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Independência - II

Margarida riu-se largamente com a voz descontraída de Rafaela. Amigas desde o secundário, conhecidas desde a preparatória, Margarida encontrava em Rafaela uma calma de espírito contagiosa que achava ser inestimável. - E então miúda, como estão os maravilhosos campos do Mondego? - Estou em Trás-os-Montes, Rafa, em lado nenhum se vê o Mondego. - Riu-se. - Oh, Geografia, Geografia... Olha queres saber o que se tem passado por aqui? - Com certeza. - Sabes aquele jeitoso que vivia na rua atrás da nossa na faculdade? - O Marco, claro. Tivemos tanta pena quando ele acabou o último ano e voltou para a ''Coimbra do Mondego''. - Sim, esse mesmo. Ontem tive o prazer de me cruzar com ele. Ele lembrava-se de mim! - Não me acredito! E que raio está esse Adónis a fazer na cidade invicta? - Arranjou um emprego lá, na firma central! - Tu e os advogados, Rafa... - Que queres que te diga?... Têm qualquer coisa extremamente irresistível... - As tretas? - Sorria desenfreadamente...

Independência - I

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Ela inspirou com força o ar puro. Parte de si não acreditava que se tinha decidido a ir às montanhas. Não acreditava que estivesse assim tão desesperada. Detestava as montanhas. Detestava tudo o que fosse longe da sua terra à beira mar. No entanto, eram aquelas as suas origens. O seu pai sempre adorara aquela zona. Ela lembrava-se de todas as histórias que ele lhe contava sobre as brincadeiras de um menino de olhos azuis nos montes. Lembrava-se de, quando era mais nova, rodopiar e acabar por cair na enorme expansão verde. Lembrava-se de ser tão pequena, a relva tão verde, o céu tão azul, as montanhas tão altas, os rios tão rápidos. Lembrava-se de tudo ser tão intenso, demasiado intenso para o seu pequeno coração. Talvez fosse disso que estava à procura. Da intensidade com que antes sentia tudo. E portanto tinha feito as malas e tinha viajado até ao local que fazia os olhos do seu herói brilhar. Regozijou-se pelo facto de agora poder ir onde bem lhe apetecia. De faculdade acab...

O som do recomeço

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O meu quarto está quente e luminoso. Os meus dedos batem pesadamente no teclado. É-me impossível descrever este sentimento. A lucidez, a claridade. Sinto-me como se fosse eu de novo. Mas um ''eu'' renovado, resplandecente. Tenho um sorriso irónico no rosto. Por razão absolutamente nenhuma, apenas porque tenho. Apenas porque me sabe bem tê-lo, faz-me sentir controlada. Estou em paz comigo mesma. Estou em paz com tudo. A rapariga no meu espelho sorri-me, de grandes olhos castanhos, agradada por me voltar a ver. Sorri-lhe de volta. Era, de facto, agradável voltar a sentir-me confiante. Era agradável sentir-me respirar sem problemas. A pior parte passou. E não foi assim tão má. Lá fora o tempo está morto, cinzento. Mas nem isso me incomoda. Sinto-me como se tivesse dormido este tempo todo e agora fosse finalmente hora de acordar. Suspiro alegremente. Apetece-me sair mas não saberia para onde ir. Apetece-me estar com alguém mas não saberia com quem. A verdade é que ...

Down the Memory Lane

Os meus tacões ressoavam pela rua.  Sorrio para o vazio, o meu sorriso atravessando tudo e todos. O meu sorriso estende-se pela minha face, pequeno, provocador. Chamar-lhe sorriso é um exagero. É, na verdade, um vestígio. Uma réstia. Um nada. Tal como eu, penso, ironicamente. O vento faz o meu cabelo dançar e rodopiar à minha volta. Os meus olhos alternam entre a calçada e o céu. Estou sozinha. Não no verdadeiro sentido da palavra, pois na rua veem-se algumas pessoas. Mas estou sozinha. A única razão pela qual gosto de ir de um lado para o outro a pé e sozinha, é porque me traz claridade, lucidez. Consigo pensar sem ser incomodada. Naquele momento ponderava na razão pela qual o ''Certo'' fugia sempre de mim e o ''Errado'' me encontrava sempre. Não me considerava uma má pessoa. Pelo contrário. Mas sempre tive os meus momentos… Menos éticos. Momentos em que me falta o senso comum. Parecia que tinha passado a minha vida a saltar de erro ...

Brother

Pus o meu braço à volta dos ombros dele. Não me parece que ele tenha entendido a sublimidade do gesto. Talvez seja demasiado novo para perceber. Talvez eu seja demasiado nova para fazer com que ele perceba. Ninguém entende a facilidade do laço. Ninguém compreende a hesitante sensação de ternura que nos invade. A criança que costumava ter nos braços é agora um pré adolescente resmungão. A criança que vi crescer senta-se agora ao meu lado e sorri-me. Passaram 11 anos. Mais de uma década a tê-lo a meu lado. Mais de uma década com a constância do sorriso dele. Tivemos momentos em que não nos suportávamos um ao outro, é verdade. Tive momentos em que detestei ter um irmão, em que preferia estar sozinha. Mas que faria eu sem o riso trocista dele, sem os olhos enormes e arregalados dele, sem as nossas discussões? Éramos ambos pirralhos pequenos quando eu subia ao teu berço e ficava a brincar contigo a tarde inteira. Éramos ambos míseras crianças quando eu costumava brincar às c...

...

''Como estás?'' Já não são os de olhos brilhantes que perguntam.Sou eu mesma. Parece que estou sempre a pensar no assunto, sempre a revivê-lo, sempre a falar dele. Mas é como se nunca conseguisse saciar a minha vontade de falar, de esclarecer. Passam alguns minutos da meia noite. Por uns minutos é dia 21 de março. O dia tão esperado. Nunca pensei que fosse passá-lo... Assim. Será que ele se vai lembrar? Claro que não. Já não lhe faz diferença. Já não lhe faço diferença. Isso por alguma razão é reconfortante. Simplesmente arrancá-lo assim da minha vida, é reconfortante. Talvez tenha acabado. Talvez não nos voltemos a ver. Ou talvez só nos vejamos daqui a muito tempo. Talvez as nossas vidas tenham mesmo tomado rumos contrários. Talvez aquela saída tenha sido a nossa despedida. Mais uma vez, reconfortante. É reconfortante saber que a partir de agora as escolhas dele não afetam a minha vida e que as minhas não afetam a dele. Este vai ser um dia complicado. Mas...

Better

Hoje o dia está a ser particularmente bom. Por nenhuma razão em especial, simplesmente porque acordei e estava num bom dia. Estou a sorrir, descontraidamente, estou a fazer planos, estou ótima. Hoje é de facto, um ótimo dia. Talvez seja o ponto de viragem, talvez seja o sinal de que vou voltar a ser eu mesma dentro de pouco tempo. Talvez seja o primeiro ponto de viragem. Amanhã será outra vez um péssimo dia. Porquê? Apenas porque é dia 21. Mas amanhã acabará. E, aí sim, quando o dia de amanhã acabar, vai tudo ficar espetacular. Vou voltar a respirar, a rir. Tal como hoje. Sinto-me adulta outra vez. Educada, controlada. Ao mesmo tempo começo a voltar a sentir a imaturidade de antigamente a despertar-se dentro de mim. A maravilhosa imaturidade. Estar a escrever ajuda. Faz-me sentir sã, limpa, curada. Pensar em divertir-me  ajuda. Sinto-me de volta, a cair em mim outra vez. A sensação fria no peito voltou após todos estes meses. O meu sorriso enorme voltou após t...