Esquecimento
Passei uma vida sem sentir.
Não atribuo a isso nenhum pendor negativo ou positivo, é apenas um facto. E acho que vivi uma vida feliz, portanto, chego à conclusão que a falta de sentimentos é a tão apregoada felicidade.
O simples conforto, sem mais nem menos, sem dor por excesso ou falta, é a felicidade.
Passei uma vida a enterrar os apertos do meu coração em palavras, imagens e sons. Sempre que sentia o mínimo desconforto tentava entrar no estado mais vegetativo possível, à espera que esse desconforto fosse lavado pela minha racionalidade, assim que a minha cabeça arrefecesse, assim que o meu cérebro se lembrasse de quem eu era, e de que me recusava a existir enquanto ser humano sentimental.
Raramente me permitia a realmente sentir. Até porque quando me permitia, não sentia. As dores a que eu me permitia eram imaginadas por mim, manipuladas por mim, ao tentarem representar aquilo que sentia quando a dor era verdadeira.
Mas quando a dor é verdadeira não consigo escrever, ou pensar, ou respirar. Portanto, estes anos de dores, escritas e assimiladas, foram dores que eu reproduzi na minha cabeça para tentar explicar aquelas que realmente sentia quando era apanhada desprevenida.
As dores que me vergaram, que me fizeram deitar no chão e hiperventilar, essas não estão escritas. E, se o estão, fazem parte de textos incoerentes levados ao sabor da emoção contundente.
Foi assim que vivi: enterrando as minhas emoções até me esquecer delas, até que elas não passassem de um erro na minha memória que eu não conseguiria reproduzir nem que o quisesse.
Sei que sofri, lembro-me de sofrer, mas não me lembro dessas dores, das verdadeiras, porque fiz por não me lembrar. Fiz por as esmagar com a minha personalidade e mau feitio e fiz por as apagar da minha memória.
Parece-me sempre que estou encurralada e nunca o estou, parece-me sempre o desespero total, o fim da minha vida como a conheço, e nunca o é. Tudo muda, naturalmente, com ou sem intervenção minha. Os meus problemas dissolvem-se em si próprios e eu esqueço-me deles, esqueço-me da mágoa que eles me provocaram e esqueço-me de alguma vez o meu coração ter batido.
Daí que me surpreenda e me deixe desagradada não o conseguir fazer desta vez. Não consigo apagar da minha memória, da minha mente ou do meu coração esta mão enorme que o aperta com força constante e que só o larga raramente.
Não consigo deixar de me sentir assoberbada, perdida e completamente sem as rédeas da minha vida. E posso fazer os planos que quiser, mas nunca mais terei o controlo de nada. Nem das minhas emoções.
Porque afinal não passou disso: controlo das minhas emoções. Disse a mim própria em todas as situações quanto devia sentir, se devia sentir de todo, e isso levou-me a viver mais dentro de mim do que fora. Manipulei-me ao máximo. Cortei a minha tristeza, fingi o meu entusiasmo, explorei a minha raiva e vivi absolutamente preocupada com o que era adequado, com o que era racional.
E esqueci-me de me deixar respirar um segundo.
Detesto ser apanhada desprevenida, mas foi o que me aconteceu desta vez. Não tinha nada controlado, não sabia o que esperar e fui engolida pelas mudanças. E as mudanças apanharam-me desprevenida e provocaram um corte tão grande no meu controlo, na minha autoestima, na minha personalidade, que eu dei por mim sem me reconhecer completamente. E dei por mim incapaz de controlar, de planear, de traçar, de me manipular e de não sentir. Conheci uma dor tão desiludida, tão ansiosa e tão devastadora que me trouxe abaixo. Nunca tinha ido abaixo. Não sabia como me regenerar porque nunca me tinha permitido sarar, apenas esquecia. E desta vez era impossível esquecer, pelo menos no curto prazo. Talvez eventualmente, com o passar dos anos, me consiga esquecer. Nunca se sabe.
Conheci um desespero tão total que precisava de medidas extraordinárias para esquecer, mas essas medidas extraordinárias eram demasiado extremas. Ainda estava lúcida o suficiente para perceber isso.
Estou ainda mais lúcida agora, ainda com o coração apertado por uma mão invisível, mas já com esperança de que vá sobreviver-lhe. Já me sinto eu própria às vezes. Ainda me sinto num equilíbrio delicado entre o cair e o manter-me de pé, mas tenho esperança de que consiga.
Pode ser que os anos lavem de mim o sofrimento. Pode ser que eu aprenda a fechar-me sobre mim própria outra vez. Sei que isso não é possível, porque já não estou sozinha. Talvez nunca mais voltarei a estar sozinha. Assim, fechar-me será mais difícil. Tenho de descobrir como sarar.
Espero que haja cura para uma doença que não existe e para um coração que se aperta sem razão aparente.
Que se limpe a porcaria do meu peito e que a vida me traga esquecimento. Não há melhor analgésico.
