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Ganhar ou Perder

Nunca pensei em mim mesma como um porto seguro, como algo digno de confiança, a que se retorna sempre que se sente perdido. Nunca pensei em mim como um qualquer tipo de brinquedo que nos anima quando não se sabe o que se fazer, quando não temos quem mais nos anime. Nunca pensei em mim como certa. Previsível. Fácil de manipular. Mas o tempo prova que estou errada. Que talvez deva pensar em mim assim. Talvez deva efetivamente aumentar a distância entre mim e aquilo que me ridiculariza: a minha enorme e despeitada capacidade de perdoar o que não deve ser tão facilmente perdoado. Concentrar-me naquilo que tenho de me concentrar, tanto intelectualmente como fisicamente. Esquecer que há outras pessoas no mundo. Essas pessoas não importam quando eu estou traçar o meu futuro. As pessoas que me rodeiam já não me rodearão dentro de um ano. Portanto, o quê que elas importam? Nada. O quê que ele importa? Nada. O quê que ele importa? Nada. O quê que ele importa? Nada. ... Não sou um porto seg...

O Futuro

21 de setembro de 2024, As minhas pernas nuas estavam cruzadas debaixo da mesa alta. O meu punho fechado suportava o meu rosto, enquadrado pelo meu cabelo curto, até ao meio do pescoço, que se se encaixava perfeitamente na minha expressão. Costumava adorar cabelos longos, mas há algum tempo que percebera que o que era mais prático era o adequado. Aliás, passara a conceber a estética pessoal como uma mera forma de marketing. Já não me vestia para me sentir bem, para impressionar a mim mesma, a outras, a outros. Sabia o aspeto que tinha. Sabia que era tão prejudicial como benéfico. Portanto, passei a descuidar-me. Não literalmente, mas no assunto em que apenas me vestia bem por hábito, para ter um aspeto polido e de confiança. Apenas me olhava ao espelho para ter a certeza que a minha maquilhagem estava bem colocada, não para me embebecer com a minha aparência. Era irrelevante. Daí que as minhas unhas fossem curtas e pintadas de um vermelho escuro. Daí que estivesse sobre uns sapatos p...

Os Clintons

Ele pega-me na mão através da mesa. A maneira como envolve a minha é suave e delicada, dobrando-a com um mero toque de dedos. O gesto era distraído, despropositado, demonstrando uma afeição acostumada, habitual e leve. Sorri-lhe levemente, devolvendo o leve aperto de dedos. As pessoas à nossa volta fitavam-nos com curiosidade disfarçada. Talvez porque somos jovens, talvez porque somos atraentes. Mas principalmente porque vivíamos um belo romance sofisticado, objetivo, sorridente, leve e de uma perfeição incrível. Ambos brilhamos sofisticação. O meu longo e liso cabelo sorri brilho, a minha confortável mas arranjada roupa assenta-me como uma luva. O cabelo dele está sempre perfeito, os olhos verdes dele têm sempre o mesmo brilho, e a roupa dele, escolhida sempre por mim, torna-o ainda mais largo, ainda maior, ainda mais adulto. Os lábios dele movem-se enquanto ele discute um qualquer assunto sobre o qual eu não tenho qualquer interesse, mas eu não o ouço. Nunca fui uma boa ouvinte. M...

Antecipação - II

Os meus olhos aterrorizados fixaram-se na poeira. Os meus lábios estavam abertos, o meu rosto traduzia o puro horror de alguém que sabia que o seu fim estava eminente. Inspirei fundo o cheiro a enxofre e a pó. À minha frente os escombros da base da NATO lembravam o Apocalipse. E era, de certa forma, o Apocalipse. A salvação deste mundo, o fim desta guerra dissolvera-se ali, perante os meus demasiado novos olhos, num ruir de edifícios. Os soluços atacaram a minha garganta. Sufoquei-os. Não era uma menina. Desde há um ano que era um soldado. Não uma menina. Não tinha o direito de chorar. Todas as minhas lágrimas tinham sido vendidas tanto ao Estado português, como à NATO, como a Deus, como ao Diabo. Recompus uma expressão digna e inexpressiva. Mas os meus olhos continuavam tão esbugalhados de terror como antes. Sabia que tal aconteceria. Alistei-me para isto mesmo. Para morrer numa guerra sem sentido. Alistei-me para morrer. Não me pareceu justo que os nossos irmãos, os nossos pais, os...

''I've loved and I've lost''

Tenho tendência a pensar demais. A racionalizar aquilo que não devia ser racionalizável. Vivo num enorme cálculo. Sou tão infinitamente calculista... Tento sempre prever, estimar as consequências de tudo o que sinto. Não acredito em espontaneidade. Já acreditei há muito tempo, que tudo cai do céu, que um dia encontraria uns quaisquer olhos por acaso e que tudo seria espontâneo, imediato. Que tudo nos cairia em cima, como nos filmes. Mas a vida não funciona assim. Portanto, ignoro as sensações espontâneas que por vezes me assolam. Ignoro a súbita paixão, a súbita felicidade. Porque tudo isso acaba por se desvanecer. E o que sobra? A mesma sensação de tédio, a mesma sensação de vazio. Acreditei em tudo o que era espontâneo há dois anos. Entretanto, a minha vida caiu de um precipício. E eu caí num poço. Caí e tornei-me alguém que precisa de se apagar, alguém que precisa de se divertir para se esquecer. Tornei-me alguém que tem um medo incrível de tudo. Tornei-me alguém que não consegue...

Delirante ebriedade

A rapariga que me fita faz o mesmo movimento de pescoço que eu. Tem os olhos inchados de um cansaço não existente, as réstias de maquilhagem borratada a espalharem-se à volta dos seus olhos, a pele de um pálido cansado, os lábios inchados, o cabelo revolto. Parece que lhe sugaram a vida. Suspirei e franzi o sobrolho. A rapariga fez o mesmo. Lavei a cara na esperança de que as minhas máculas desaparecessem. Algumas ficaram disfarçadas, mas a maior parte não foi a lado nenhum. O enjoo insistente que me assolava o estômago era a única coisa que me assegurava que a noite anterior não tinha sido um mero delírio de uma mente ensonada. Os arranhões nas minhas pernas e pés tinham o mesmo efeito. Contorci o rosto num desagrado tão profundo que tive a certeza de que ia ficar com rugas. Disseram-me que quando nos vemos no espelho, vemos uma versão mais nova de nós próprios. Se assim é e a versão mais nova de mim parece estar nos seus muito desgastantes e exaustos 30 anos, então a versão real de...

O último ano antes do resto da minha vida

Deparei-me recentemente com um bloqueio total de imaginação. O meu cérebro preferiu dedicar-se ao tédio, ao sedentarismo e à apatia, em vez de se dedicar a ser produtivo. Depois de suspirar muitos enfins, obriguei-me a sentar à frente do computador, e obriguei-me a arrancar. Arrancar é indubitavelmente o pior, principalmente quando não sabemos sobre o que escrever. Porque, meus caros amigos, para se escrever é preciso ter-se ou uma imaginação incrível, ou uma vida incrivelmente interessante de se reportar. E eu, geralmente, tenho pelo menos uma dessas variáveis, no entanto, ultimamente dou por mim sedenta de ambas. Podia reportar as belas semanas de férias que tive, em que me deparei com um calor insuportável, praias brancas e mares gelados, uma bela banheira de hidromassagem num hotel de luxo, castelos e catedrais de uma beleza estonteante, um motor de carro avariado e uma capital tão completamente cheia de pessoas, que parecia transbordar. No entanto, por alguma razão, tudo isso me...