A Cura

Dei por mim, mais uma vez, a fitar fotografias antigas.
Perguntei-me porquê que as pessoas tiravam fotografias, porquê que queriam ou guardavam recordações. Seria para que conseguissem ver quão diferentes eram naquela altura? Quão felizes ou infelizes eram? Seria para os relembrar de vidas inteiras que viveram, para imaginarem como seriam se tivessem feito uma outra escolha de outra maneira? Seria para recordar tempos felizes?
Perguntei-me se não seria melhor abandonar tudo isso. Se não seria melhor deixar os fantasmas do passado onde eles pertencem, se não seria melhor esquecer tudo o que se sabe que não volta. Pergunto-me se o ser humano é alguma vez inteiramente capaz de o fazer, de virar costas ao que era e enfrentar o que é.
E pergunto-me como, sem eu me aperceber, fui capaz de fazer tudo isso. Como fui capaz de esquecer-me do passado por tempo o suficiente para que o aceitasse como passado. É tudo tão diferente do que era naqueles meses em que eu julgara que era feliz. Naqueles meses eu estava num frágil equilíbrio, numa felicidade alimentada pela atenção, que era facilmente destruída pela falta ou pela diminuição dela. Naqueles meses eu, apesar de me sentir momentaneamente de pé, caía rapidamente de joelhos. Naqueles meses eu queria diversão, liberdade. Apesar de na realidade não querer nada disso. Naqueles meses eu fui nova e sorridente. Apesar de na realidade estar destroçada. Naqueles meses eu não parava porque sabia que se parasse a realidade ia abater-se sobre mim. Naqueles meses eu, apesar de continuamente gritar a minha independência, não me conseguia livrar de nada, de nenhuma memória, de nenhum objeto. No entanto, fi-lo hoje.
Hoje passei para outra pessoa o meu fardo. Dei algo que não servia para mim mas que eu mantinha por uma questão de segurança. E hoje, dei-o. Fui capaz de o dar, sem arrependimentos. Porque agora, em contraste com aqueles meses, eu estou cheia e preenchida comigo própria. Estou estável. Na altura eu tinha-me perdido e estava à procura de mim, portanto agia como uma eu exagerada. Agora sou eu. Um eu diferente, mas eu. Encontrei-me. E esse facto foi uma cura para as minhas aflições, uma fuga da minha prisão. Posso já não estar nos meus tempos de glória, posso estar velha e exausta, mas pelos menos sou eu. E eu sou e sempre fui o meu antídoto, bem como o meu veneno.
Esta nova lucidez trouxe muita racionalidade à minha visão das coisas. Trouxe a falta de amor que nele houve, o excesso de codependência. Trouxe ao de cima a razão, a verdade: tudo para nada e por nada. Foi tempo desperdiçado, energia desperdiçada. E o meu pseudo-ódio foi-se. Gastava demasiada paciência. Finalmente acabou. Tudo será de novo por mim e para mim.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

O Animal

O ciclo sem fim

A ironia da indiferença