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Sonho

Acordei levemente, como se continuasse num transe sonolento. Entreabri os olhos, num gesto reflexo de curiosidade. A casa estava silenciosa e mergulhada na escuridão. Supus que fossem ainda 3 da manhã, o que me levou a  suspirar e a virar-me pela milésima vez na cama.  Era uma noite fria de meias insónias, entre os acordares de meia em meia hora, os meios sonhos e os suores frios. Tentei procurar uma posição confortável e esperar que o sono me levasse, mais uma vez, pela última vez. Fechei os olhos, decidida a obrigar o meu corpo a ficar inconsciente, a abandonar-se, a dar-me 2 segundos de descanso. No meio da escuridão abafada pelas minhas pálpebras, músicas começaram a deslizar, figuras e cores a formar-se. Vi-me subitamente assombrada pelas imagens que eu mal percebera que foram o conteúdo dos meus múltiplos e fracionados sonhos. O pânico apoderou-se de mim. Abri os olhos e inspirei fundo várias vezes para acalmar o meu saltitante coração. Não me lembrava de muit...

Alma Velha

''És uma alma velha'', diz ela, com o orgulho a brilhar nos olhos, ''como se não fosses deste mundo, desta era. Pessoas como tu não existem.'' Depreendo o motivo pelo qual ela diz aquilo com tanto ênfase e com tanto entusiasmo. Sorri-lhe, os meus olhos cheios de compreensão e, provavelmente, compaixão. Assim que me vejo sozinha, defronto-me com a realidade agridoce. Eu era uma alma velha. É um pouco irónico para alguém que tem um medo petrificante de crescer, para alguém a quem o futuro e a ideia de ser adulta a aterroriza. E, no entanto, tenho uma alma velha. Sou uma alma velha. Não era nada que eu já não soubesse. Nasci crescida, nunca fiz asneiras, nunca fiz birras, compreendo o sentido do certo e do errado desde muito cedo, nunca me atrevi a nada porque sempre tive demasiada noção das consequências. Nasci com 30 anos. Entristece-me que assim seja, porque apenas significa que nunca fui criança, que nunca fui tão inocente, tão crente, tão feliz. Nas...

Textos Soltos - I

Era um dia cinzento. As nuvens negras eram uma ameaça constante e silenciosa. Apesar da multidão, havia um silêncio comum que se propagava, como se de luto ou contemplação. Daquele ponto de vista, aquela pequena terra parecia um Reino Encantado que havia ruído e que passara a ser uma prisão parada no tempo, irrefutável, amovível. Parecia que tudo era visto por um espectro velho e abandonado. O vento fez o cabelo dela dançar. A mente dela estava muito longe de toda aquela parafernália de tons mortos e de Reinos Perdidos. Estava muito longe de qualquer realidade paralela irrelevante ou de qualquer incessante fantasia. A mente dela estava muito longe dali, daquela prisão multifacetada em que ela passava os dias. O semáforo finalmente ficou verde. E a multidão começou a atravessar a passadeira mecanicamente, rotineiramente. Ela perguntou-se se aquelas pessoas que caminhavam ao lado dela não se importavam de ser comandadas por uma máquina que emitia cores, se não se importavam de dar o...

Paz

Cheguei à fase da paz. Não há nada em mim que não seja paz, resignação. A batalha infindável que durou uma quantidade de tempo ridícula e a mais terminou. A pessoa que eu fui em todo aquele tempo terminou, cessou.  Estou feliz por ter chegado a um ponto da minha vida em que já não há nada a temer, nada por fazer, nada por dizer. Não há passado, não há presente, há apenas futuro, um futuro que, para já, parece promissor. Infelizmente tudo isso seca-me a veia artística, o que me vai obrigar a escrever ficção e não seja o que for verídico nos próximos tempos. Mas creio que não faz mal, a minha liberdade, aquela porque eu tanto ansiei chegou. Estou livre. E aquele assunto fechou-se para sempre. Perguntei-me muitas vezes qual seria a sensação, esta sensação que agora nasce no meu peito, de fim, de esquecimento. Das outras vezes eu simplesmente transferira a fixação de uma pessoa para outra, mas desta vez isso não foi possível, o que me obrigou a lidar com o problema. Obrigou-me a enf...

2013 ou 2014

Hoje é o penúltimo dia do ano. Esse facto singular deixa-me amarga e nostálgica. Não que 2013 tenha sido um ano que eu goste de recordar. De facto, não há nada de bom que me ocorra deste ano. Foi um ano mau. E não é que eu seja muito apologista da expressão ''ano novo, vida nova'', mas espero honestamente que assim que derem as doze badaladas eu tenha direito a um novo começo. Detesto esta época. Fico sempre com a sensação que o ano escorreu-me pelos dedos e que acabei por não fazer nada de destaque, nada que marcasse o mundo. Detesto ter que rever o ano por inteiro, ver o que pode ser melhor. Tudo pode ser melhor. Foi um ano bárbaro. Espero, então, que assim que o relógio marcar a meia-noite, eu tenha um novo começo, outra vez. Um começo livre e doce, divertido e feliz. Espero que seja um ano para mim, em que eu não esteja agarrada a prisões convencionais ou a outro qualquer tipo de pessoa. Que seja um ano em que eu prospere e conquiste. Porque este ano, este miserá...

Presentes

Querido Pai Natal, A tempestade tolda a festa, a alegria, a felicidade, o calor da lareira, os chapéus vermelhos, as músicas antiquíssimas de Natal. Lá fora a chuva já parou, mas o vento e o céu negro ameaçam explodir. Pergunto-me se é uma forma de castigar o mundo e os seres humanos por serem como são, por todos os males feitos. Pergunto-me se não o merecemos. Mas o ''jingle bells'' ressoa pela minha casa. E eu, de peito leve e sorriso doce, sinto-me uma menina outra vez, a contar as horas para a chegada da meia noite. Neste momento falta 3 horas e meia. Anseio por essa hora mágica em que todos os meus desejos se tornarão realidade só porque um velho de barbas brancas virá trazer os meus presentes. Gostaria de conseguir escrever maravilhosos textos sobre esta época. Ou então de escrever maravilhosos textos a criticar esta época. Mas creio que já toda a gente o fez, milhões e milhões de vezes. Todos sabemos o que significa, o que é, porque o é. Portanto, chega. Quer...

A Cura

Dei por mim, mais uma vez, a fitar fotografias antigas. Perguntei-me porquê que as pessoas tiravam fotografias, porquê que queriam ou guardavam recordações. Seria para que conseguissem ver quão diferentes eram naquela altura? Quão felizes ou infelizes eram? Seria para os relembrar de vidas inteiras que viveram, para imaginarem como seriam se tivessem feito uma outra escolha de outra maneira? Seria para recordar tempos felizes? Perguntei-me se não seria melhor abandonar tudo isso. Se não seria melhor deixar os fantasmas do passado onde eles pertencem, se não seria melhor esquecer tudo o que se sabe que não volta. Pergunto-me se o ser humano é alguma vez inteiramente capaz de o fazer, de virar costas ao que era e enfrentar o que é. E pergunto-me como, sem eu me aperceber, fui capaz de fazer tudo isso. Como fui capaz de esquecer-me do passado por tempo o suficiente para que o aceitasse como passado. É tudo tão diferente do que era naqueles meses em que eu julgara que era feliz. Naquele...