Looking for myself

Fito cegamente as minhas mãos. Pequenas, douradas e corroídas pelo tempo. São mãos tão pequenas mas que deveriam pertencer a alguém muito mais velho que eu. 
As minhas mãos abriam-se e fechavam-se, numa tentativa minha de me distrair.
Estas mãos tremem, espelhando o que se passa no resto do meu corpo. Uma reação típica. Tremo quando estou entusiasmada, tremo quando estou zangada, tremo quando estou nervosa, tremo quando estou triste. Triste. Penso que é a palavra que mais se adequa. Triste e furiosa.
Nunca estive triste, meus leitores. Já estive sem dúvida nostálgica e desiludida. Mas nunca estive triste, não realmente. É uma sensação ao mesmo tempo dilacerante e calmante. A desilusão destrói, abolindo as minhas entranhas, a nostalgia dá-me a volta ao estômago. A tristeza simplesmente me faz sentir pesada e resignada.
Por outro lado já estive furiosa várias vezes. Penso que até gosto de me sentir furiosa, de me sentir indignada. A minha fúria não é cólera, não é descontrolada, não é ardente. A minha fúria é calculista, uma chama fria que se acende nos meus olhos. A minha fúria é vingativa. A minha fúria não me impede de pensar ou de agir. Pelo contrário.
E portanto aqui fico, entre a minha chama fria e a minha dor calma. E limito-me a fitar as minhas mãos trémulas. Decido-me qual delas irei alimentar. A fúria levar-me-à toda a energia, a tristeza acabará por me corroer. 
A parte destruída de mim diz que hoje foi um dia bom, um dia em que ouvi a voz de quem queria. A parte furiosa de mim olha com um desprezo inconsequente para a parte destruída de mim e afirma que ela é patética, que não compreende como raio a pessoa tem o desplante de sequer se dirigir a mim, de sequer olhar para mim. A parte destruída de mim pede desculpa, admite que cometeu muitos erros. A parte furiosa de mim diz que não cometi erros, simplesmente fui como sempre fui. A parte destruída de mim confessa palavras que foram feitas para se manter dentro de mim, lamenta pelo meu tóxico feitio. A parte furiosa de mim reafirma que sempre fui assim.
Mas a parte furiosa de mim perde ânimo, começa a calar-se e a desvanecer da minha mente. Até desaparecer. E tudo o que me resta é uma menina a fitar as mãos doiradas, absorta nos seus pensamentos.
Essa menina fecha as mãos com força, como se nelas conseguisse guardar um pouco dos seus pensamentos. Mas eles escapam-se por entre os dedos dela. E o que quer que a come viva ganha. Mais uma vez.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

O Animal

O ciclo sem fim

A ironia da indiferença