1 ano
O tempo fluí demasiado depressa. Escorre-nos pelos dedos, como se de nada se tratasse, como se nós não fôssemos mais que pequenas constantes na enorme equação do Universo...
O tempo desaparece, passa, enquanto nós estamos ocupados a torná-lo nosso, a ''aproveitá-lo''. E, de repente, as nossas mãos estão enrugadas, os nossos olhos toldados, os nossos cabelos brancos...
Tenho um medo paralisante da idade, da velhice, do tempo. Tenho medo de que o tempo simplesmente passe e que eu acabe por não atingir nada, por não ser nada, por não fazer nada. E todas as minhas promessas, todos os meus objetivos desvanecerão assim, como se fossem cinzas no ar, como se nunca tivessem sido meus e, portanto, duros e concretos...
O tempo devora-nos, corrói-nos. Torna-nos naquilo que prometemos nunca ser, modifica-nos, transforma-nos. Devora-nos até sermos velhos grisalhos com os olhos lassos de cansaço, ironia e arrependimento.
Os anos passam demasiado depressa, são demasiado fugazes. Há um piscar de olhos atrás eu era uma miúda pequena que saltitava por entre as poças de água. Daqui a um piscar de olhos eu serei uma adulta de independência afirmada e solidão agreste.
Não conseguem ver vocês? O passar dos anos, as transformações? Não conseguem rever o passado, assinalar exatamente onde erraram e o que fariam de diferente?
Sabem porque penso em tudo isto? Há um ano, eu era uma miúda arrogante, de olhos brilhantes, de futuro prometedor e incerto. Era uma miúda de convicções maiores e mais abruptas que ela mesma. Uma miúda independente, ansiosa por fazer asneiras, por ganhar, por se divertir sem pensar muito nas consequências.
E passado um ano, eu tenho consciência. Consciência, por amor de Deus! É óbvio que vocês não entendem o quão chocante isto é para mim. Não é que, há um ano, eu não distinguisse o bem do mal, ou que não sentisse o efeito abolidor da culpa. A diferença era que eu não queria saber. Engolia a culpa e concentrava-me nas minhas necessidades, naquilo que eu queria fazer, no meu centro absoluto de egoísmo e egocentrismo. E não via o mal disso. Que mal havia em gostar da vida, em torná-la entusiasmante? Que mal havia em fazer alguns malabarismos, em contar algumas mentiras, em largar palavras venenosas? Não pensava muito nas consequências, não havia muito em que pensar. Preferia ocupar a minha mente com revolta e indignação provocadas pelas injustiças que se espalhavam no mundo. Preferia ocupar a minha mente com o cultivo do meu sucesso, com o cultivo da minha imparcialidade e insensibilidade. Não pensava muito em tudo o resto.
Há um ano, aterrorizava-me a hipótese de ser o centro do mundo para alguém, nem que fosse temporariamente. Isto porque para mim não era possível. Haveria sempre outros assuntos, outras emendas para mim. Nunca haveria alguém que ocupasse a minha mente a todos os segundos do dia.
Infelizmente, há um ano, eu tive o prazer ou a infelicidade de conhecer alguém que mudou tudo isto. Essa pessoa, inicialmente, apenas me fascinou pela maneira de falar e de agir. E interessou-me. Mas, lá está, eu era uma pirralha egoísta que não pensava muito naquilo que fazia. Portanto, comecei a apenas reparar no cheiro intoxicante que emanava da pele dele, na voz dele, lenta e grave, na maneira como os olhos dele se centravam em mim, no calor que irradiava dele... Esqueci-me do porquê de ele inicialmente me ter fascinado, já nada disso interessava. Tudo o que interessava era como o meu estômago se revolvia quando olhava para ele, como a minha pele se arrepiava de cada vez que ele me tocava. E ele tornou-se apenas isso para mim. Claro que, mais uma vez e como pirralha que era, me diverti a fazer malabarismos com ele. E ele, como pessoa decente que era, não tinha noção, ou tinha. Aliás, eu gosto de acreditar que tinha, pois ele impingiu a presença dele debaixo da minha pele e eu nem sequer reparei. Um dia acordei e ele estava simplesmente dentro de mim. Como pirralha que era, não soube lidar com isso, porque amor e compromisso eram aterrorizadores. Mas a verdade é que eu já causara danos suficientes. Portanto estava na altura de me render. E assim o fiz. Rendi-me à enorme e conveniente convenção social que é o compromisso. E detestei ao início, eu de espírito e mente livres, que odiavam estar presos.
