Maioridade

Continuo a esperar que a sensação se abata sobre mim. Temi o dia em que isto aconteceria durante muito tempo e ansiei-o durante ainda mais. Estou à espera de que o meu cérebro compreenda o que tudo isto quer dizer.
Mas ele demora, ou talvez nunca chegue a compreender de todo. Estou à espera de que me abata uma maturidade que já tinha, e que me sinta velha como já sou há anos a fio.
Houve um milhão de mudanças e, no entanto, tudo parece absolutamente igual. Apesar de eu nunca imaginar que estaria como estou.
Apodera-se de mim um terror que substitui a euforia de perspetivas de mudança e maturidade. Há demasiadas incertezas, demasiadas despedidas, demasiadas novidades. Não consigo sequer imaginar o que me reserva, e não poder controlar o futuro será o que me levará à loucura. Tudo o que posso fazer é esperar e rezar para que o inesperado não me magoe. Todos falam dos melhores anos das nossas vidas, mas não consigo entender como uma época de maior responsabilidade pode ser melhor. Talvez pela liberdade, talvez pelas festas, talvez por acabar tudo por ser um borrão de juventude e loucura. Mas eu já provei que com excesso de liberdade e tempo acabo por me perder. Não é por ser imprudente ou irrefletida, é apenas por ser ingénua.
Só sinto algum tipo de maioridade na mão a que me agarro com força, como se ela a qualquer momento me fosse largar. Vai contra todas as noções que eu tinha de amor, esta necessidade, medo, esta confortável perdição e esta vontade de prometer o mundo. Apesar de manter uma visão sarcástica e cética do mundo, isto é a única coisa em que consigo ter realmente fé. Ou em que pelo menos tento. Começo a perguntar-me sobre predestinação e eternidade, se elas são possíveis, se elas algum dia poderiam simplesmente cair-me no colo. Parece-me demasiada sorte para alguém como eu, ou parece-me que quem quer que esteja lá cima está a tirar muito prazer em provar-me que estava errada. Que diabo, que seja, que eu esteja errada a minha vida toda ...
É ridículo como uma pessoa diz que nunca fará uma lista de coisas e acaba por as fazer. Como se tinha convencido que era demasiado amarga, inteligente e cética para se apaixonar e, de repente, dá por si tão perdida que não há retorno. É esse cair súbito e toda essa intensidade que me tem assolado que me faz perguntar-me o que nunca achei possível.
Cai-se em clichés e desejos de imortalidade e de um amor épico mas não trágico. E de unicidade e reciprocidade e todas as coisas ridículas que eu achei que apenas as pessoas cegas e pouco inteligentes diziam, queriam e pensavam. E de que há gente que espera uma vida inteira pelo momento que partilhamos quando nos olhamos, deitados e perdidos um no outro (reconhecem o cliché?), que se isto não é determinadas coisas, então eu sou mesmo louca, burra e cega e, acima de tudo, ingénua.
Eu sei que sou infantil, por vezes, velha e rabugenta na maior parte do tempo, que adoro diversão e que não considero os pensamentos e sentimentos das outras pessoas, mas raios sabem que isso não vai interferir outra vez.
Mas enfim, chega de paradas românticas.
Sou maior de idade. E não sei o que isso quer dizer. Não realmente. Sempre serei uma criança para a minha família, a Cláudia para os meus amigos e uma velha para mim. Provavelmente não significa nada. Começo a perceber que nada realmente significa nada.

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