Catarse

Não há como saber o que o futuro nos traz.
Pode ser extrema felicidade ou sofrimento desesperado. Provavelmente ambos e nunca nenhum.
Não há como controlar o futuro. Não há como agarrarmos o nosso peito e lhe dizermos para sobreviver à dor e à desgraça, não há como obrigarmo-nos a avançar.
Vamos todos invariavelmente morrer. Mas não sabemos quando, como ou onde. Não sabemos se teremos dito e feito tudo, mas sabemos que o mais provável é que morramos a meio de uma frase, frase essa inútil e extremamente irrelevante, metáfora perfeita para a nossa existência.
Eu sempre imaginei os piores cenários. Em todas as situações de toda uma vida. Ser pessimista não é só uma escolha, é acima de tudo uma reação do instinto de sobrevivência.
Se imaginarmos todas as hipóteses possíveis, o sofrimento será sempre inferior ao que poderia ser, porque ao menos nós sabíamos que ele aí vinha. Não morreremos dissolvidos em autocomiseração e dor, embora tenhamos de suportar os dois. Sobreviveremos. Passamos uma vida a sofrer por antecipação de dores que provavelmente nunca viverão, mas ao menos estamos preparados. Eu estava preparada.
Infelizmente, o inimaginável acontece muitas vezes. E o problema de sermos destruídos por algo para que não nos conseguimos preparar, é que nunca conseguiremos estar preparados de novo na vida, Todas as dores serão demais e o imaginar dos piores cenários torna-se um transtorno que nos dá insónias.
É preferível viver na ignorância. Não há cliché mais sábio do que "a ignorância é uma bênção". Não saber não nos mata. Não saber faz de nós ingénuos, e a ingenuidade há de nos custar caro, mas permite-nos viver uma vida sem sofrimento absolutamente necessário. Mas o que é necessário vai vergar-nos por fim.
Não posso neste momento saber como morrerei. Não posso saber que desgraças se atravessarão no meu caminho, e quantas vezes cairei sobre mim mesma. Não posso saber quando ficarei eternamente sozinha. Não posso saber.
Não saber costumava dar comigo em doida. As minhas tendências de controlo compulsivo levavam-me a devaneios loucos, a sofrimentos inexistentes. Eu precisava de saber. Como podia eu enfrentar uma situação sem saber? Mas como podia eu saber?
O não saber deixou-me louca de ansiedade. Não há como dormir se o mundo pode desabar em 30 segundos.
Continuo sem saber. Nunca saberei. Mas caí numa dormência ingénua, que eu diria fazer também parte de um instinto animalesco de sobrevivência.  Se o mero rascunho de um pensamento aparece na minha mente, sinto-a rejeitá-lo com força. Tentar respirar e aproveitar o momento,
Limito-me a não saber hoje em dia. Quanto mais eu não sei, mais consigo respirar, Quero controlar, mas não posso. Quis fugir e evadir-me deste pesadelo descontrolado e desorganizado, mas isso não só seria extrema cobardia como seria decidir morrer, pelo menos simbolicamente. Quis morrer simbolicamente muitas vezes. Seguir a poesia, os aviões, a vida, o ar puro. Fugir para o outro lado do mundo. Ou apenas para duas portas ao lado, mas largando tudo aquilo que era. Despejar-me da vida humana e entregar a minha vida a algo.
Sou demasiado humana e/ou egoísta para todas estas pseudo-soluções. Decidi sofrer e não saber. E, assim, rejuvenesci. Pelo menos parcialmente.

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