Mas o tempo passa. E uma pessoa habitua-se a tudo isso, habitua-se à dependência, ao suposto amor e à suposta saudade e tudo isso. Habitua-se à perda de lucidez, ao mergulho nos pensamentos, à perda de objetividade. Habitua-se a influenciar a outra pessoa e habitua-se à influência da outra pessoa em si.
É esse o ponto fulcral da questão. O tempo levou as minhas energias negativas, a minha toxicidade e passou-as para ele. E levou as energias positivas dele, a lealdade, a honestidade, a sensibilidade e passou-as quase todas para mim.
E foi o fim. Para além de ter perdido a pessoa de que dependia, perdera-me a mim também. Julgo que foi o mais difícil de encarar. Que tinha mudado por outra pessoa. Era tão escandaloso e impossível que deu cabo do meu sistema.
Há um ano, nada disto me afetaria. Simplesmente recolherer-me-ia, sorriria e passava para outra aventura, para outra asneira. Adorava poder fazer isso, mas agora sou responsável e calma e quase, cuspindo a palavra, adulta. E já nada disso se aplica.
Há um ano eu não remoía em nada disto, os arrependimentos manter-se-iam arrependimentos, principalmente porque eu era orgulhosa demais para tratar deles. A rejeição era como cancro, a única coisa que se espalhava pela minha pele e pela minha alma, queimando-me viva. Mas pouco tempo durava. Passado umas horas, já era eu e o meu queixo espetado outra vez.
O tempo devorou o brilho nos meus olhos, o entusiasmo no meu canto, a felicidade na minha voz. E eu ainda nem cheguei aos 16 anos. Imaginai o que me fará quando eu simplesmente me deixar cair no cansaço...
O tempo desaparece, passa, enquanto nós estamos ocupados a torná-lo nosso, a ''aproveitá-lo''. E, de repente, as nossas mãos estão enrugadas, os nossos olhos toldados, os nossos cabelos brancos...
Tenho um medo paralisante da idade, da velhice, do tempo. Tenho medo de que o tempo simplesmente passe e que eu acabe por não atingir nada, por não ser nada, por não fazer nada. E todas as minhas promessas, todos os meus objetivos desvanecerão assim, como se fossem cinzas no ar, como se nunca tivessem sido meus e, portanto, duros e concretos...
O tempo devora-nos, corrói-nos. Torna-nos naquilo que prometemos nunca ser, modifica-nos, transforma-nos. Devora-nos até sermos velhos grisalhos com os olhos lassos de cansaço, ironia e arrependimento.
Os anos passam demasiado depressa, são demasiado fugazes. Há um piscar de olhos atrás eu era uma miúda pequena que saltitava por entre as poças de água. Daqui a um piscar de olhos eu serei uma adulta de independência afirmada e solidão agreste.
Não conseguem ver vocês? O passar dos anos, as transformações? Não conseguem rever o passado, assinalar exatamente onde erraram e o que fariam de diferente?
Sabem porque penso em tudo isto? Há um ano, eu era uma miúda arrogante, de olhos brilhantes, de futuro prometedor e incerto. Era uma miúda de convicções maiores e mais abruptas que ela mesma. Uma miúda independente, ansiosa por fazer asneiras, por ganhar, por se divertir sem pensar muito nas consequências.
