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Apocalipse

As cores e os sons eram só meros borrões que caíam num espaço infindo. Tudo estava apagado dentro de mim, só existia o exterior. O exterior que me mostrava os olhares que dirigiam a uma rapariga bonita, de passos já trôpegos, de olhos já meio fechados e de mente perdida. O exterior mostrava-me também imagens que me desfaziam, que me massacravam. E o álcool ajudara a combater essa sensação de desatino, de absoluta perdição que me começava a queimar o peito. Era uma sensação familiar. Familiarmente dolorosa, por muito que me custasse a relembrar-me, por muito que tivesse guardado essas imagens na gaveta mais negra e longínqua do meu cérebro. Mas o meu cérebro estava agora desarrumado e essas imagens saltavam-me aos olhos sempre que podiam. Lancei-me numa fúria cega e rancorosa, uma fúria lúcida, por muito ébria que eu já estivesse. Chamo-lhe fúria lúcida porque pela primeira vez tive a reação de uma pessoa normal, a reação esperada, a reação que eu devia ter tido há bem mais de um ano...

A minha fuga

- Como queres que seja o resto da tua vida? - perguntaram-me os olhos frios dela. Subitamente o meu plano de fuga delineou-se na minha cabeça. Assustei-me com a minha própria vontade, com a rapidez com que a ideia de fugir se desenhou em mim. Não era uma ideia que eu pensaria em concretizar, claro. Por muito terrível que me sentisse nuns dias, tinha sempre presente na mente que eram meras fases. Que se dissolveriam com as horas, com os dias. Mas não queria pensar nisso. Queria pensar no meu cabelo a esvoaçar com um vento morno do Sul, enquanto eu fitava as gândolas de uma ponte de pedra. Queria pensar nos meus olhos maravilhados a fitar o impensável fogo de artifício que parecia explodir nas mãos da Estátua da Liberdade. Queria pensar nos meus pés, a subir as escadas de um antigo palácio inca, de um qualquer castelo europeu. Queria pensar nas minhas mãos a tocar em todas as texturas, em todas as temperaturas. Queria pensar no quanto quero viver, de uma forma explosiva, vibrante e im...

O Ridículo

Uma apatia sem limites atacou-me. Estou num daqueles humores corrosivos, em que tudo é de uma ironia imensa e em que a minha única vontade é atacar com sarcasmo todos os que me rodeiam. Além disso, é fácil, tendo em conta que todos os que me rodeiam são dotados de uma ignorância abundante e/ou de uma credibilidade triste. Meus caros amigos, lamento informar-vos, mas o amor não existe. Que raio, porque diabo é que existiria? As pessoas, particularmente, nós, queridos e ignorantes adolescentes, chamam amor àquela sensação de nervosismo exaustivo que se dá quando nos apaixonamos. Sim, aceito o conceito de nos apaixonarmos. Porque essa sensação é isso mesmo e nada mais: paixão. As palmas suadas, a dor de barriga, o coração a bater a mil e o pensamento de que nunca na vida pensaremos em mais nada que não a pessoa em que pensamos. Redundâncias e clichés em todo o lado. Ora, meus caros, essa sensação desaparece. Lamento. E sobram duas hipóteses: ou se acaba a relação ou não. Os que acabam ...

Blast from the past

Tudo era inebriante. A música nas alturas ribombava-lhe no peito, fazendo-a vibrar e impedindo-a de não dançar, fornecendo-lhe uma energia sobrehumana. As luzes cegavam-na. Tudo se misturava e a fazia sentir fora de si. Por mais que a sua mente estivesse lúcida e clara, sentia-se a perder o controlo do seu corpo, das suas emoções, de si mesma e de tudo à sua volta. A sua alma evaporava-se e ela era um mero objeto, um mero corpo sujeito ao frio e às circunstâncias de uma noite. Era assim que se sentia, ali, perdida em letras e sons redundantes que a descontrolavam, completamente ébria da experiência, completamente pedrada em vida. Dirigiu-se à piscina, imaginando que se perderia mais e que tudo o que alguma vez existiu na sua mente, no seu coração, fosse lavado pela água salgada e quente, pela imagem de corpos a movimentar-se depressa mas infinitamente devagar. E foi aí que o viu. Estava perdida nos seus pensamentos não existentes quando sentiu uma figura aproximar-se e tocar-lhe n...

O que será, será.

Os dias passam leves, lentos e simples. Não tenho memória de acontecimento nenhum, porque nenhum acontecimento é digno de memória. A minha mente entrou numa fase de estagnação absoluta, e assim sendo, o passado não existe, o futuro também não. Não me lembro do que fiz ontem, do que fiz na semana passada, no mês passado. Felizmente, também não me lembro, ou lembro-me apenas lassamente e com uma indiferença extrema, do que me gastou no mês passado, no ano passado, numa vida passada. Do que me ofendeu ontem. Não me lembro do que é sentir. Ou, antes, não me lembro do que é sentir seja o que for que não seja esta vaga vontade de me libertar das obrigações, que estão já em contagem decrescente, ou esta resignação alegre da estagnação. O meu ser desistiu de se sentir revoltado, indignado. Desistiu de lutar por um breve período e decidiu hibernar, ou estivar, aliás. Todas as injustiças do mundo ainda lá estarão daqui a umas semanas, todas as minhas causas podem esperar. Toda a teoria sobre t...

O papel do destino

Queridos leitores, Nos últimos tempos tenho-me entregado a várias horas filosóficas. E, assim sendo, achei pertinente perguntar se, de facto, tudo na nossa vida está absolutamente determinado, ao ponto de não sobrar nada que seja da nossa escolha, ou se nós fazemos todas as nossas escolhas. Se, realmente, a nossa vida podia ter sido diferente, conforme alguma escolha que fizemos no passado. Ou será tudo destino...? Por alguma razão (alguma muito irónica razão), prefiro acreditar que foi destino. É mais razoável, menos masoquista, do que considerar a hipótese de eu, por algum pormenor, por alguma palavra que não disse ou que disse, por algum ato que fiz ou que não fiz, poder, neste momento, numa realidade paralela, prosperar. Seria a alternativa a esta realidade melhor ou pior? Ou ambas? Haverá uma multiplicidade de realidades possíveis baseadas nas minhas escolhas? Será tudo completamente aleatório e indiferente? E que papel representará o destino no amor, se é que ele existe e ond...

Rancores filosóficos

Dia 424: Senti-me na obrigação de reabrir este diário. Afinal, sempre que o assunto sobre o qual ele versa era reaberto, fazia sentido reabri-lo também. Assim o fiz durante quase um ano. Até que, a partir de certa altura, percebi que já não precisava de o fazer. Passei a fazê-lo apenas e só quando as saudades me atingiam como um tiro certeiro. Passaram 424 dias. A velocidade a que o tempo passa corrói-me. Afinal de contas, eu lembro-me do dia 1. Eu lembro-me vividamente da semana 1, do mês 1, do ano 1. Lembro-me como se fosse hoje de como morri, vezes e vezes sem conta. Lembro-me como se fosse hoje de não achar que houvesse lugar mais seguro do que a minha cama, o meu quarto. De achar que nunca ia conseguir voltar a levantar-me daquele antro da tortura. Lembro-me de como, de repente, dei por mim sozinha. Não realmente sozinha, mas completamente sozinha, no sentido mental da palavra. Finalmente deu-se uma lucidez cortante na minha cabeça, uma que me mostrou uma realidade cinzenta, em...