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Runway

Preciso de partir. Não posso ficar nem mais um segundo. Sou capaz de enlouquecer. Já imaginei a minha fuga milhões vezes ao longo dos anos. E creio que chegou o momento. Preciso de sair, viver e ser livre. Não consigo ficar aqui, onde não posso ser. Não pertenço aqui. Percebo agora que nunca pertenci. Não pertenço a este lugar, a estas pessoas, a esta vida. Nunca pertenci a nada que não a mim mesma. Provavelmente nem isso. Estou cansada de fingir que sou igual a toda a gente. Estou cansada de viver no meio da monotonia e pensar que terei de me encaixar nela. Por isso, preciso de sair daqui e de encontrar um lar. Nunca tive um lar, nunca me senti em casa em lado nenhum. O único lar que poderei ter é onde não saibam quem sou. Onde, aliás, eu não seja ninguém. Um sítio onde não importe o nosso nome, o nosso passado, a nossa idade, o nosso género, a nossa condição social. Um sítio onde eu seja completamente livre, de tudo e de toda a gente. Onde eu seja apenas um ser humano a lidar co...

Stay

Pergunto-me todos os dias se sou sequer remotamente merecedora de ti. Pergunto-me todos os dias se não será um sinal que algo tão bom e tão intenso me tenha acontecido. Se a minha alegria não se vai tornar em cinzas. Dou todos os passos com insegurança, com um medo paralisante de que os teus passos vão em direção contrária aos meus. Não seria capaz de lidar com isso, não outra vez, mas principalmente não desta vez. Sei que não há nada que dure para sempre, e mantenho em mim todas as noções que tinha antes. Mas quero desesperadamente estar errada. Quero que por uma vez, desta vez, o destino ignore a Razão, tal como eu ando a fazer e me dê aquilo que toda a gente prega e pouca gente tem. De cada vez que o teu tom de voz azeda, eu imagino tragédias, e de cada vez que os teus olhos se fecham eu pergunto-me se será para mim que eles se voltarão a abrir. De cada vez que te abraço rezo para que não queiras sair dos meus braços. Passo os meus dias a querer esperar por ti. Passaria a minha...

Dependência

Este véu negro dança sobre o meu discernimento. O meu senso comum parece hipnotizado, embalado pelos movimentos desse mesmo véu, enfeitiçado pelas imagens que este me mostra. Uma parte de mim ainda me procura dentro deste corpo, dentro desta mente. Ainda procura a minha convicção, a minha teimosia, a minha indignação e a minha tendência para explodir com força e rapidez. Mas estas minhas características escondem-se algures atrás do véu. Não perdi a capacidade de me enraivecer, de discutir com um tom afiado e palavras aguçadas, de me concentrar ou de ser a pessoa que sou. Só que agora faço, penso e digo tudo de forma mais leve, mais suave, mais doce e mais gasosa. Os meus sentidos estão enleados numa ilusão, numa bela e demasiado indulgente ilusão, diga-se de passagem. Os meus olhos só veem a mesma sequência de imagens, mesmo quando estão cegos, os meus ouvidos só ouvem um som, o meu nariz só sente um cheiro, as minhas mãos só querem um toque, e o meu paladar só quer um sabor. ...

Adeus, Juventude

Este quarto está mergulhado na mais absoluta escuridão e no calor não incomodativo de primavera. Jazo imóvel sobre a minha cama e deixo que os soluços violentos tomem conta de mim. Na minha mão prostra-se o símbolo da minha segunda casa. E o mero sentir da textura desse mesmo símbolo envia-me para as minhas ondas de dor fechadas, com as quais nunca soube lidar, ao ponto de as luzes do meu quarto terem de estar desligadas, como se isso me ajudasse a sobreviver-lhes ou a fingir que elas não existem. Quando esse símbolo me foi dado, fui surpreendida pela primeira onda de dor astronómica, que me abateu violentamente, em forma das perguntas "E agora?", "Para onde vou?", "O que vou fazer?", e em forma das afirmações "Acabou.", "Nunca mais." e "A minha vida mudou para sempre". Com aquele edifício vai a pessoa que eu fui há 3 anos, as memórias de 3 anos, todas as sensações de 3 anos e, mais importante do que tudo, 3 anos da minha v...

Insanamente

Não pode ser. Não. Não consigo. Quem é esta pessoa? Não sou eu. O corpo é meu, mas não me reconheço, não reconheço os meus gestos, as minhas palavras ou os meus desejos. E há quem chame a isto uma sensação agradável? Estão loucos. Só podem estar doidos, mais doidos ainda do que eu. Como é que é possível? Eu não queria mudar, nem que seja momentaneamente. Não queria, nem quero, depender, necessitar ou desejar. Que raio é que se passa? E porquê que se propaga esta sensação de perda? E porquê que já não mando nas minhas emoções? Sinto-me a cair num poço profundo, sem nada a que me agarrar. Parece que nem me posso agarrar a mim própria, pois não estou a criar qualquer tipo de defesas, não estou a resistir ou a protestar. Parece que ando tão surpreendida que ando simplesmente a escorregar para algo de onde sei que não vou saber sair. Dizem-me para não ser pessimista. Mas esquecem-se que não pensar o pior das pessoas é o que leva a quedas sérias. E eu já estou farta de cair. Pelos visto...

Dúvidas Prudentes

E deixamo-nos escorregar para o que não compreendemos. Rumo ao absoluto desconhecido. Talvez faça parte da condição humana, essa necessidade de nos colocarmos em situações que se sobrepõem a nós, de entrarmos no que não conhecemos. Pode-se ser a pessoa mais inteligente do mundo, mas a racionalidade esvai-se assim que nos aparece a oportunidade de uma aventura. É assim que eu escolho compreender este meu desvio do que me é habitual. A possibilidade de uma aventura, uma que me entusiasma, uma que me deixa curiosa, e uma que me dá uma sensação de ter o peito leve como o vento. Como se tudo isto não passasse de um mero estudo à vida do resto do mundo, para que eu consiga finalmente entender. Prefiro acreditar nisto porque sei que não tenho mais nada para dar. Apesar de ultimamente ter encontrado recursos improváveis. Não sei de onde eles vêm, mas sei que eventualmente pararão de vir. Apesar desta sensação que poderia ser descrita como predestinação, eu sei que não vou voltar a sal...

A Grande Muralha da Insensibilidade

Sinto-me sinceramente surpreendida por o típico pânico não se ter instalado nas minhas veias. O pânico de quem não quer mudanças, de quem não quer viver com alguém. Se isso significará alguma coisa? Espero desesperadamente que não. E, alguma parte de mim, talvez a parte de mim que ainda acredita em contos de fada, se é que essa parte de mim ainda existe, anseia que sim. Não mudei de ideias. Nunca mudo de ideias, elas apenas se suavizam ou radicalizam. Continuo a achar que brincar ás casinhas seria um desperdício de um potencial para grandeza. Do meu potencial para grandeza. Continuo a achar os amores épicos dos meus colegas etários extremamente exagerados e advindos de cérebros cheios de telenovelas e de falta de autorrespeito. Continuo a sentir o muro enorme que é a minha incapacitante falta de sentimentos, ou a minha incapacitante falta de vontade de sentir sentimentos, ou ainda a minha falta de vontade de me partilhar seja de que maneira for e seja com quem for. No entanto, adm...