Não posso esperar mais .

Não sei bem porquê, nem como, mas estive à espera este tempo todo. Estive à espera de um milagre, de algo que curasse, de um remendo que pusesse tudo junto, tudo reconciliado.
Esperei e esperei. Fartei-me de esperar por algo que nunca veio, ou que veio mas em pequenas doses egoístas. Em doses que não foram nem nunca serão o suficiente. Desperdicei tanto tempo da minha vida à espera de sinais, de palavras, qualquer coisa. Aliás, penso que estive este tempo todo simplesmente à espera de uma sincera ''desculpa''. Se a tivesse tido, penso que teria esquecido tudo isto há muito mais tempo.
E agora acabou. Estou farta, farta de desperdiçar tempo da minha juventude amargurada. Não posso esperar nem mais um segundo. Não posso passar nem mais um segundo apaixonada por um fantasma. Sim, porque ele não é mais que um fantasma. É tão real como os meus sonhos, está tão visível como os sussurros das folhas das árvores, está tão presente quanto todos os que partiram para nunca mais voltar. Não é mais do que um fantasma. Inexistente, transparente, afastado, morto. Ele não existe, já não é uma realidade, já não é a minha realidade. O invólucro ainda existe. O invólucro que contem os olhos dele, a voz dele, o sorriso dele, o corpo dele. Mesmo que longe, bem longe. Mesmo tendo eu uma cópia bem perto. Está longe. Mas o que ele era, o rapaz de olhos brilhantes por quem eu me apaixonei, não existe. Portanto, o invólucro não me serve de nada, não é mais do que a recordação eterna da morte do rapaz que eu adorei.
O invólucro nunca será suficiente, eu estaria para sempre à procura do rapaz, do meu rapaz, dentro daquele recipiente vazio, e sempre que não o encontrasse ficaria devastada.
Portanto aqui fica a decisão de que não posso esperar nem mais um segundo. Esperei este tempo todo pelo retorno de alguém que não tenciona ou não pode voltar. Esperei sentada, quieta, fiel e serena. Senti o meu coração despedaçar-se um milhão de vezes, sempre que descobriu que ainda não conseguia, ainda não estava pronto para seguir em frente, ou sempre que descobriu que ele, que se tinha impingido de volta na minha vida, estava a sair dela outra vez. Passei meses à espera, desde os fins do inverno ao outono. Estive sentada à espera enquanto as flores desabrochavam, o calor queimava, as folhas amareleciam. Entrei numa espécie de transe que não me deixava pensar em absolutamente mais nada.
Fui um ser apático e expectante durante tantos meses que me vai ser complicado ser diferente. Arrependi-me dos atos irrefletidos que fiz nos tempos em que me libertei por uns segundos, percebendo imediatamente que não estava preparada para os fazer. Arrependi-me das minhas estupidezes. Cresci. Tudo porque andei à espera todo esse tempo.
Agora já chega. Já chega de espera de palavras ou atos, já chega da ânsia, já chega das saudades. Já esperei tempo mais que suficiente. As chances acabaram. Tudo o que houve entre nós está já a quilómetros de distância.
Lamento, mas já fiz demasiado luto. E, finalmente, agora de cada vez que penso em tudo o que aconteceu, faço-o com frieza.
Estou finalmente preparada para outra aventura.
Não consigo, aliás, recuso-me, estar apaixonada, nem que seja só mais um minuto, por um fantasma. Um fantasma que representa todos os meus demónios, que me assombraram durante demasiado tempo.
Não posso esperar mais.

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