(Não) Mudanças
O profundo sentimento de agonia já não entra em mim, de algum modo. Não há qualquer sentimento que entre em mim, por sinal. A minha brilhante mente consegue apenas desesperar com o futuro, divertir-se com futilidades, sorrir com estupidezes. Consigo apenas cumprir as minhas obrigações e mal. A preguiça intelectual, emocional e física apoderou-se de mim.
Não consigo escrever, ou estudar, ou simplesmente existir. Estou numa área cinzenta, num transe inoportuno. Não existe nada neste transe. É como se se tratasse de uma enorme divisão cinzenta, que nada mais tem que uma mera janela para a qual eu ouso olhar ocasionalmente.
Essa janela arranca-me da preguiça, do transe, por breves momentos. Essa janela mostra momentos que criam uma tão pura nostalgia que eu sinto-me fora da minha redoma. Momentos simples, pequenos, pouco mais do que sussurros mal resolvidos. Momentos que não provocam só nostalgia, mas também um desespero inconsequente, um medo petrificante, perguntas tão ridículas quanto pertinentes. ''E se eu não conseguir?''
O pânico propaga-se, a dor, até aí mais que bem apagada, emerge. Desvio o olhar dessa janela. E a minha vida estagna outra vez, sem preocupações ou diversões, limitada aos deveres, ao cansaço e à perpétua preguiça.
Muitas vezes sei que todo este furor vem apenas da necessidade. Nada mais. Mas essa janela por vezes mostra memórias, ou simplesmente emite sons, demasiado reais para o meu racional cérebro absorver. E eu, apesar mais curada e finalmente lúcida, sinto-me sufocada. Raramente olho para essa janela. Não tenho tempo, quer mental, quer físico. Mas quando olho, é nos momentos em que estou distraída, em que me esqueci. E, de repente, o cheiro propaga-se pelo ar. O cheiro a maresia, ou a pele pálida no meio do cheiro a chuva. A minha visão fica cega, transportando-se para outras dimensões. Os meus ouvidos só ouvem os risos, as palavras.
Mas, em geral, eu esqueço-me. E tenho um medo petrificante que não seja a única a esquecer-me. Porque eu nunca me esqueço verdadeiramente, é sempre uma pequena exclamação no fundo do meu subconsciente. Não acho que me consiga esquecer verdadeiramente. E não acho que seja uma questão de ''forgive and forget'', tal como não é uma questão de ''let go and move along'' ou uma questão de me distrair e divertir. Devia ter feito isso há muito tempo atrás. Agora não há volta a dar, só o tempo resolverá. E o tempo corre, sem olhar para trás, portanto oito meses passam em duas semanas, não me dando tempo para processar, para limpar a mente e prosseguir.
Estou exausta deste assunto, estou farta de me obrigar, sem querer, a esperar, quando sei que não consigo esperar mais, estou farta das saudades, do não perdão, da nostalgia ou da necessidade. Estou farta do inverno emocional. Farta de promessas que sei que não vou cumprir.
Daí a enorme divisão cinzenta, que me restringe ao meu infinito tédio e me impede de pensar, agir, existir.
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