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Finais

Tudo tem um fim. Tal como eu sempre apregoei. Seria de esperar que me regozijasse pela minha vitória em todas as discussões alguma vez tidas sobre o assunto. Não o faço. Sinceramente, não o quero fazer. Que consolação nos traz o fim? Nenhuma. Espero que, de facto, lhe traga alívio. Mas a mim não me traz nada. Não tenciono esperar desta vez. A minha personalidade foi alterada para sempre por aquele tempo em que esperei incessantemente. Não vou voltar a esperar. O pessimismo instalou-se nos meus ossos e a minha energia foi-me completamente drenada. O entusiasmo, o real entusiasmo, já não vive em mim. Porquê? Mágoa? Não, solidão. O tempo passa e escorre-me por entre os dedos e eu nem me esforço por o fazer valer. Para quê? Por ser o último ano? Para ser memorável? Que se lixe. O tempo passa e eu, apesar do terror que me provocará crescer, apenas quero que ele corra até eu já não ter memória, até ao fim. O fim não me trouxe nada que não memórias indiferentes e solidão. Estes três an...

Percalços

Nesta tarde cinzenta e típica do fim de novembro, quero contar a história que já contei um milhão de vezes. Mas não o posso fazer, porque já não há mais a dizer. Já gastei todas as palavras, já passou todo o tempo na ampulheta, já se esvaiu de mim sem se esvair todos estes anos. Porque não sinto um pingo de amargura ou ódio a fluir-me debaixo da pele, portanto não posso discutir comigo mesma. Apenas saudades e cansaço. Saudades do tempo em que eu não via o mau em tudo. Saudades do tempo em que eu nunca estaria sozinha, apesar de me sentir sempre e irremediavelmente sozinha. E com isto não me refiro ao tempo em que era abafada sem o ser. Refiro-me ao tempo em que novembro significava proximidade ao natal, castanhas, frio e lareiras. Agora, apenas significa o tempo a escorrer dos meus dedos. O meu último novembro antes da minha vida dar a maior volta possível. E eu, que detesto mudanças, luto com esta com todas as minhas forças. Luto com o fim da minha infância. Não estou pronta, de man...

Condolências

O movimento violento fê-la levantar-se. Continuou a desferir o punho no ar, como se lhe fosse dar alguma solução, como se a fosse confortar. Mas não estava a ajudar. E, com o suor a misturar-se com as lágrimas, os olhos enlouquecidos de dor e desespero, sabia que não podia parar. Estava presa. E, nessa prisão, perdera os melhores anos da sua vida. A cama continuava revolta, o som do silêncio pesava na casa enorme. O único som era o da respiração ofegante dela, que finalmente parara de esmurrar o ar e caíra sem ruído no chão, dobrando-se sobre si própria, num choro que a sufocava. Não conseguia mais. Estava presa, exausta, desgastada a um ponto tão precoce. O enorme cabelo liso dela tapava-lhe o rosto. Não se atrevia a ligar a luz, não se atrevia a ver-se ao espelho. Sabia o aspeto que tinha: o aspeto de quem quer morrer. E não se queria ver assim. Sabia quem era, e não era do género de pessoas que se deixa morrer. Não era do género de pessoa que se perdia numa relação. Era do género...

Cemitérios

O meu cabelo abanava muito suavemente com a brisa gradualmente mais fria. Mas os meus olhos não reparavam. Estavam perdidos nas colinas verdes e desertas que se espalhavam na minha vista. E, por uns meros segundos, esqueci-me da inconveniência daquele dia. Esqueci-me de onde estava e de todas as razões pelas quais detesto aquela terra perdida no meio do fim do distrito a que eu chamo meu. Tentava ouvir o que me rodeava. O maravilhoso som do silêncio, como lhe chamava o meu pai. O som da absoluta paz, onde eu sinto que finalmente pertencia. E, ali, onde os meus ouvidos ouviam o som que foram feitos para ouvir, pareceram-me ainda mais fúteis as palavras. Falamos demais. Esquecera-me do quanto gostava de ouvir, pela simples razão de também gostar de ouvir a minha própria voz. A minha não melodiosa mas rude voz, que sempre tinha muito para dizer. Mas, às vezes, sentia a extrema falta do silêncio. O silêncio das noites de inverno. Da minha felicidade que transborda de festividades, de des...

Ranting

Imploro-vos, deixem-me em paz. Eu sei que acham que tem piada, eu sei que acham que eu penso que tem piada. Mas não tem. E eu não acho. Eu sei que acham que eu aguento, que sou rainha e altiva ao ponto de não querer saber ou de até achar piada. Mas não acho, e quero saber. Pode não ser sempre, mas às vezes. Quero saber às vezes e as vezes que quero saber enterram-me até aos joelhos. É verdade que sempre adorei ser o centro das atenções. Sempre o fui. E nunca precisei de fazer mais do que ser eu mesma. Mas, por vezes, nas vezes em que estou realmente consciente do que se passa à minha volta e não estou completamente enterrada nos meus pensamentos, na minha vida, em mim, gostava de ser invisível. Não porque não goste da atenção ou porque a minha autoestima não aprecie tudo o que se passa. Mas porque, muitas vezes, sinto-me como um mero cordeiro no meio de lobos. Lobos esfomeados e com problemas de autocontrolo. Gostava de poder existir sem toda a gente saber de todos os meus movimento...

Crises existenciais / Críticas aparvalhadas / Pessimismo Generalizado

A escola portuguesa foi criada para desenvolver o hemisfério esquerdo do cérebro. O hemisfério esquerdo contém o raciocínio lógico, matemático. A capacidade de memorizar. Ignorando assim o hemisfério direito, da criatividade e imaginação, da personalização. Porque é isto relevante? Somos todos produtos estandardizados da mesma fábrica, formatados apesar de tão novos, quadrados, educados para perdermos a imaginação, a inspiração a criatividade. Criados para acreditarmos que tudo se consegue com esforço, sem qualquer influência do nosso génio, ou com pouca. As soluções criativas, as personalidades genialmente desvairadas? São completamente rejeitadas e vistas como libertinas. Procura-se o conveniente, o dentro das conformidades. Mas porque raio é isto relevante? Não sei. Talvez seja uma mera crítica que me anda a marinar na mente há muito tempo, talvez seja produto do meu estado apático de pessimismo. Apercebi-me de tudo isto quando um dos meus textos foi chamado de ''demasiad...

Amargura e desprezo - I

Há tantos tipos de homens.Eu, na minha tenra idade, ainda não descobri um décimo deles, mas posso afirmar que já conheci alguns. Aliás, seja-me perdoado o lapso, não conheci nenhum homem, mas muitos e muitos rapazes. Esta classificação vai ser talvez um pouco sexista. Tentarei evitar que o seja, mas a estereotipização é quase impossível de evitar. Há os que são honestos. Não me refiro à qualidade de não mentir, refiro-me ao defeito de não se saberem calar. A honestidade escorre-lhes pela boca num rio de palavras que eu não quero ouvir. Não por serem aborrecidas, mas porque são ofensivas. O tato não é um conceito que conheçam. Até são capazes de conhecer, mas é-lhes irrelevante. Ser rudemente honesto parece ser o certo. Não conheci muitos homens/rapazes assim. Aliás, só me lembro de um. Talvez dois. Dois homens com quem gastei muito mais tempo do que devia. Há os que parecem perfeitos. Perfeitos dentro do meu género, obviamente. Não são excessivamente bem parecidos, não são excessiva...