Morosidade
Nesta tarde em que tudo se parece precipitar, eu deslizo com calma numa sensação de morosidade irrelevante.
Tento eliminar todos os itens na minha lista, mas ainda não pensei no que me vai acontecer quando essa lista chegar ao fim. Quando eu der por mim sem mais que fazer, que não esperar por um futuro incerto.
E isso parece-me tão gigante, tão enormemente avassalador, que tudo o resto é minúsculo ao ponto de não me incomodar de todo.
E é por isso, porque nada me incomoda, que quero escrever. Quero admitir e quero escrever.
O tempo é o meu maior inimigo e também o meu melhor amigo. O tempo curou-me de uma doença que eu tinha incutido a mim própria, o tempo permitiu-me sarar de todas as humilhações e dores. Mas o tempo também me levou. Levou de mim memórias que eu queria guardar, sentimentos de que eu me queria lembrar para servirem de recordação e/ou de aviso.
Foi por causa do avançar do tempo que eu me apercebi que não me passou pela cabeça durante dias. Não me passou nem o vestígio de um sentimento de solidão, de uma dor mal resolvida ou de um embaraço. Senti alguma pena é certo, mas apenas de tempo que investi e que podia ter gasto noutra coisa. O tempo ensinou-me que o pouco que sentia desvaneceu-se a uma velocidade surpreendente, talvez porque tudo se passa a uma velocidade surpreendente ou porque eu sinceramente não tenho como sentir mais que aborrecimento e ocasional indignação.
O tempo também levou de mim a razão de algumas das estupidamente chamadas cicatrizes emocionais, pelo que outra parte da minha vida é revivida na minha mente com aborrecimento e com a vontade de ter gasto o meu tempo com algo mais produtivo. Talvez pareça cruel, mas acho sinceramente que desperdicei demasiado tempo à procura daquilo que no fundo sabia que não ia encontrar.
E o presente principalmente, o ansioso e stressado presente, tira-me de mim. Já não me sinto dentro de mim há mais tempo do que me lembro. E o presente precipita-se de tal forma que já nada do que parecia importar semana passada importa hoje. Nem a minha fúria.
Até a minha paixoneta já me parece distante e irrelevante. Seria de esperar que durasse algum tempo, mas a verdade é que as paixonetas são fúteis e servem apenas para encher o cérebro solitário das pessoas. E é verdade que o meu cérebro se sente solitário, sem nada mais em que pensar para além de em mim.
Descobri que a minha limitação emocional é incapacitante. Não consigo formar qualquer tipo de ligação com outra pessoa, nem consigo sentir-me nem minimamente interessada em qualquer pessoa. Sinto apenas um tédio cinzento e a tal morosidade irrelevante. Por muito interessante ou atraente que a outra pessoa possa ser, eu simplesmente já não tenho nada para dar. Já não tenho nada para dar há muito tempo, desde que nas minhas veias o meu sangue foi substituído por mau humor e tédio. Desde que estou gasta até ao osso e só consigo pensar no que EU vou fazer a seguir.
Não tenho absolutamente nada para oferecer a outra pessoa. Nem quero oferecer nada a outra pessoa. Prefiro falar comigo, andar comigo e ser sozinha. Porquê que haveria de ser com outra pessoa se tudo o que essa pessoa me poderia oferecer seria tédio? Talvez precise de um tempo longe de pseudo-romantismos. Se bem que eu já tirei um tempo deles há muito, mas muito tempo. O mais provável é eu ter simplesmente descoberto que nunca conseguirei estar com outra pessoa. E o mais patético, é que nem sequer tenho pena. Dar uma parte do meu tempo a outra pessoa parece-me um sacrifício enorme para o qual não tenho paciência, nem sentimentos.
E se terei saudades da paixão, do nervosismo, dos risos? Não. Gostava de dizer que sim, mas se tivesse, isso significaria que ainda havia a esperança de aparecer alguém(s) que me revirasse(m) o estômago, o corpo, o cérebro e a vontade. Mas não há. E para que me queria(m) esse(s) alguém(s), sabendo que não lhe(s) posso dar nada, além de uma sinceridade total, cansada e desinteressada? Só se fosse para ser um belo acessório no seu braço. E eu recuso-me a ser um acessório.
Nunca falhei em nada na minha vida. A não ser em sentir. Que é a mais básica das funções humanas, curiosamente. Mas, lá está, eu nunca fui básica.
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