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''Tempo, tempo, que não volta atrás. Nem sempre há remendo para as asneiras que se faz.''

As sombras movem-se na meia escuridão. Sombras das minhas mãos a procurarem o meu rosto em mais uma noite sem dormir. Em mais uma noite atormentada por nada mais que eu própria. O tempo corre barbaramente. Sem eu dar conta passaram meses e meses, dias e dias, em que me foi sugada a vida. Já quis desesperadamente que o tempo parasse, já quis ainda mais desesperadamente que voltasse atrás. O tempo não me obedeceu. Mas obedece-me agora que lhe imploro que corra o mais sofregamente possível, como se se olhar para trás se vá tornar em cinzas. Eu suspiro, a manhã chega. Eu sorrio e mais uma semana passou. Não tenho memória de nada, porque não há nada para memorizar. A minha vida é pura velocidade, sofreguidão, escuridão. Tudo é um nevoeiro na minha mente, nada existe realmente. Já nem sequer o tédio me atormenta. Já passei o tédio, já passei o desespero, já passei as manifestações entre inspirações de quem quer existir, de quem quer pertencer. A pior parte já passou, digo eu, a sentir o ...

Ainda a contar...

Dia 237: Os murmúrios paralelos mantêm-se. Eu mal os ouço a sussurrar, a rir. A sala está quente, mais quente do que lá fora, imaginava eu. Fito a página em branco. Procuro na minha mente um qualquer rasgo de brilhantismo, de esperança. Nada. Tudo o que se ouve é silêncio. Dirijo o olhar para a janela que mostra a realidade deprimente de uma quinta-feira chuvosa e escura. Os enormes montes verdes eram uma constante animadora no longo e gelado Inverno que nos esperava. Sorri, ansiosa pelas noites sentada à frente da lareira a ler um livro, a árvore de natal a espreitar-me no canto do olho. É impossível sentir-se partida quando o calor nos invade suavemente as veias, a nossa casa cheira a comida e tudo é harmonia, amenidade, calma. O teu coração enche-se, remenda-se, torna-se uma nuvem pura e leve. Anseio pelo inverno gelado se ele significa um coração remendado. Sabia que para o meu coração já não havia remendo que valesse, mas alguns agrafos, talvez, resolviam a coisa. As noites ...

O ciclo sem fim

Ouvi algo estalar. Tudo aquilo parecia irreal, desde as luzes coloridas e presas, que tornavam a minha visão fracionada e lenta, à música ridícula e pulsante, que me obrigava a mexer-me e a participar, à mão que me prendia. De repente, o choque transformou-se em lucidez. As mãos dele começaram a pesar-me nas costas, o corpo dele começou a, finalmente e realmente, aparecer à minha frente. E, ao contrário do esperado, a minha vontade foi correr. Correr, mesmo que os meus pés, armados com uns tacões destruidores, se desfizessem. Correr, mesmo que acabasse por cair. Correr, mesmo que parecesse ridículo, patético, embaraçador. Pensei mesmo em fugir, refugiar-me em algum lugar onde chovesse profusamente, deitar-me no chão e fechar os olhos. Não pensar, não imaginar. Simplesmente desaparecer ali, deixar o meu espírito fugir daquele corpo magoado e abandonar-se. Porque tudo aquilo era demasiado real, demasiado familiar, demasiado passado. E assim, com a respiração dele no meu ombro, o corp...

Perdão não concedido

E se não ficou esclarecido: não, não te perdoo. Perdoei-te instantaneamente, como se nem importasse. Portanto, estou-te a dizer agora, passado todo este tempo: não te perdoo. Não te perdoo por teres destruído qualquer hipótese que eu tivesse em recomeçar. Não te perdoo por me teres mudado. Por me teres transformado num monte de espera, transe e dormência ambulante. Não te perdoo por me tornares velha e amarga. Não te perdoo por me tornares insegura, por teres lascado a minha autoconfiança, o meu ego. Por teres brincado com a minha paciência. Não te perdoo, após este tempo todo. Não te perdoo por ainda te ver todos os dias, em todas as minhas ações. Por me lembrar das tuas reações, das tuas palavras. Por ainda seres tão presente como se, de facto, estivesses sentado, neste momento, a meu lado. Não te perdoo por ter passado um ano e eu achar tão, mas tão, estranho as circunstâncias de estabilidade, de quase felicidade. Não te perdoo por andar completamente exausta, impossivelmente ent...

Não posso esperar mais .

Não sei bem porquê, nem como, mas estive à espera este tempo todo. Estive à espera de um milagre, de algo que curasse, de um remendo que pusesse tudo junto, tudo reconciliado. Esperei e esperei. Fartei-me de esperar por algo que nunca veio, ou que veio mas em pequenas doses egoístas. Em doses que não foram nem nunca serão o suficiente. Desperdicei tanto tempo da minha vida à espera de sinais, de palavras, qualquer coisa. Aliás, penso que estive este tempo todo simplesmente à espera de uma sincera ''desculpa''. Se a tivesse tido, penso que teria esquecido tudo isto há muito mais tempo. E agora acabou. Estou farta, farta de desperdiçar tempo da minha juventude amargurada. Não posso esperar nem mais um segundo. Não posso passar nem mais um segundo apaixonada por um fantasma. Sim, porque ele não é mais que um fantasma. É tão real como os meus sonhos, está tão visível como os sussurros das folhas das árvores, está tão presente quanto todos os que partiram para nunca mais v...

Medos

Meus queridos leitores, Nos últimos tempos, tenho andado bloqueada em termos literários. Assim sendo tenho deixado a minha mente descansar, não me forçando a escrever textos que de certeza sairiam inconsequentes e forçados. Hoje, no entanto, decidi que era altura de o fazer e que, não estando inspirada, deveria fazer algo que nunca faço: dirigir-me a vocês diretamente. Além disso irei hoje, também, escrever mais do que um texto para compensar todos aqueles dias em que não fiz nenhum. Neste texto em particular vim abordar um assunto que me tem incomodado especialmente nos últimos dias. Os medos. Não me refiro a medos de demónios ou a sobrenaturais ou coisa do género, nem a fobias. Refiro-me a medos no que toca ao futuro. Fui amaldiçoada com esta incapacidade de viver no presente. Só me é possível viver ou no passado ou no futuro. Nos últimos tempos o passado já não me incomoda (razão principal do meu bloqueio de escritor), portanto tenho-me atormentado com os meus planos para...

Perguntas

Os meus olhos cegaram-se de novo. As vozes tornaram-se apenas ecos no fundo da minha mente, as cores desapareceram. Tudo foi transformado nos escuros recônditos da minha mente, os quais eu já tinha visitado demasiadas vezes naquele dia. E aí, isolada pelas paredes de cimento dos meus pensamentos, ousei libertar as minhas frustrações, as minhas nostalgias, as minhas angústias. As minhas perguntas. Lembrei-me do dia anterior, a imagem dele a atravessar o campo de futebol, a fina chuva a criar uma áurea idílica à volta dele. Lembrei-me dessa manhã, em que os olhos dele se cravaram em mim, tão iguais... Meu Deus, tão iguais. O meu coração começou a bater descompassadamente. É tudo demasiado igual, um dèja vu, uma espiral infinita, um pesadelo! Não desaparece nunca, não se esmorece, não me deixa respirar! Não estou livre em lado nenhum, nem na minha própria mente! Sinto a infinita vontade de perguntar tudo, de pôr em questões tudo o que me tem vindo a atormentar, a moer, a torturar! ...