Interlúdio

O futuro tem de chegar. O futuro tem de chegar porque o presente está demasiado usado e gasto. Porque eu preciso de ultrapassar este intervalo na minha vida.
Preciso de avançar. Preciso de me ocupar com sociabilizar, estudar, festejar e aproveitar. Preciso de ter menos tempo para pensar, de estar menos tempo sozinha. 
Vou sucumbir a mim mesma se estiver sozinha. Tal como quase fiz quando dei por mim na escuridão, sozinha e preenchida de uma dor irreparável.
As ideias que me passam pela cabeça ou me magoam ou me aterrorizam, e não sei sinceramente quais prefiro.
Não posso partir, por muito que queira, por muito que precise.
E esta necessidade premente de partir, misturada com a obrigação assertiva de ficar, vai ser o que vai esgotar a minha sanidade mental.
Já não me sinto dentro de mim há muito tempo. Diria um ano, talvez mais. No entanto, à medida que o mundo me abandona e que o futuro avança eu sinto-me cada vez mais descontrolada e longe do volante das minhas emoções.
E as minhas preocupações dividem-se entre a dor de laços irreparáveis, a ansiedade de ser esquecida e o terror do meu próprio esgotamento, da minha própria imprudência, da minha impossibilidade de me salvar.
A loucura espalha-se devagar pelo meu sangue, pela minha pele, pelos meus olhos. É uma loucura que me tortura, que me deixa em pânico e que me desgasta. É a impotência, o desespero por afeto, e a falta de raiva que me enlouquecem.
Tenho esta sensação febril de desamparo e de solidão, que me deixam numa exaustão de insónias. E tudo o que me salva, o que me impede de me perder completamente é uma mistura da minha força de vontade, que embora enfraquecida, ainda prevalece algures no fundo do meu cérebro, e a voz de alguém que me ama.

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