Jornada espiritual
O vento gelado entranhava-se nas minhas veias. Os meus olhos só viam escuridão e luzes, abstrato e concreto. O tempo parecia para sempre parado.
Caminhei uma noite inteira, à espera de encontrar o que procurava. Caminhei uma noite inteira para saber o que procurava.
Mas essa noite não me encheu de nada mais que não tristeza, melancolia. Essa noite não fez mais que me lembrar.
Tive o tempo e o silêncio necessários para analisar todos os aspetos da minha vida. No entanto, houve um que não me deixou pensar em mais nada.
Ao longo das longas ruas do Porto, eu permiti-me confrontar algumas barreiras. Essas barreiras baseavam-se, então, na minha eterna busca por aquilo que sei, racionalmente, não existir. Achava que estava próximo de o reencontrar. Afinal, tinha definitivamente decidido render a minha alma, a minha mente e o meu corpo, a alguém que saberia o que fazer com eles. Já não tinha medo, achava eu. Pelo menos, não tinha medo disso.
Aquela noite enchera-me de outro medo desconhecido. Um medo que nunca fora um medo simplesmente porque estava habituada a fazê-lo. O medo de deixar palavras por dizer. Quantas vezes me arrependera de não ter dito algo? Mas, por outro lado, quando disse aquilo em que pensava, correu bem? Alguma vez? Não... Para mim, dizer essas tais palavras indizíveis, significa o mesmo que tentar. E, como já tinha dito, desisti de tentar. Mesmo assim, sabia que havia pessoas que mereciam essas palavras. E havia pessoas às quais eu tanto devia ter dito e nunca disse.
Portanto, dizer essas palavras eventualmente apaga as pessoas a quem as disse da minha vida. Não as dizer faz com que elas saiam da minha vida como se nunca lá tivessem entrado.
Quando me perguntaram a quem eu nunca disse o que deveria ter dito, um milhão de coisas passou-me pela cabeça. Pensei, primeiro, nos meus pais. Mas descartei essa hipótese. Os meus pais sabiam tudo o que eu não dizia. Depois, pensei nos meus amigos. Eles sabiam, também, mais ou menos.
Por fim, passei pelas minhas relações amorosas. E, aí sim, encontrei um milhão de palavras que deviam ter sido ditas. Era curioso. Uma dessas histórias intermináveis respirava o mesmo ar que eu nesse momento. E eu pensava no que lhe devia ter dito e não disse. Mas a verdade é que só pensar nisso trouxera-me uma exaustão imunda. Não tinha nada para lhe dizer. A verdade era, realmente, essa. Não havia mais para dizer entre nós. E isso podia entristecer-me, mas também me alegrava. Esperava que ele tivesse uma vida longa e feliz. Que encontrasse o que andava a procurar. O rancor nem sequer me é possível quando sei que a pessoa a quem quero dirigir o rancor é mais que inocente das minhas acusações. Portanto, apenas me restava um cansaço envergonhado no que tocava a ele. E esta será a última vez que o nome dele será pronunciado em qualquer parte da minha vida. Ele já não existe, já não tem relevância para a minha vida ou para o ''jogo''. Mas, se alguma vez me perguntassem sobre ele de novo, baseá-lo-ia num encolher de ombros, num sorriso resignado, e numa exclamação: ''Bom rapaz, mais um que se atravessou no meu caminho!''
Outra dessas histórias, aquela a que eu decidira recentemente entregar o que me resta, fez-me refletir sobre o quão pouco me fazia refletir. Não tinha nada por dizer a esse protagonista. Sempre lhe dissera tudo, mesmo quando não devia. Portanto, tudo o que me faltaria dizer seria apenas repetir o que já tinha dito.
E, por fim, a última personagem de que me lembrei... A essa tinha um milhão de palavras que ficaram por dizer. Ele já me oferecera várias vezes a oportunidade de as dizer, mas eu sabia que agora não valia a pena. A parte de mim que as queria dizer, bem como a parte que queria que elas tivessem efeito, morrera. Levara-a ele consigo. E levá-la-ia o resto da nossa vida. Portanto, creio que, neste momento, só me sobra dizer-lhe realmente isso. Que ele levou uma parte grande de mim com ele. E que nunca vou conseguir recuperar a pessoa que era antes dele, antes deste milhão de anos.
Resumo aquela noite a vários pares de olhos maravilhados pela beleza do Douro e reluzentes das confissões feitas. Resumo aquela noite a um espírito que vagueava pelas ruas da invicta cidade, à procura de qualquer tipo de luz, de sinal. Resumo aquela noite à minha pessoa a tentar encontrar-se outra vez. Resumo aquela noite à vontade sôfrega de sobreviver aos meus sentidos.
