Bendita Crueldade

Meu querido sem-rótulo, sem-rosto e sem-interesse:
É um prazer falar contigo de novo. Tive de esperar para escrever este texto, porque não me sentia furiosa o suficiente para o escrever. Mas agora sinto. Sinto-me corrosivamente furiosa e pronta para expor as verdades.
És um pequeno homem. Aliás, és um pequeno rapaz. Tão pequeno, tão mesquinho, tão patético. Nunca foste mais do que um pequeno homem e nunca serás mais do que pequeno. Nunca conseguirás nada de mais na vida, porque até as tuas ambições se baseiam apenas na ganância e mesmo a tua ganância é pequena. Tudo o que aspiras é uma vida pequena de ignorante com alguém que tenha ainda menos aspirações do que tu e que seja ainda mais ignorante, para se submeter a alguém como tu.
Mas vás, ao menos não és uma desilusão. Para seres uma desilusão eu tinha de estar iludida, eu tinha de achar que tu eras capaz de mudar, ou que a tua personalidade era melhor do que aquilo que é. Mas eu nunca estive iludida, porque tu não consegues esconder a tua pequenez. Daí que sempre soube o que tu és. Como tu és. Nunca fizeste por escondê-lo.
Da maneira mais burra possível, sempre me contaste as tuas aventuras, as tuas histórias de mentiras e covardia. E achaste que eu, a quem tu contaste o que pouca gente sabe, e que te conheço como se fosses eu mesma, me ia deixar enganar, ou não ia reconhecer as tuas mentiras.
Achas sinceramente que alguma vez caí nelas? Achas sinceramente que não sei o lixo que realmente és?
Sempre soube, daí que nunca te tivesse querido de outra maneira que não por conveniência. Não passaste de uma peça conveniente num jogo em que eu ganho sempre. Caso te tenhas esquecido, costumavas implorar e arrastar-te pelo chão só para me veres. E eu, na minha entediada generosidade deixava-te, principalmente se não tivesse mais nada que fazer.
Sempre foste uma diversão no meio da minha vida entediante. E, das poucas vezes que pensei em tornar-te mais do que uma diversão, acabei por reconsiderar, porque sempre achei que havia campos mais verdes e gente mais interessante. Podias ser carinhoso e trabalhador, mas tinhas e tens as piores partes de mim e, ainda por cima, tens outras ainda piores que não se assemelham em nada a mim.
És a pessoa mais egoísta que eu conheço, para além de mim; a pessoa mais arrogante que eu conheço, para além de mim, mas a minha arrogância ao menos é justificada, a tua é apenas ridícula; és um covarde e um mentiroso e pelo menos uma dessas coisas não partilhas definitivamente comigo. Mas mais importante do que tudo, és pequeno. E queres uma mulher pequena que apenas te dê o que tu queres sem discutir. Achaste piada ao meu retaliar por uns tempos, mas eventualmente lidar com alguém de personalidade e feitio mais forte do que o nosso torna-se complicado, principalmente quando se é limitado.
Não confundas a minha fúria com mágoa, meu caro. Não quero de maneira nenhuma saber para onde vais, com quem vais e como vais. Mas vai, desaparece! Já te quero fora da minha vida há muito tempo, aliás, quis-te fora da minha vida quase imediatamente, porque me apercebi no nosso primeiro encontro que não partilhamos os mesmos interesses, as mesmas crenças nem os mesmos tamanhos. Mas mantive-te na minha vida. Em parte por persistência tua, em parte por conveniência minha. Mantive-te na minha vida até chegar a sentir algum tipo de afeição por ti. Mas acredita que essa pequena afeição é produto de um enorme processo de me obrigar a mim própria. Obriguei-me a gostar de ti, porque és decente e eu precisava de alguém que fosse decente e pequeno. Precisava de alguém que gostasse de mim, mas de que eu não quisesse saber muito, para que me pudesse ajudar a saltar sobre os percalços da vida, mas nunca se tornasse um. E, se há coisa que tu não foste foi um percalço. Até porque tudo na nossa demasiado longa não-relação foi planeada e manipulada, e o que não foi, deve ter sido distração minha.
Obriguei-me a gostar de ti porque precisava de alguém como tu quando te conheci, em que eu ainda andava devastada. Precisava de alguém como tu porque precisava de uma distração.
E, ao longo do tempo, precisei de ti sempre que alguma coisa de mal acontecia, para me consolares com as tuas palavras obsoletas e com os teus beijos melosos, que por sinal são a única coisa que sabes fazer bem.
Porquê que estou assim tão furiosa, então, se tu nunca foste grande coisa para mim? Porque foste alguma coisa para mim. Mas, acima de tudo, porque sei, conhecendo-te como se fosses eu mesma, o que tu dizes a toda a gente que te pergunta por mim. O mesmo que tu me dizias delas. Que te fartaste, que eu era demasiado carente e/ou controladora. E depois usas aquele teu esmirrar desafinado para indicar indiferença. E sempre que falavas delas assim eu sabia, pela tua voz e pelo lixo que és, que elas te tinham dado com os pés, que elas se tinham fartado, ou que acharam que TU eras demasiado carente/controlador. Todas elas, no entanto, tinham sido tratadas por lixo.
E é, acima de tudo, isso, que te faz pequeno. Seres tão pequeno que precisas de massajar o teu enorme ego mentindo aos que te rodeiam sobre mulheres que provavelmente não te quiseram mais porque te acharam demasiado... Qual é a palavra que eu ando a repetir desde que comecei a escrever isto?
O resto é-me irrelevante. Sempre soube que eras do mais vulgar e de baixo calibre que havia. Sempre soube que não eras de confiança, pelo que sempre me resignei com o pensamento de fazeres o que quiseres e assim não tinha de me chatear. Sempre soube que Eu e tu não teríamos futuro porque tu eras demasiado mesquinho para mim. Nunca querias viajar, nunca te querias mudar, ou ter mais do que uma casa, uma mulher submissa, uns filhos machistas e ignorantes, e dinheiro, montes de dinheiro. Sempre disse que Eu e tu tínhamos de terminar porque eu tinha medo de me deixar escorregar para um futuro tão pequeno como tu, em que te deixava controlar-me e em que desistia das minhas crenças e das minhas ambições muito maiores do que tu.
Mas, seja como for, vive a tua vidinha pequena e patética. Sê extremamente feliz.
Na minha grandiosa vida, serás apenas um acontecimento longo, mas sem relevância absolutamente nenhuma.
E agora a minha fúria está a esvair-se tão rapidamente quanto apareceu. Nunca consegui ficar furiosa durante muito tempo. Principalmente quando o motivo da minha fúria é minúsculo.
Arrependo-me destas palavras a cada segundo que passa, porque me parece que estou a ser tão mesquinha e idiota quanto tu. Mas é-me irrelevante. Não escrevo para ser bonito, escrevo apenas porque preciso de tirar certas sensações de mim. E a fúria é uma delas. E tu és uma delas. Pelo que garanto que, assim que parar de escrever, a minha fúria terá desaparecido de mim. E tu também.
Adeuzinho, querido.

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