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Perdão não concedido

E se não ficou esclarecido: não, não te perdoo. Perdoei-te instantaneamente, como se nem importasse. Portanto, estou-te a dizer agora, passado todo este tempo: não te perdoo. Não te perdoo por teres destruído qualquer hipótese que eu tivesse em recomeçar. Não te perdoo por me teres mudado. Por me teres transformado num monte de espera, transe e dormência ambulante. Não te perdoo por me tornares velha e amarga. Não te perdoo por me tornares insegura, por teres lascado a minha autoconfiança, o meu ego. Por teres brincado com a minha paciência. Não te perdoo, após este tempo todo. Não te perdoo por ainda te ver todos os dias, em todas as minhas ações. Por me lembrar das tuas reações, das tuas palavras. Por ainda seres tão presente como se, de facto, estivesses sentado, neste momento, a meu lado. Não te perdoo por ter passado um ano e eu achar tão, mas tão, estranho as circunstâncias de estabilidade, de quase felicidade. Não te perdoo por andar completamente exausta, impossivelmente ent...

Não posso esperar mais .

Não sei bem porquê, nem como, mas estive à espera este tempo todo. Estive à espera de um milagre, de algo que curasse, de um remendo que pusesse tudo junto, tudo reconciliado. Esperei e esperei. Fartei-me de esperar por algo que nunca veio, ou que veio mas em pequenas doses egoístas. Em doses que não foram nem nunca serão o suficiente. Desperdicei tanto tempo da minha vida à espera de sinais, de palavras, qualquer coisa. Aliás, penso que estive este tempo todo simplesmente à espera de uma sincera ''desculpa''. Se a tivesse tido, penso que teria esquecido tudo isto há muito mais tempo. E agora acabou. Estou farta, farta de desperdiçar tempo da minha juventude amargurada. Não posso esperar nem mais um segundo. Não posso passar nem mais um segundo apaixonada por um fantasma. Sim, porque ele não é mais que um fantasma. É tão real como os meus sonhos, está tão visível como os sussurros das folhas das árvores, está tão presente quanto todos os que partiram para nunca mais v...

Medos

Meus queridos leitores, Nos últimos tempos, tenho andado bloqueada em termos literários. Assim sendo tenho deixado a minha mente descansar, não me forçando a escrever textos que de certeza sairiam inconsequentes e forçados. Hoje, no entanto, decidi que era altura de o fazer e que, não estando inspirada, deveria fazer algo que nunca faço: dirigir-me a vocês diretamente. Além disso irei hoje, também, escrever mais do que um texto para compensar todos aqueles dias em que não fiz nenhum. Neste texto em particular vim abordar um assunto que me tem incomodado especialmente nos últimos dias. Os medos. Não me refiro a medos de demónios ou a sobrenaturais ou coisa do género, nem a fobias. Refiro-me a medos no que toca ao futuro. Fui amaldiçoada com esta incapacidade de viver no presente. Só me é possível viver ou no passado ou no futuro. Nos últimos tempos o passado já não me incomoda (razão principal do meu bloqueio de escritor), portanto tenho-me atormentado com os meus planos para...

Perguntas

Os meus olhos cegaram-se de novo. As vozes tornaram-se apenas ecos no fundo da minha mente, as cores desapareceram. Tudo foi transformado nos escuros recônditos da minha mente, os quais eu já tinha visitado demasiadas vezes naquele dia. E aí, isolada pelas paredes de cimento dos meus pensamentos, ousei libertar as minhas frustrações, as minhas nostalgias, as minhas angústias. As minhas perguntas. Lembrei-me do dia anterior, a imagem dele a atravessar o campo de futebol, a fina chuva a criar uma áurea idílica à volta dele. Lembrei-me dessa manhã, em que os olhos dele se cravaram em mim, tão iguais... Meu Deus, tão iguais. O meu coração começou a bater descompassadamente. É tudo demasiado igual, um dèja vu, uma espiral infinita, um pesadelo! Não desaparece nunca, não se esmorece, não me deixa respirar! Não estou livre em lado nenhum, nem na minha própria mente! Sinto a infinita vontade de perguntar tudo, de pôr em questões tudo o que me tem vindo a atormentar, a moer, a torturar! ...

Recordação ambulante

O ambiente passou de escuro e frio para festivo e cheio. As vozes animadas do espaço transformavam tudo em luz e calor. O cheiro a bolos e café impregnava o ar e criava uma aura de refúgio do frio que se enfrentaria lá fora. Era cedo para esse tipo de constatações. Em fins de setembro o tempo não estava frio, apenas cinzento e frustrante. Mas dentro daquele espaço quente e isolado era difícil não imaginar nevões a cobrir o chão lá fora. Envolvida pelo cheiro permanente a confeções doces, avancei a passos largos no acolhedor espaço. Os olhos dele foram os primeiros a encontrar-me assim que transpus a porta improvisada. Os meus também cedo encontraram os dele e, como sempre, não se desviaram. Só desviei o olhar quando me sentei de costas voltadas para ele. Não me atrevi a certificar-me se ele ainda estava a olhar, sentindo já o meu coração a esmurrar as minhas costelas. Não sei o nome dele. Já o devo ter ouvido algures, mas provavelmente não quis saber, até porque não faria diferença...

Tardes de chuva

Os meus olhos cruzaram-se com os dele. No meio daquela gente toda, senti algo quente a borbulhar-me na pele. Quis sorrir, mas sabia que não era boa ideia. Apressei-me portanto a desviar o olhar e a ser empurrada pela multidão. No meio de todas aquelas vozes, de todos aqueles passos mecânicos na mesma direção, debaixo da chuva miudinha que preenchia o ar de um cinzento sufocante, eu permiti-me pensar naquilo que tinha tentado abafar o dia todo. Perguntei-me o que raio é que nos tinha acontecido. Como é que, quase de repente, tudo se extinguiu, se apagou, se foi. Como é que, no que parece tão pouco tempo, eu passei de o adorar, para ele me ser como o nevoeiro fino que me atravessava nesse momento. Como é que eu, que me perdi naqueles olhos tão castanhos, que deixei tanto, mas tanto tempo da minha vida neles, simplesmente me esqueci. Como é que eu passei de ter tantas saudades agoniadas para só me lembrar dele quando os meus olhos se cruzam involuntariamente com os dele. Como é que eu p...

Se eu tivesse sabido...

Estive a ver fotografias. Tanto minhas como alheias, de há uns anos, de há uns meses, de há umas semanas. Consegui localizar as situações em que estava metida em todas elas, como começaram, como acabaram. Enchi-me de uma nostalgia profusa, que agiu como pequenas cordas que sufocavam ligeiramente o meu peito. Enchi-me de saudades de tudo o que eu dizia ou fazia, de como a vida era, de como eu me sentia nessas alturas. Foi-me tão interessante quanto doloroso ver a minha evolução, ver o quão depressa o tempo passou e quanto mudou em meros meses. Não só fisicamente, apesar de, de facto, em poucos meses, eu parecer outra pessoa, mas essencialmente em termos de personalidade, em termos de... Farpas. Lembrei-me desta palavra no momento em que me deparei com uma fotografia, A fotografia. Já não olhava para ela há tantos meses, já nem me lembrava da existência dela. Mas naqueles minutos em que a fitei, senti exatamente isso: farpas. Farpas geladas que se cravaram no meu coração. E eu, que há ...