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Divagações de uma Ex-cética

As comédias românticas dizem-nos que o amor é complicado. Que é sujo, que dói, que é suposto ser pouco saudável, agressivo e que deve marcar-nos para toda a vida, como se nunca mais se pudesse amar mais nada ou ninguém da mesma maneira. Como se não fossemos todos apenas mais um nome numa longa lista de nomes escritos num papel cuspido de dor, mágoa, desilusão e arrependimento. Como se não fôssemos todos meramente alguém de que outra pessoa se lembrou e se esqueceu num abrir e fechar de olhos. Costumava magoar-me tremendamente esta realidade. Para pessoas com ideias irrealistas de grandeza é difícil ser-se apenas um nome num papel. É difícil imaginar que alguém consiga ultrapassar-nos, ou até nem sequer nos ver, ou pelo menos não reparar. Custa que alguém que imaginávamos que estava ao nosso serviço e dispor vire as costas um dia sem aviso, sem querer saber se o vemos a sair da nossa vida. Nunca achei que pudesse ser apenas um nome numa lista de arrependimento e de desprezo. Um nome...

Catarse

Não há como saber o que o futuro nos traz. Pode ser extrema felicidade ou sofrimento desesperado. Provavelmente ambos e nunca nenhum. Não há como controlar o futuro. Não há como agarrarmos o nosso peito e lhe dizermos para sobreviver à dor e à desgraça, não há como obrigarmo-nos a avançar. Vamos todos invariavelmente morrer. Mas não sabemos quando, como ou onde. Não sabemos se teremos dito e feito tudo, mas sabemos que o mais provável é que morramos a meio de uma frase, frase essa inútil e extremamente irrelevante, metáfora perfeita para a nossa existência. Eu sempre imaginei os piores cenários. Em todas as situações de toda uma vida. Ser pessimista não é só uma escolha, é acima de tudo uma reação do instinto de sobrevivência. Se imaginarmos todas as hipóteses possíveis, o sofrimento será sempre inferior ao que poderia ser, porque ao menos nós sabíamos que ele aí vinha. Não morreremos dissolvidos em autocomiseração e dor, embora tenhamos de suportar os dois. Sobreviveremos. Passam...

Regresso

Nos últimos dias senti-me dentro da minha pele. Pela primeira vez em tanto tempo que nem consigo contar. Senti-me fria, vazia, impassível. Acima de tudo, senti-me calma. Senti como se o mundo tivesse finalmente parado de correr e eu pudesse finalmente aproveitá-lo. Já não sinto como se a minha vida me escorresse por entre os dedos e que estes eram os anos para morrer antes de renascer, que eu bloquearia e de que nunca me lembraria de novo na minha vida. Talvez tenha estado enganada. Apesar de tudo, sinto as mudanças. Sinto-as na minha muito maior sensibilidade e compreensão de dores alheias, sinto-as no aumento ligeiro da minha paciência, sinto-as no amor profundo que espero que nunca passe. Já não me sinto a definhar lentamente. O cansaço existencial mantém-se, e a absoluta noção de que não existe felicidade por inteiro também. Já não vivo descuidada. Diz a pessoa que sempre teve as maiores defesas deste planeta. Mas era ingénua. Acreditava numa vida que eu controlava, acreditava...

Esquecimento

Passei uma vida sem sentir. Não atribuo a isso nenhum pendor negativo ou positivo, é apenas um facto. E acho que vivi uma vida feliz, portanto, chego à conclusão que a falta de sentimentos é a tão apregoada felicidade. O simples conforto, sem mais nem menos, sem dor por excesso ou falta, é a felicidade. Passei uma vida a enterrar os apertos do meu coração em palavras, imagens e sons. Sempre que sentia o mínimo desconforto tentava entrar no estado mais vegetativo possível, à espera que esse desconforto fosse lavado pela minha racionalidade, assim que a minha cabeça arrefecesse, assim que o meu cérebro se lembrasse de quem eu era, e de que me recusava a existir enquanto ser humano sentimental. Raramente me permitia a realmente sentir. Até porque quando me permitia, não sentia. As dores a que eu me permitia eram imaginadas por mim, manipuladas por mim, ao tentarem representar aquilo que sentia quando a dor era verdadeira. Mas quando a dor é verdadeira não consigo escrever, ou pensar,...

Era uma vez

Era uma vez uma menina. Se olhassem para ela, não veriam mais do que uma menina. Não veriam mais do que uma criança como todas as outras, que brincava, ria e dizia disparates. E esta menina era uma criança como todas as outras. A diferença entre ela e as outras é que na sua cabeça haviam castelos e vitórias, todas destinadas a ela. Talvez isto não pareça diferente de todas as outras meninas por esse mundo fora, mas esta menina em particular não fazia as coisas por metade. Os castelos e vitórias eram reais e bem delineados, ela já tinha decidido de que seriam feitos, como seriam feitos e tudo o que ela faria para o resto dos longos anos que seriam a sua vida. E com o passar dos anos, estas ilusões não desapareceram. Os castelos não ruíram, as vitórias não foram atraiçoadas. A menina viveu a sua vida como decidira fazer, e como as suas já não controladas emoções diziam que ela devia fazer, independentemente de ser o melhor para ela ou não. Com o passar dos anos, a menina acumulou tan...

Confissão

Lutar contra connosco próprios tem de ser das piores batalhas que o ser humano tem de enfrentar ao longo da vida. Ter de acordar todos os dias, levantar-se e cumprir com todas as obrigações, quando apenas se quer deixar deitado na cama para o resto da vida, tem de ser do mais doloroso que há. Levantarmo-nos de manhã para nos dirigirmos para um sítio que nos deixa em agonia, e que deu absolutamente cabo da nossa estabilidade mental tem de ser do pior que existe. No entanto, fazemo-lo. Levantamo-nos, vamos, cumprimos, vivemos mais um dia, apesar de dispensarmos bem aquele dia que vivemos. Meus caros leitores, defrontei-me recentemente de caras com algo que eu nunca pensei que a minha mente radical, afiada e amarga tivesse de se defrontar: doenças do foro psicológico. Sempre achei que já estava demasiado estragada da cabeça para a minha cabeça ficar literalmente e completamente estragada por danos que não serão fáceis, ou talvez possíveis de reparar. E não sei o que o despoletou...

Depois vemos

Amor, não vás. Eu sei que já não sou a rapariga que costumava ser, a de sorriso arrogante, humor contundente e palavras afiadas. Eu sei que estou a deixar os meus sonhos fugirem pelos meus dedos cada vez mais magros e que tenho de lidar com o desejo ardente de fugir. Eu sei que já não sou digna de mim. Sou fraca e dorida, e o meu coração aperta ou larga com demasiada força. Os meus olhos já não conseguem ler mais e as minhas mãos já não são feitas para escrever todas as palavras que eu sempre achei que seriam a minha vida. Eu sei que já não tenho a força por que te apaixonaste e que já não consigo viver só comigo e com a minha personalidade. Também sei que já não sou o desafio cético com que te deparaste, que a minha inteligência se perdeu algures na minha dor e que a minha assertividade foi engolida pelos meus soluços. Eu sei que já não sou eu, meu Amor. Já não reconheço essa rapariga de que todos falam, e apenas posso simular a raiva que me costumava atravessar e que me tornava i...