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Indolor

E ali estava ela a defender a sua paixão como se fosse a sua vida. E eu, revirando os olhos e discutindo, exibia a minha opinião já tão óbvia e gasta sobre aquele assunto. Todas as palavras que saíam da minha boca eram cuidadas e pensadas, e a tese que elas formavam era uma tese que eu elaborara nova, e pela qual era e sempre fui apaixonada. Não tinha qualquer pena de destruir o conto de fadas que ela criara nem tinha pena de saber estar a gastar a minha voz em vão. Há que defender aquilo em que acreditamos, independentemente se vale a pena ou não. Vale sempre a pena, e terminem vocês. Tinha pena, no entanto, de já não fazer ideia do que ela estava a falar com os olhos brilhantes e lacrimejosos. Já não sabia do que ela falava há muito tempo, porque já não sentia o que ela sente há muito tempo. Nem eu sei há quanto. Nem eu me lembro, sinceramente, quando foi a última vez, porque o tempo atravessou-me e todas as memórias estão já borratadas, apagadas e já não me dizem (e finalmente ...

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As correntes de ferro apertam-se à volta dos meus pulsos. Sinto, a cada momento, o ferro a cortar-me a pele, o meu sangue a jorrar. Cada dia que passa o ferro entra cada vez mais. Cada dia que passa a minha vida esvai-se por entre as manchas de um vermelho escuro. Parece que cada passo que dou se aproxima do nada. Do infinito precipício, do enorme salto, da completa escuridão. Não sei o que se segue. Não sei para onde vou ou como vou. Os dias passam e cada ''final'' chega, Cada coisa que será a última que eu vou fazer. As correntes cortaram-me profundamente os pulsos no dia em que decidi tornar-me prudente. Talvez seja um exagero de uma mente melodramática, mas foi um passo muito grande, tomado por uma pessoa que ainda se vê como uma criança pequena. A minha vida esvai-se por entre os meus dedos pequenos e finos. Não consigo fechar a mão e agarrá-la. Preparo-me para terminar tudo. A minha irresponsabilidade, o meu humor, o meu embaraço, a minha prodigialidade...

Jackie ou Marylin?

Ele abre os olhos. A sua visão ainda está turva, ainda não vê. O teto ainda é só branco, as paredes ainda são só despidas, o mundo ainda é um rascunho. Pestaneja várias vezes. Tudo começa a parecer mais concreto, mais distinto, mais real. Já consegue ver as manchas de humidade no teto, os quadros nas paredes. E o pequeno sofá no canto do seu olho. Vira a cabeça ligeiramente para esse sofá. E eu sorrio-lhe. Assim que ele de facto consegue distinguir o meu rosto, sorri de volta. O rosto dele torna-se num derreter de carinho e afeto. Tudo dirigido a mim. Ali estava eu. Sentada naquele pequeno sofá, ao lado de uma cama de hospital, de onde ele me sorria. Ali estava eu para cumprir a minha função, ser o porto seguro, a pessoa de confiança. Levantei-me e aproximei-me da cama. As minhas mãos estavam trémulas quando lhe tocaram na pele quente. Passei a minha palma da mão pelo rosto deleitado e cansado dele. Senti a pele perfeita e a barba por fazer. Senti, com esse mero toque, toda a dor, ...

Elos

Era uma vez um fino fio dourado. Apesar de fino, o fio era duro, forte. Mantinha duas realidades opostas para sempre juntas. Estas duas realidades estiveram juntas durante algum tempo, criando este longo fio. No entanto, o tempo fez com que elas se separassem e com que alongassem o já de si longo fio. À medida que a distância entre estas realidades aumentava e à medida que a velocidade do tempo deixava tudo para trás o fio aumentava. Chegou a um comprimento maior do que o das maiores torres do mundo. Este fino fio doirado não era, porém, um fio regular. Estava cheio de cortes, rasgões, fendas e amaços. Fora cortado diversas vezes para depois ser reatado. Sempre que estava cortado tornava-se negro e era um rastilho que explodia nas realidades nas suas extremidades, alterando-as e tornando-as mais ferozes, mais distópicas, mais ridículas. Quando uma das realidades assim o decidia, esse fio era reatado com um pequeno nó, que restaurava a sua cor, que se propagava às realidades opostas,...

Papéis de teatro

Não fui feita para encaixar num determinado papel. Para sorrir e acenar e para preencher os requisitos da típica adolescente.  Não me conseguiria estupidificar nem que o quisesse. Nasci peculiar, fui educada de forma peculiar. As pessoas que me deram o sangue sentam-se à volta da mesa e discutem pacifica e culturalmente. Nunca, na minha infância, ouvi, que não fossem debates, explicações. Nunca se levantou a voz, nunca se disse um palavrão. Fui educada por pessoas ligadas em excesso à mania de serem burgueses e aristocratas, apesar de nem lá perto andarem. O que tem os seus prós e os seus contras. Aliás, o único contra que tem é que eu não consigo disfarçar o que sou perante outras pessoas da mesma faixa etária, não consigo disfarçar a cultura, a inteligência ou a curiosidade. Porque no meu mundo, manifestações de tudo isso são pão nosso de cada dia. Portanto, não pude ser a típica criança, sendo que até a brincar com Barbies os meus enredos eram baseados em Shakespeare e não em...

Considerações de finais de ano

Não acredito que por as doze badaladas tocarem a minha vida vá mudar de todo. Mas acredito que assim que as doze badaladas tocarem chegará o ano que mudará a minha vida. 2015 será um ano de decisões, um ano de mudanças extremas. E a minha forte personalidade não gosta nem das mudanças mais pequenas, portanto imagine-se. Sinto que o fim de dezembro e as férias me trouxeram algo que eu não tinha há muito tempo: paz, compreensão, tolerância. Sinto-me um lago de água calma. Sinto que compreendo finalmente muitas coisas que antes não compreendia. Sinto que me permito a muitas coisas a que antes não me permitia. Sinto que sei o que é a humildade, ou pelo menos algo do género. Sinto que sei quem finalmente sou. Sei, finalmente, do que gosto. Compreendi que fui feita para uma vida calma mas entusiasmante, para rotinas doces e para romantismos silenciosos. Compreendi que, a cada momento, me fecho mais na minha própria mente, impedindo os outros de lá entrarem. Compreendi que, a cad...

Dark side

Ninguém é perfeito. Toda a gente tem um lado obscuro e tremendo, de que ninguém fala. Toda a gente já pensou em coisas indescritíveis que depois preferiu fingir que não pensou. Ninguém sabe como realmente é, ninguém sabe o que alguém é quando está sozinho. Porque nenhum de nós é só uma pessoa, tem só uma personalidade, é não capaz de fazer algo. Não sabemos. Porque nada sabemos sobre nós. E nada sabemos sobre os outros. Para aprendermos e para vermos o que as pessoas realmente são e para sabermos analisar e reagir, precisamos de estar ou ter estado na mesma posição que eles. Por exemplo, para aprendermos a não nos meter em situações amorosas atrozes, precisamos de já saber com o que estamos a lidar. E, portanto, para aprendermos, precisamos de primeiro experimentar. Disseram-me, há algum tempo, que nos devíamos apaixonar pelo menos três vezes na nossa vida: por uma pessoa que seja como nós, por uma pessoa que considerássemos perfeita e por alguém que nos oprimisse e reprimisse. A...