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Ranting

Imploro-vos, deixem-me em paz. Eu sei que acham que tem piada, eu sei que acham que eu penso que tem piada. Mas não tem. E eu não acho. Eu sei que acham que eu aguento, que sou rainha e altiva ao ponto de não querer saber ou de até achar piada. Mas não acho, e quero saber. Pode não ser sempre, mas às vezes. Quero saber às vezes e as vezes que quero saber enterram-me até aos joelhos. É verdade que sempre adorei ser o centro das atenções. Sempre o fui. E nunca precisei de fazer mais do que ser eu mesma. Mas, por vezes, nas vezes em que estou realmente consciente do que se passa à minha volta e não estou completamente enterrada nos meus pensamentos, na minha vida, em mim, gostava de ser invisível. Não porque não goste da atenção ou porque a minha autoestima não aprecie tudo o que se passa. Mas porque, muitas vezes, sinto-me como um mero cordeiro no meio de lobos. Lobos esfomeados e com problemas de autocontrolo. Gostava de poder existir sem toda a gente saber de todos os meus movimento...

Crises existenciais / Críticas aparvalhadas / Pessimismo Generalizado

A escola portuguesa foi criada para desenvolver o hemisfério esquerdo do cérebro. O hemisfério esquerdo contém o raciocínio lógico, matemático. A capacidade de memorizar. Ignorando assim o hemisfério direito, da criatividade e imaginação, da personalização. Porque é isto relevante? Somos todos produtos estandardizados da mesma fábrica, formatados apesar de tão novos, quadrados, educados para perdermos a imaginação, a inspiração a criatividade. Criados para acreditarmos que tudo se consegue com esforço, sem qualquer influência do nosso génio, ou com pouca. As soluções criativas, as personalidades genialmente desvairadas? São completamente rejeitadas e vistas como libertinas. Procura-se o conveniente, o dentro das conformidades. Mas porque raio é isto relevante? Não sei. Talvez seja uma mera crítica que me anda a marinar na mente há muito tempo, talvez seja produto do meu estado apático de pessimismo. Apercebi-me de tudo isto quando um dos meus textos foi chamado de ''demasiad...

Amargura e desprezo - I

Há tantos tipos de homens.Eu, na minha tenra idade, ainda não descobri um décimo deles, mas posso afirmar que já conheci alguns. Aliás, seja-me perdoado o lapso, não conheci nenhum homem, mas muitos e muitos rapazes. Esta classificação vai ser talvez um pouco sexista. Tentarei evitar que o seja, mas a estereotipização é quase impossível de evitar. Há os que são honestos. Não me refiro à qualidade de não mentir, refiro-me ao defeito de não se saberem calar. A honestidade escorre-lhes pela boca num rio de palavras que eu não quero ouvir. Não por serem aborrecidas, mas porque são ofensivas. O tato não é um conceito que conheçam. Até são capazes de conhecer, mas é-lhes irrelevante. Ser rudemente honesto parece ser o certo. Não conheci muitos homens/rapazes assim. Aliás, só me lembro de um. Talvez dois. Dois homens com quem gastei muito mais tempo do que devia. Há os que parecem perfeitos. Perfeitos dentro do meu género, obviamente. Não são excessivamente bem parecidos, não são excessiva...

Sei Lá

Tenho dificuldade em lidar comigo mesma.  Tenho dificuldade em fazer a manutenção da minha saúde física e mental, em me lembrar de que preciso de fazer essa manutenção. Tenho dificuldade em me lembrar que estes corpo e mente mortal precisam de ser lidados com cuidado. Tenho dificuldades em catalogar a minha personalidade, em controlá-la, em moldá-la. Tenho dificuldades em decidir o que gosto e não gosto perentoriamente. Tudo para mim é definitivo, mas passado pouco tempo pára de o ser. Mudo de ideias com uma facilidade esplendorosa. E uso esse adjetivo com uma conotação positiva tão ironicamente como não ironicamente. Não me consigo decidir se estou realmente a ser irónica ou não. Tenho uma personalidade marcada, irreversível, forte ao ponto de engolir e detestar facilmente aqueles que têm personalidades fracas. Nunca fui de ''ir com a corrente'', ou fingir ser algo que não sou - mesmo que o quisesse fazer, não o conseguiria, o meu nível de desajuste social não me ...

Ganhar ou Perder

Nunca pensei em mim mesma como um porto seguro, como algo digno de confiança, a que se retorna sempre que se sente perdido. Nunca pensei em mim como um qualquer tipo de brinquedo que nos anima quando não se sabe o que se fazer, quando não temos quem mais nos anime. Nunca pensei em mim como certa. Previsível. Fácil de manipular. Mas o tempo prova que estou errada. Que talvez deva pensar em mim assim. Talvez deva efetivamente aumentar a distância entre mim e aquilo que me ridiculariza: a minha enorme e despeitada capacidade de perdoar o que não deve ser tão facilmente perdoado. Concentrar-me naquilo que tenho de me concentrar, tanto intelectualmente como fisicamente. Esquecer que há outras pessoas no mundo. Essas pessoas não importam quando eu estou traçar o meu futuro. As pessoas que me rodeiam já não me rodearão dentro de um ano. Portanto, o quê que elas importam? Nada. O quê que ele importa? Nada. O quê que ele importa? Nada. O quê que ele importa? Nada. ... Não sou um porto seg...

O Futuro

21 de setembro de 2024, As minhas pernas nuas estavam cruzadas debaixo da mesa alta. O meu punho fechado suportava o meu rosto, enquadrado pelo meu cabelo curto, até ao meio do pescoço, que se se encaixava perfeitamente na minha expressão. Costumava adorar cabelos longos, mas há algum tempo que percebera que o que era mais prático era o adequado. Aliás, passara a conceber a estética pessoal como uma mera forma de marketing. Já não me vestia para me sentir bem, para impressionar a mim mesma, a outras, a outros. Sabia o aspeto que tinha. Sabia que era tão prejudicial como benéfico. Portanto, passei a descuidar-me. Não literalmente, mas no assunto em que apenas me vestia bem por hábito, para ter um aspeto polido e de confiança. Apenas me olhava ao espelho para ter a certeza que a minha maquilhagem estava bem colocada, não para me embebecer com a minha aparência. Era irrelevante. Daí que as minhas unhas fossem curtas e pintadas de um vermelho escuro. Daí que estivesse sobre uns sapatos p...

Os Clintons

Ele pega-me na mão através da mesa. A maneira como envolve a minha é suave e delicada, dobrando-a com um mero toque de dedos. O gesto era distraído, despropositado, demonstrando uma afeição acostumada, habitual e leve. Sorri-lhe levemente, devolvendo o leve aperto de dedos. As pessoas à nossa volta fitavam-nos com curiosidade disfarçada. Talvez porque somos jovens, talvez porque somos atraentes. Mas principalmente porque vivíamos um belo romance sofisticado, objetivo, sorridente, leve e de uma perfeição incrível. Ambos brilhamos sofisticação. O meu longo e liso cabelo sorri brilho, a minha confortável mas arranjada roupa assenta-me como uma luva. O cabelo dele está sempre perfeito, os olhos verdes dele têm sempre o mesmo brilho, e a roupa dele, escolhida sempre por mim, torna-o ainda mais largo, ainda maior, ainda mais adulto. Os lábios dele movem-se enquanto ele discute um qualquer assunto sobre o qual eu não tenho qualquer interesse, mas eu não o ouço. Nunca fui uma boa ouvinte. M...