Perdão não concedido
E se não ficou esclarecido: não, não te perdoo.
Perdoei-te instantaneamente, como se nem importasse. Portanto, estou-te a dizer agora, passado todo este tempo: não te perdoo. Não te perdoo por teres destruído qualquer hipótese que eu tivesse em recomeçar. Não te perdoo por me teres mudado. Por me teres transformado num monte de espera, transe e dormência ambulante. Não te perdoo por me tornares velha e amarga. Não te perdoo por me tornares insegura, por teres lascado a minha autoconfiança, o meu ego. Por teres brincado com a minha paciência.
Não te perdoo, após este tempo todo. Não te perdoo por ainda te ver todos os dias, em todas as minhas ações. Por me lembrar das tuas reações, das tuas palavras. Por ainda seres tão presente como se, de facto, estivesses sentado, neste momento, a meu lado. Não te perdoo por ter passado um ano e eu achar tão, mas tão, estranho as circunstâncias de estabilidade, de quase felicidade.
Não te perdoo por andar completamente exausta, impossivelmente entediada.
Não te perdoo por não te conseguir odiar.
Não te perdoo por ainda precisar de saber de ti, de olhar para ti, de ainda precisar de imaginar que ainda estás aí, a quilómetros de distância, a lembrar-te daquilo que fomos.
Não te perdoo por me fazeres crer que mais ninguém vai aguentar, que mais ninguém vai conseguir preencher-me.
Não te perdoo por ainda ansiar pelo segundo em que me vais ver, do outro lado da sala, e imaginar qual vai ser a tua reação.
Não te perdoo por não conseguir estar preparada. Não te perdoo por me lembrar de tudo. De todos os miseráveis segundos desde que soube aos malfadados segundos em que vi com os meus próprios olhos aquilo que me destruiu. De todos os dias que eu passei, a ouvir músicas enfurecidas ou patéticas, de olhos a sangrar de desilusão fixos nas paredes torturadas do meu quarto.
Não te perdoo por me teres impedido de chorar. As minhas lágrimas transformaram-se em cinzas. Tudo dentro de mim ardeu, evaporou-se.
Não te perdoo por sugares toda a vida que eu tinha, por me retirares todo o brilho, todo o entusiasmo.
Não te perdoo por me teres arrefecido.
Não te perdoo por não conseguir sentir nada real. Só emoções superficiais.
Não te perdoo por ter entrado num luto involuntário do qual não soube, não sei, sair.
Não te perdoo por seres feliz, por nem estares arrependido.
Não te perdoo por ter desperdiçado todo este tempo da minha vida, da minha mente, contigo.
Não te perdoo por teres brincado com a minha suscetibilidade, por vezes e vezes sem conta, destruíres qualquer ponta de sensibilidade que eu tivesse.
Não te perdoo por não te perdoar.
Não importa o tempo que passe. Não te perdoo. E espero, espero mesmo, que sintas na pele o meu desprezo, o meu não perdão. Espero que te queime, que te torture, como me fez a mim, durante demasiado tempo.
Anseio pelo segundo em que, bem disposto e sorridente (como sempre!), te vais dirigir a mim, no meio da multidão rodopiante, no meio dos cheiros intensos, no meio da música vibrante. E eu, com os meus olhos fumegantes, vou sorrir. Mas espero que no meu sorriso transpareça todas as noites em que enlouqueci, todos os hectares áridos dentro de mim, todo o desprezo que conseguir recolher. Espero conseguir pôr esse peso todo nos teus ombros e tirá-lo dos meus.
Espero, enfim, que o meu sorriso seja convincente, e que seja tudo o que eu te ofereça, antes de virar costas e concentrar-me em divertir-me. Espero que os reflexos dourados do meu cabelo sejam a última coisa que alguma vez vejas minhas.
E espero também, que eu consiga dizer-te adeus de vez nesse segundo.
