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Esquecimento

Passei uma vida sem sentir. Não atribuo a isso nenhum pendor negativo ou positivo, é apenas um facto. E acho que vivi uma vida feliz, portanto, chego à conclusão que a falta de sentimentos é a tão apregoada felicidade. O simples conforto, sem mais nem menos, sem dor por excesso ou falta, é a felicidade. Passei uma vida a enterrar os apertos do meu coração em palavras, imagens e sons. Sempre que sentia o mínimo desconforto tentava entrar no estado mais vegetativo possível, à espera que esse desconforto fosse lavado pela minha racionalidade, assim que a minha cabeça arrefecesse, assim que o meu cérebro se lembrasse de quem eu era, e de que me recusava a existir enquanto ser humano sentimental. Raramente me permitia a realmente sentir. Até porque quando me permitia, não sentia. As dores a que eu me permitia eram imaginadas por mim, manipuladas por mim, ao tentarem representar aquilo que sentia quando a dor era verdadeira. Mas quando a dor é verdadeira não consigo escrever, ou pensar,...

Era uma vez

Era uma vez uma menina. Se olhassem para ela, não veriam mais do que uma menina. Não veriam mais do que uma criança como todas as outras, que brincava, ria e dizia disparates. E esta menina era uma criança como todas as outras. A diferença entre ela e as outras é que na sua cabeça haviam castelos e vitórias, todas destinadas a ela. Talvez isto não pareça diferente de todas as outras meninas por esse mundo fora, mas esta menina em particular não fazia as coisas por metade. Os castelos e vitórias eram reais e bem delineados, ela já tinha decidido de que seriam feitos, como seriam feitos e tudo o que ela faria para o resto dos longos anos que seriam a sua vida. E com o passar dos anos, estas ilusões não desapareceram. Os castelos não ruíram, as vitórias não foram atraiçoadas. A menina viveu a sua vida como decidira fazer, e como as suas já não controladas emoções diziam que ela devia fazer, independentemente de ser o melhor para ela ou não. Com o passar dos anos, a menina acumulou tan...

Confissão

Lutar contra connosco próprios tem de ser das piores batalhas que o ser humano tem de enfrentar ao longo da vida. Ter de acordar todos os dias, levantar-se e cumprir com todas as obrigações, quando apenas se quer deixar deitado na cama para o resto da vida, tem de ser do mais doloroso que há. Levantarmo-nos de manhã para nos dirigirmos para um sítio que nos deixa em agonia, e que deu absolutamente cabo da nossa estabilidade mental tem de ser do pior que existe. No entanto, fazemo-lo. Levantamo-nos, vamos, cumprimos, vivemos mais um dia, apesar de dispensarmos bem aquele dia que vivemos. Meus caros leitores, defrontei-me recentemente de caras com algo que eu nunca pensei que a minha mente radical, afiada e amarga tivesse de se defrontar: doenças do foro psicológico. Sempre achei que já estava demasiado estragada da cabeça para a minha cabeça ficar literalmente e completamente estragada por danos que não serão fáceis, ou talvez possíveis de reparar. E não sei o que o despoletou...

Depois vemos

Amor, não vás. Eu sei que já não sou a rapariga que costumava ser, a de sorriso arrogante, humor contundente e palavras afiadas. Eu sei que estou a deixar os meus sonhos fugirem pelos meus dedos cada vez mais magros e que tenho de lidar com o desejo ardente de fugir. Eu sei que já não sou digna de mim. Sou fraca e dorida, e o meu coração aperta ou larga com demasiada força. Os meus olhos já não conseguem ler mais e as minhas mãos já não são feitas para escrever todas as palavras que eu sempre achei que seriam a minha vida. Eu sei que já não tenho a força por que te apaixonaste e que já não consigo viver só comigo e com a minha personalidade. Também sei que já não sou o desafio cético com que te deparaste, que a minha inteligência se perdeu algures na minha dor e que a minha assertividade foi engolida pelos meus soluços. Eu sei que já não sou eu, meu Amor. Já não reconheço essa rapariga de que todos falam, e apenas posso simular a raiva que me costumava atravessar e que me tornava i...
Estou irremediavelmente doente. Tenho lido este livro sobre um homem que sofre de dores crónicas físicas e temo também as ter. Mas as minhas não são físicas. Estou muito, muito doente... Verga-me o peso de tudo nos ombros. O peso da solidão, da tortura e do medo. Aterroriza-me o facto de que há a hipótese que desta vez talvez nada me salve. Nem o tempo, nem o carinho, nem a entrega. Só vejo uma espiral imensa de dor e tortura. Da qual não tenho como sair. O tempo não passa. Passei a vida a queixar-me de que o tempo passava demasiado depressa e ele decidiu abrandar no momento errado. Decidiu abrandar sadicamente agora, que a vida se espreme da minha mente dorida. E se nada me salvar? E se ninguém conseguir chegar até mim e eu permaneça doente para os restos dos meus dias? Na minha cabeça passeiam imagens de mudanças e resoluções, mas conseguirei cumpri-las? E serão as mudanças necessárias? Este arranhar no meu peito enlouquece-me. Deixa-me sem rumo e tão completamente sozinha.....

Interlúdio

O futuro tem de chegar. O futuro tem de chegar porque o presente está demasiado usado e gasto. Porque eu preciso de ultrapassar este intervalo na minha vida. Preciso de avançar. Preciso de me ocupar com sociabilizar, estudar, festejar e aproveitar. Preciso de ter menos tempo para pensar, de estar menos tempo sozinha.  Vou sucumbir a mim mesma se estiver sozinha. Tal como quase fiz quando dei por mim na escuridão, sozinha e preenchida de uma dor irreparável. As ideias que me passam pela cabeça ou me magoam ou me aterrorizam, e não sei sinceramente quais prefiro. Não posso partir, por muito que queira, por muito que precise. E esta necessidade premente de partir, misturada com a obrigação assertiva de ficar, vai ser o que vai esgotar a minha sanidade mental. Já não me sinto dentro de mim há muito tempo. Diria um ano, talvez mais. No entanto, à medida que o mundo me abandona e que o futuro avança eu sinto-me cada vez mais descontrolada e longe do volante das minhas emoções...

One and only

Ninguém mentalmente sã ama desta maneira. Ninguém mentalmente sã teme uma perda com tanto fervor, imaginando-a pior que o objeto mais contundente a enterrar-se na pele tenra. Ninguém mentalmente sã precisa de se anestesiar do próprio amor para não enlouquecer. Ninguém enlouquece com a espera, com o medo ou com a própria loucura. A não ser que já não tivesse muita sanidade mental, ou a não ser que tudo aquilo que eu suspeito seja verdade. Não posso estar a enlouquecer com um amor banal. Ninguém tão cético como eu enlouqueceria com um amor vulgar como aqueles que passeiam à minha volta. Alguém que, como eu, não só não acreditava no amor como desprezava os que acreditavam, não cai desta maneira num amor típico. Um fosso tão profundo, com uma queda tão intensa e dolorosa, não pode ser normal. Dou pela minha mente antes racional a acreditar no que eu consideraria contos de fada. Em predestinação, romances eternos e numa ligação tão forte que só pode ter algo de divino. É verdade que n...