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O Peso do Tempo

Estará só na minha cabeça a indiferença? Estarão os silêncios incluídos, estarão as ofensas regularizadas? Acabará esta história como todas as outras? Comigo, deitada, desiludida, e, acima de tudo e de todos, sozinha. Poderá um conto de fadas terminar assim? Poderá este conto de fadas terminar assim?... Será que me enganei quando defini outro futuro para mim? Enganei-me quando vi um futuro? Será que depois de todo este tempo e depois de toda esta luta, o fim vai ser o mesmo? Deixando-me apenas com mais memórias para apagar? Será que alguma vez posso sair deste ciclo sem fim? Será que vou perder outra vez, apesar de ter lutado, contra o tempo, a distância e contra mim própria? Será que depois disto tudo vou acabar exatamente onde comecei? Passaram demasiados anos, não saberei voltar. Doeu demasiado, vai doer demasiado. Já não sou a pessoa que era, perdi pedaços entretanto e para voltar àquele momento teria não só de ser inteira, como teria de sobrar, mais do que preencher. Teri...

Paranóia

Quando é que tudo se tornou tão real? Quando é que fiquei tão lúcida? Quando é que deixei de saber tudo, de ver tudo, de perceber tudo? Quando é que me tornei um peão na minha própria vida, deixando-me ficar apenas a ver? Para onde foi a estabilidade? Para onde foram os pensamentos cinzentos em dias aborrecidos, sempre iguais? Para onde foram os dias irrelevantes, sem preocupações para além de acordar no dia seguinte e fazer tudo de novo? Tudo parece demasiado mudado, demasiado cheio e vazio. Já não sei a que me agarrar. Já não existem constantes. Já nada na minha vida é constante ou perpetuamente aborrecido. Parece que a cada semana vem um novo desafio, uma nova montanha. E eu dou por mim já demasiado cansada e extenuada para continuar. Dou por mim sem conseguir desligar, sem me conseguir esquecer. Tudo é uma presença ubíqua na minha mente. Ser pessimista fazia-me melhor à saúde. A partir do momento em que passei a ter esperança, passei a morrer aos bocados. Cada lasca nos ...

Divagações de uma Ex-cética

As comédias românticas dizem-nos que o amor é complicado. Que é sujo, que dói, que é suposto ser pouco saudável, agressivo e que deve marcar-nos para toda a vida, como se nunca mais se pudesse amar mais nada ou ninguém da mesma maneira. Como se não fossemos todos apenas mais um nome numa longa lista de nomes escritos num papel cuspido de dor, mágoa, desilusão e arrependimento. Como se não fôssemos todos meramente alguém de que outra pessoa se lembrou e se esqueceu num abrir e fechar de olhos. Costumava magoar-me tremendamente esta realidade. Para pessoas com ideias irrealistas de grandeza é difícil ser-se apenas um nome num papel. É difícil imaginar que alguém consiga ultrapassar-nos, ou até nem sequer nos ver, ou pelo menos não reparar. Custa que alguém que imaginávamos que estava ao nosso serviço e dispor vire as costas um dia sem aviso, sem querer saber se o vemos a sair da nossa vida. Nunca achei que pudesse ser apenas um nome numa lista de arrependimento e de desprezo. Um nome...

Catarse

Não há como saber o que o futuro nos traz. Pode ser extrema felicidade ou sofrimento desesperado. Provavelmente ambos e nunca nenhum. Não há como controlar o futuro. Não há como agarrarmos o nosso peito e lhe dizermos para sobreviver à dor e à desgraça, não há como obrigarmo-nos a avançar. Vamos todos invariavelmente morrer. Mas não sabemos quando, como ou onde. Não sabemos se teremos dito e feito tudo, mas sabemos que o mais provável é que morramos a meio de uma frase, frase essa inútil e extremamente irrelevante, metáfora perfeita para a nossa existência. Eu sempre imaginei os piores cenários. Em todas as situações de toda uma vida. Ser pessimista não é só uma escolha, é acima de tudo uma reação do instinto de sobrevivência. Se imaginarmos todas as hipóteses possíveis, o sofrimento será sempre inferior ao que poderia ser, porque ao menos nós sabíamos que ele aí vinha. Não morreremos dissolvidos em autocomiseração e dor, embora tenhamos de suportar os dois. Sobreviveremos. Passam...

Regresso

Nos últimos dias senti-me dentro da minha pele. Pela primeira vez em tanto tempo que nem consigo contar. Senti-me fria, vazia, impassível. Acima de tudo, senti-me calma. Senti como se o mundo tivesse finalmente parado de correr e eu pudesse finalmente aproveitá-lo. Já não sinto como se a minha vida me escorresse por entre os dedos e que estes eram os anos para morrer antes de renascer, que eu bloquearia e de que nunca me lembraria de novo na minha vida. Talvez tenha estado enganada. Apesar de tudo, sinto as mudanças. Sinto-as na minha muito maior sensibilidade e compreensão de dores alheias, sinto-as no aumento ligeiro da minha paciência, sinto-as no amor profundo que espero que nunca passe. Já não me sinto a definhar lentamente. O cansaço existencial mantém-se, e a absoluta noção de que não existe felicidade por inteiro também. Já não vivo descuidada. Diz a pessoa que sempre teve as maiores defesas deste planeta. Mas era ingénua. Acreditava numa vida que eu controlava, acreditava...

Esquecimento

Passei uma vida sem sentir. Não atribuo a isso nenhum pendor negativo ou positivo, é apenas um facto. E acho que vivi uma vida feliz, portanto, chego à conclusão que a falta de sentimentos é a tão apregoada felicidade. O simples conforto, sem mais nem menos, sem dor por excesso ou falta, é a felicidade. Passei uma vida a enterrar os apertos do meu coração em palavras, imagens e sons. Sempre que sentia o mínimo desconforto tentava entrar no estado mais vegetativo possível, à espera que esse desconforto fosse lavado pela minha racionalidade, assim que a minha cabeça arrefecesse, assim que o meu cérebro se lembrasse de quem eu era, e de que me recusava a existir enquanto ser humano sentimental. Raramente me permitia a realmente sentir. Até porque quando me permitia, não sentia. As dores a que eu me permitia eram imaginadas por mim, manipuladas por mim, ao tentarem representar aquilo que sentia quando a dor era verdadeira. Mas quando a dor é verdadeira não consigo escrever, ou pensar,...

Era uma vez

Era uma vez uma menina. Se olhassem para ela, não veriam mais do que uma menina. Não veriam mais do que uma criança como todas as outras, que brincava, ria e dizia disparates. E esta menina era uma criança como todas as outras. A diferença entre ela e as outras é que na sua cabeça haviam castelos e vitórias, todas destinadas a ela. Talvez isto não pareça diferente de todas as outras meninas por esse mundo fora, mas esta menina em particular não fazia as coisas por metade. Os castelos e vitórias eram reais e bem delineados, ela já tinha decidido de que seriam feitos, como seriam feitos e tudo o que ela faria para o resto dos longos anos que seriam a sua vida. E com o passar dos anos, estas ilusões não desapareceram. Os castelos não ruíram, as vitórias não foram atraiçoadas. A menina viveu a sua vida como decidira fazer, e como as suas já não controladas emoções diziam que ela devia fazer, independentemente de ser o melhor para ela ou não. Com o passar dos anos, a menina acumulou tan...