Ah, e mais uma vez: NÃO TE PERDOO.
Perdoei-te instantaneamente, como se nem importasse. Portanto, estou-te a dizer agora, passado todo este tempo: não te perdoo. Não te perdoo por teres destruído qualquer hipótese que eu tivesse em recomeçar. Não te perdoo por me teres mudado. Por me teres transformado num monte de espera, transe e dormência ambulante. Não te perdoo por me tornares velha e amarga. Não te perdoo por me tornares insegura, por teres lascado a minha autoconfiança, o meu ego. Por teres brincado com a minha paciência.
Não te perdoo, após este tempo todo. Não te perdoo por ainda te ver todos os dias, em todas as minhas ações. Por me lembrar das tuas reações, das tuas palavras. Por ainda seres tão presente como se, de facto, estivesses sentado, neste momento, a meu lado. Não te perdoo por ter passado um ano e eu achar tão, mas tão, estranho as circunstâncias de estabilidade, de quase felicidade.
Não te perdoo por andar completamente exausta, impossivelmente entediada.
Não te perdoo por não te conseguir odiar.
Não te perdoo por ainda precisar de saber de ti, de olhar para ti, de ainda precisar de imaginar que ainda estás aí, a quilómetros de distância, a lembrar-te daquilo que fomos.
Não te perdoo por me fazeres crer que mais ninguém vai aguentar, que mais ninguém vai conseguir preencher-me.
Não te perdoo por ainda ansiar pelo segundo em que me vais ver, do outro lado da sala, e imaginar qual vai ser a tua reação.
Não te perdoo por não conseguir estar preparada. Não te perdoo por me lembrar de tudo. De todos os miseráveis segundos desde que soube aos malfadados segundos em que vi com os meus próprios olhos aquilo que me destruiu. De todos os dias que eu passei, a ouvir músicas enfurecidas ou patéticas, de olhos a sangrar de desilusão fixos nas paredes torturadas do meu quarto.
Não te perdoo por me teres impedido de chorar. As minhas lágrimas transformaram-se em cinzas. Tudo dentro de mim ardeu, evaporou-se.
Não te perdoo por sugares toda a vida que eu tinha, por me retirares todo o brilho, todo o entusiasmo.
Não te perdoo por me teres arrefecido.
Não te perdoo por não conseguir sentir nada real. Só emoções superficiais.
Não te perdoo por ter entrado num luto involuntário do qual não soube, não sei, sair.
Não te perdoo por seres feliz, por nem estares arrependido.
Não te perdoo por ter desperdiçado todo este tempo da minha vida, da minha mente, contigo.
Não te perdoo por teres brincado com a minha suscetibilidade, por vezes e vezes sem conta, destruíres qualquer ponta de sensibilidade que eu tivesse.
Não te perdoo por não te perdoar.
Não importa o tempo que passe. Não te perdoo. E espero, espero mesmo, que sintas na pele o meu desprezo, o meu não perdão. Espero que te queime, que te torture, como me fez a mim, durante demasiado tempo.
Anseio pelo segundo em que, bem disposto e sorridente (como sempre!), te vais dirigir a mim, no meio da multidão rodopiante, no meio dos cheiros intensos, no meio da música vibrante. E eu, com os meus olhos fumegantes, vou sorrir. Mas espero que no meu sorriso transpareça todas as noites em que enlouqueci, todos os hectares áridos dentro de mim, todo o desprezo que conseguir recolher. Espero conseguir pôr esse peso todo nos teus ombros e tirá-lo dos meus.
Espero, enfim, que o meu sorriso seja convincente, e que seja tudo o que eu te ofereça, antes de virar costas e concentrar-me em divertir-me. Espero que os reflexos dourados do meu cabelo sejam a última coisa que alguma vez vejas minhas.
E espero também, que eu consiga dizer-te adeus de vez nesse segundo.
Ah, e mais uma vez: NÃO TE PERDOO.
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