Não atribuo a isso nenhum pendor negativo ou positivo, é apenas um facto. E acho que vivi uma vida feliz, portanto, chego à conclusão que a falta de sentimentos é a tão apregoada felicidade.
O simples conforto, sem mais nem menos, sem dor por excesso ou falta, é a felicidade.
Passei uma vida a enterrar os apertos do meu coração em palavras, imagens e sons. Sempre que sentia o mínimo desconforto tentava entrar no estado mais vegetativo possível, à espera que esse desconforto fosse lavado pela minha racionalidade, assim que a minha cabeça arrefecesse, assim que o meu cérebro se lembrasse de quem eu era, e de que me recusava a existir enquanto ser humano sentimental.
Raramente me permitia a realmente sentir. Até porque quando me permitia, não sentia. As dores a que eu me permitia eram imaginadas por mim, manipuladas por mim, ao tentarem representar aquilo que sentia quando a dor era verdadeira.
Mas quando a dor é verdadeira não consigo escrever, ou pensar, ou respirar. Portanto, estes anos de dores, escritas e assimiladas, foram dores que eu reproduzi na minha cabeça para tentar explicar aquelas que realmente sentia quando era apanhada desprevenida.
As dores que me vergaram, que me fizeram deitar no chão e hiperventilar, essas não estão escritas. E, se o estão, fazem parte de textos incoerentes levados ao sabor da emoção contundente.
Foi assim que vivi: enterrando as minhas emoções até me esquecer delas, até que elas não passassem de um erro na minha memória que eu não conseguiria reproduzir nem que o quisesse.
Sei que sofri, lembro-me de sofrer, mas não me lembro dessas dores, das verdadeiras, porque fiz por não me lembrar. Fiz por as esmagar com a minha personalidade e mau feitio e fiz por as apagar da minha memória.
Parece-me sempre que estou encurralada e nunca o estou, parece-me sempre o desespero total, o fim da minha vida como a conheço, e nunca o é. Tudo muda, naturalmente, com ou sem intervenção minha. Os meus problemas dissolvem-se em si próprios e eu esqueço-me deles, esqueço-me da mágoa que eles me provocaram e esqueço-me de alguma vez o meu coração ter batido.
Daí que me surpreenda e me deixe desagradada não o conseguir fazer desta vez. Não consigo apagar da minha memória, da minha mente ou do meu coração esta mão enorme que o aperta com força constante e que só o larga raramente.
Não consigo deixar de me sentir assoberbada, perdida e completamente sem as rédeas da minha vida. E posso fazer os planos que quiser, mas nunca mais terei o controlo de nada. Nem das minhas emoções.
Porque afinal não passou disso: controlo das minhas emoções. Disse a mim própria em todas as situações quanto devia sentir, se devia sentir de todo, e isso levou-me a viver mais dentro de mim do que fora. Manipulei-me ao máximo. Cortei a minha tristeza, fingi o meu entusiasmo, explorei a minha raiva e vivi absolutamente preocupada com o que era adequado, com o que era racional.
E esqueci-me de me deixar respirar um segundo.
Detesto ser apanhada desprevenida, mas foi o que me aconteceu desta vez. Não tinha nada controlado, não sabia o que esperar e fui engolida pelas mudanças. E as mudanças apanharam-me desprevenida e provocaram um corte tão grande no meu controlo, na minha autoestima, na minha personalidade, que eu dei por mim sem me reconhecer completamente. E dei por mim incapaz de controlar, de planear, de traçar, de me manipular e de não sentir. Conheci uma dor tão desiludida, tão ansiosa e tão devastadora que me trouxe abaixo. Nunca tinha ido abaixo. Não sabia como me regenerar porque nunca me tinha permitido sarar, apenas esquecia. E desta vez era impossível esquecer, pelo menos no curto prazo. Talvez eventualmente, com o passar dos anos, me consiga esquecer. Nunca se sabe.
Conheci um desespero tão total que precisava de medidas extraordinárias para esquecer, mas essas medidas extraordinárias eram demasiado extremas. Ainda estava lúcida o suficiente para perceber isso.
Estou ainda mais lúcida agora, ainda com o coração apertado por uma mão invisível, mas já com esperança de que vá sobreviver-lhe. Já me sinto eu própria às vezes. Ainda me sinto num equilíbrio delicado entre o cair e o manter-me de pé, mas tenho esperança de que consiga.
Pode ser que os anos lavem de mim o sofrimento. Pode ser que eu aprenda a fechar-me sobre mim própria outra vez. Sei que isso não é possível, porque já não estou sozinha. Talvez nunca mais voltarei a estar sozinha. Assim, fechar-me será mais difícil. Tenho de descobrir como sarar.
Espero que haja cura para uma doença que não existe e para um coração que se aperta sem razão aparente.
Que se limpe a porcaria do meu peito e que a vida me traga esquecimento. Não há melhor analgésico.
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