversa movimentada, lá está ele, a aparecer na minha cabeça, a sorrir e a falar, em tantos momentos passados. Posso tentar pensar noutra coisa mas de nada serve. Estes últimos dias ele está em todo o lado. A voz dele aparece nas vozes de todos, o riso dele nos risos de todos, as expressões dele na boca de todos, o cheiro dele por todos os corredores. Talvez seja a minha última homenagem que vai culminar daqui a dois dias, dia que é nada mais, nada menos, que o aniversário. Ou talvez simplesmente esteja a arder de saudades que nunca hão de ser satisfeitas. Quão reconfortante...
Não me consigo impedir de querer saber. De querer perguntar como ele está, se alguém sabe alguma coisa dele. Será que ele conseguiu encontrar trabalho? Será que já formou novos sonhos? Será que está feliz? Onde será que ele está? Já encontrou o ''amor da vida dele''? Já encontrou o que tanto procurava? Será que ainda se lembra de mim? De quem eu sou, de quem eu lhe fui?
Adorava poder fitar os olhos dele uma última vez e perguntar-lhe tudo isto. Adorava poder encerrar este assunto. Mas tão cedo nada disso vai acontecer. Vou continuar insatisfeita. Os meus desejos vão continuar sem se concretizar. Vou continuar a pensar nele porque vou continuar a ponderar em tudo isto. Vou continuar nesta constante dúvida, nesta constante saudade.
Passou-me neste momento pela cabeça que se o voltar a ver alguma vez na minha demasiado longa vida, será por um qualquer fruto do acaso, demasiado breve para me satisfazer.
Será que vou continuar a procurá-lo em todos os passos que dou? Será que alguma vez vou ter direito a conclusão, a encerramento?
Será que alguma vez vou estar inteiramente livre destas correntes?...

Comentários

Mensagens populares deste blogue

O Animal

O ciclo sem fim

A ironia da indiferença