Resumo aquela noite a um cansaço emocional tão grande, que me vai fechar por muito e muito tempo...
Caminhei uma noite inteira, à espera de encontrar o que procurava. Caminhei uma noite inteira para saber o que procurava.
Mas essa noite não me encheu de nada mais que não tristeza, melancolia. Essa noite não fez mais que me lembrar.
Tive o tempo e o silêncio necessários para analisar todos os aspetos da minha vida. No entanto, houve um que não me deixou pensar em mais nada.
Ao longo das longas ruas do Porto, eu permiti-me confrontar algumas barreiras. Essas barreiras baseavam-se, então, na minha eterna busca por aquilo que sei, racionalmente, não existir. Achava que estava próximo de o reencontrar. Afinal, tinha definitivamente decidido render a minha alma, a minha mente e o meu corpo, a alguém que saberia o que fazer com eles. Já não tinha medo, achava eu. Pelo menos, não tinha medo disso.
Aquela noite enchera-me de outro medo desconhecido. Um medo que nunca fora um medo simplesmente porque estava habituada a fazê-lo. O medo de deixar palavras por dizer. Quantas vezes me arrependera de não ter dito algo? Mas, por outro lado, quando disse aquilo em que pensava, correu bem? Alguma vez? Não... Para mim, dizer essas tais palavras indizíveis, significa o mesmo que tentar. E, como já tinha dito, desisti de tentar. Mesmo assim, sabia que havia pessoas que mereciam essas palavras. E havia pessoas às quais eu tanto devia ter dito e nunca disse.
Portanto, dizer essas palavras eventualmente apaga as pessoas a quem as disse da minha vida. Não as dizer faz com que elas saiam da minha vida como se nunca lá tivessem entrado.
Quando me perguntaram a quem eu nunca disse o que deveria ter dito, um milhão de coisas passou-me pela cabeça. Pensei, primeiro, nos meus pais. Mas descartei essa hipótese. Os meus pais sabiam tudo o que eu não dizia. Depois, pensei nos meus amigos. Eles sabiam, também, mais ou menos.
Por fim, passei pelas minhas relações amorosas. E, aí sim, encontrei um milhão de palavras que deviam ter sido ditas. Era curioso. Uma dessas histórias intermináveis respirava o mesmo ar que eu nesse momento. E eu pensava no que lhe devia ter dito e não disse. Mas a verdade é que só pensar nisso trouxera-me uma exaustão imunda. Não tinha nada para lhe dizer. A verdade era, realmente, essa. Não havia mais para dizer entre nós. E isso podia entristecer-me, mas também me alegrava. Esperava que ele tivesse uma vida longa e feliz. Que encontrasse o que andava a procurar. O rancor nem sequer me é possível quando sei que a pessoa a quem quero dirigir o rancor é mais que inocente das minhas acusações. Portanto, apenas me restava um cansaço envergonhado no que tocava a ele. E esta será a última vez que o nome dele será pronunciado em qualquer parte da minha vida. Ele já não existe, já não tem relevância para a minha vida ou para o ''jogo''. Mas, se alguma vez me perguntassem sobre ele de novo, baseá-lo-ia num encolher de ombros, num sorriso resignado, e numa exclamação: ''Bom rapaz, mais um que se atravessou no meu caminho!''
Outra dessas histórias, aquela a que eu decidira recentemente entregar o que me resta, fez-me refletir sobre o quão pouco me fazia refletir. Não tinha nada por dizer a esse protagonista. Sempre lhe dissera tudo, mesmo quando não devia. Portanto, tudo o que me faltaria dizer seria apenas repetir o que já tinha dito.
E, por fim, a última personagem de que me lembrei... A essa tinha um milhão de palavras que ficaram por dizer. Ele já me oferecera várias vezes a oportunidade de as dizer, mas eu sabia que agora não valia a pena. A parte de mim que as queria dizer, bem como a parte que queria que elas tivessem efeito, morrera. Levara-a ele consigo. E levá-la-ia o resto da nossa vida. Portanto, creio que, neste momento, só me sobra dizer-lhe realmente isso. Que ele levou uma parte grande de mim com ele. E que nunca vou conseguir recuperar a pessoa que era antes dele, antes deste milhão de anos.
Resumo aquela noite a vários pares de olhos maravilhados pela beleza do Douro e reluzentes das confissões feitas. Resumo aquela noite a um espírito que vagueava pelas ruas da invicta cidade, à procura de qualquer tipo de luz, de sinal. Resumo aquela noite à minha pessoa a tentar encontrar-se outra vez. Resumo aquela noite à vontade sôfrega de sobreviver aos meus sentidos.
Resumo aquela noite a um cansaço emocional tão grande, que me vai fechar por muito e muito tempo...
Comentários
Enviar um comentário