E passado um ano, eu tenho consciência. Consciência, por amor de Deus! É óbvio que vocês não entendem o quão chocante isto é para mim. Não é que, há um ano, eu não distinguisse o bem do mal, ou que não sentisse o efeito abolidor da culpa. A diferença era que eu não queria saber. Engolia a culpa e concentrava-me nas minhas necessidades, naquilo que eu queria fazer, no meu centro absoluto de egoísmo e egocentrismo. E não via o mal disso. Que mal havia em gostar da vida, em torná-la entusiasmante? Que mal havia em fazer alguns malabarismos, em contar algumas mentiras, em largar palavras venenosas? Não pensava muito nas consequências, não havia muito em que pensar. Preferia ocupar a minha mente com revolta e indignação provocadas pelas injustiças que se espalhavam no mundo. Preferia ocupar a minha mente com o cultivo do meu sucesso, com o cultivo da minha imparcialidade e insensibilidade. Não pensava muito em tudo o resto.
Há um ano, aterrorizava-me a hipótese de ser o centro do mundo para alguém, nem que fosse temporariamente. Isto porque para mim não era possível. Haveria sempre outros assuntos, outras emendas para mim. Nunca haveria alguém que ocupasse a minha mente a todos os segundos do dia.
Infelizmente, há um ano, eu tive o prazer ou a infelicidade de conhecer alguém que mudou tudo isto. Essa pessoa, inicialmente, apenas me fascinou pela maneira de falar e de agir. E interessou-me. Mas, lá está, eu era uma pirralha egoísta que não pensava muito naquilo que fazia. Portanto, comecei a apenas reparar no cheiro intoxicante que emanava da pele dele, na voz dele, lenta e grave, na maneira como os olhos dele se centravam em mim, no calor que irradiava dele... Esqueci-me do porquê de ele inicialmente me ter fascinado, já nada disso interessava. Tudo o que interessava era como o meu estômago se revolvia quando olhava para ele, como a minha pele se arrepiava de cada vez que ele me tocava. E ele tornou-se apenas isso para mim. Claro que, mais uma vez e como pirralha que era, me diverti a fazer malabarismos com ele. E ele, como pessoa decente que era, não tinha noção, ou tinha. Aliás, eu gosto de acreditar que tinha, pois ele impingiu a presença dele debaixo da minha pele e eu nem sequer reparei. Um dia acordei e ele estava simplesmente dentro de mim. Como pirralha que era, não soube lidar com isso, porque amor e compromisso eram aterrorizadores. Mas a verdade é que eu já causara danos suficientes. Portanto estava na altura de me render. E assim o fiz. Rendi-me à enorme e conveniente convenção social que é o compromisso. E detestei ao início, eu de espírito e mente livres, que odiavam estar presos.
Mas o tempo passa. E uma pessoa habitua-se a tudo isso, habitua-se à dependência, ao suposto amor e à suposta saudade e tudo isso. Habitua-se à perda de lucidez, ao mergulho nos pensamentos, à perda de objetividade. Habitua-se a influenciar a outra pessoa e habitua-se à influência da outra pessoa em si.
É esse o ponto fulcral da questão. O tempo levou as minhas energias negativas, a minha toxicidade e passou-as para ele. E levou as energias positivas dele, a lealdade, a honestidade, a sensibilidade e passou-as quase todas para mim.
E foi o fim. Para além de ter perdido a pessoa de que dependia, perdera-me a mim também. Julgo que foi o mais difícil de encarar. Que tinha mudado por outra pessoa. Era tão escandaloso e impossível que deu cabo do meu sistema.
Há um ano, nada disto me afetaria. Simplesmente recolherer-me-ia, sorriria e passava para outra aventura, para outra asneira. Adorava poder fazer isso, mas agora sou responsável e calma e quase, cuspindo a palavra, adulta. E já nada disso se aplica.
Há um ano eu não remoía em nada disto, os arrependimentos manter-se-iam arrependimentos, principalmente porque eu era orgulhosa demais para tratar deles. A rejeição era como cancro, a única coisa que se espalhava pela minha pele e pela minha alma, queimando-me viva. Mas pouco tempo durava. Passado umas horas, já era eu e o meu queixo espetado outra vez.
O tempo devorou o brilho nos meus olhos, o entusiasmo no meu canto, a felicidade na minha voz. E eu ainda nem cheguei aos 16 anos. Imaginai o que me fará quando eu simplesmente me deixar cair no cansaço...
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