Perguntas
Os meus olhos cegaram-se de novo. As vozes tornaram-se apenas ecos no fundo da minha mente, as cores desapareceram. Tudo foi transformado nos escuros recônditos da minha mente, os quais eu já tinha visitado demasiadas vezes naquele dia.
E aí, isolada pelas paredes de cimento dos meus pensamentos, ousei libertar as minhas frustrações, as minhas nostalgias, as minhas angústias. As minhas perguntas.
Lembrei-me do dia anterior, a imagem dele a atravessar o campo de futebol, a fina chuva a criar uma áurea idílica à volta dele. Lembrei-me dessa manhã, em que os olhos dele se cravaram em mim, tão iguais... Meu Deus, tão iguais.
O meu coração começou a bater descompassadamente. É tudo demasiado igual, um dèja vu, uma espiral infinita, um pesadelo! Não desaparece nunca, não se esmorece, não me deixa respirar! Não estou livre em lado nenhum, nem na minha própria mente! Sinto a infinita vontade de perguntar tudo, de pôr em questões tudo o que me tem vindo a atormentar, a moer, a torturar!
Será possível, acontecer tudo de novo? Por uma pessoa diferente, que é no entanto a mesma? Será possível que estes dias cinzentos alguma vez parem de ser agulhas nostálgicas? Será que eu alguma vez me irei anestesiar, esquecer ou simplesmente aceitar? Será que é mesmo o fim? Porquê que não consigo acreditar que é o fim? Porquê que ando a prolongar histórias, à espera que elas voltem, que elas fiquem, se sei que nunca tal acontecerá? Porquê que ando a negar o que, no meu âmago, sei ser mais que óbvio?
Porquê que me ando a obrigar a esperar, a estar presa a correntes que não existem? Porquê que não consigo simplesmente sacudi-las, libertar-me de vez?
De que é que estou à espera? De ocasionais conversas constrangedoras? De ler alguma segunda intenção nelas? De meios sorrisos nos corredores?
E se eu simplesmente desistir? Será que consigo? Desligar-me? Não existir? Desligar os meus pensamentos, as minhas memórias? Ser só excelente no que faço? E apagar tudo o resto? Será isso humanamente possível?
Conseguirei dizer adeus a essas histórias? À pessoa que fui nelas?
Conseguirei dizer adeus à rapariga que passava pelo infernal frio do litoral para depois me aquecer noutros braços na noite estrelada?
Conseguirei dizer adeus à rapariga que finalmente conseguiu dizê-lo?
Conseguirei dizer adeus à rapariga que fui naqueles anos? Conseguirei viver sabendo que os desperdicei?
A campainha tocou. Surpreendida, saí da sala, mecanicamente. Deparei-me imediatamente com os olhos quentes e castanhos do representante de uma dessas eternas histórias. O olhar que ele me enviou foi frio, como todos os que até aí tinha enviado. Quis, no entanto, pôr os braços à volta do pescoço dele. Abraçá-lo, sorrir-lhe. Quis aliviar um pouco da minha nostalgia, um pouco do meu peso, dizendo-lhe logo, fazendo alguma coisa.
Estava farta de ser um peão passivo no meio da minha própria vida. Havia duas coisas a fazer. Ou eu insolentemente exigia resultados, exigia o retorno da história que tanto me enchia de nostalgia, ou eu largava as correntes. Fugia, livremente, inconsequentemente. Apoiava os sorrisos cheios de promessas nos corredores, os olhares comprometidos, a diversão.
Havia ainda uma terceira opção, uma que infelizmente creio que é humanamente impossível: ser um autómato. Afastado, distante, inexistente.
E havia, claro, uma quarta opção. Aquela que, independentemente da minha nostalgia e das minhas revoluções interiores temporárias, eu seguirei sempre. Não fazer absolutamente nada.
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